Peter Kuper: "quando desenho, tiro tudo de ruim do peito" | Judão

O autor norte-americano bate um papo curto e exclusivo com o JUDÃO pouco antes de pegar o avião pra dar um rolê pelo Artists’ Alley brasileiro

Em 2013, quando estive no FIQ pela primeira vez, havia comentado com um amigo que Peter Kuper seria um dos convidados. “Você deveria ler O Sistema“, me disse ele, quando soube que eu – como a grande maioria dos leitores, aliás – comentei que só conhecia o seu trabalho com o genial Spy vs Spy, das páginas da MAD.

...e que surpresa.

A graphic novel, que chegou a ser lançada pelo selo Vertigo da DC Comics, fala sobre sexo, racismo, violência, amor, crime e injustiça na cidade de Nova York. Tudo sem usar um único diálogo.

Mas a genialidade de Kuper enquanto autor também é observada nos detalhes de seu comportamento: em BH, ele carregava um estojo simples com alguns lápis de cor e, sempre que parava em algum lugar, começava a desenhar. Em questão de segundos terminava uma paisagem inteira com uma riqueza de detalhes impressionante.

Desta última vez que esteve no Brasil, aliás, o Cruzeiro havia sido campeão brasileiro e a cidade de Belo Horizonte estava em festa. O que não faltavam eram imagens de inspiração, ainda que o cartunista norte-americano pareça ter ficado um pouco assustado com o tamanho da FARRA... ;)

ruins-front-cover_brazilDe lá para cá, Peter continuou com vários projetos intimistas e de tom bastante autoral – e dois deles serão lançados na Comic Con de São Paulo, aproveitando que o próprio vai estar no evento, convidado pela editora Marsupial: Paus e Pedras (2004) e a inédita por aqui Ruínas, vencedora do Eisner Awards 2016 como “melhor álbum gráfico”.

Tive a chance de ler Paus e Pedras recentemente e me pintou, aliás, a sensação de que ele e O Sistema se complementam de alguma forma.

Paus e Pedras tem uma paleta de cores em tons de marrom e vermelho, o que faz muito sentido já que o personagem principal é um grande homem de pedra expelido por um vulcão. Ao longo da HQ, que se desenrola sem uma única palavra, acompanhamos o imenso pedregulho em uma busca incessante por satisfazer seus mais variados caprichos, abusando de pequenos homens que o temem.

Sem medir consequências, ele degrada e explora outros sistemas sem nunca se dar por satisfeito. Mas, como existem algumas leis do universo que são implacáveis, ele terá que pagar um certo preço por sua ganância. Um pouco como acontece com alguns personagens em O Sistema, aliás.

Analisando a própria obra como uma forma de aprofundar a reflexão sobre problemas atuais de forma crítica, o JUDÃO bateu um papo exclusivo com Kuper, poucas semanas antes dele desembarcar novamente por aqui, na cidade em que um outro Palestra Itália estará comemorando o campeonato brasileiro. ;)

| Bom, entre O Sistema e Paus e Pedras se passaram uns bons sete anos e mesmo assim, eles parecem dialogar entre si. Como isso é possível?
Um pouco se deve à minha abordagem, ambas foram concebidas como histórias com imagens sem palavras para que o leitor preencha os diálogos e ligue os pontos quadro a quadro. As duas também foram feitas em estêncil e tinta spray (não air brush, latas de spray mesmo), então há uma ligação estética muito forte. Porém, as histórias são bem diferentes – O Sistema é certamente bem mais complexo, com uma série de personagens que se conectam devido ao abuso de poder e ao ataque à natureza.

| Mas depois de ler Paus e Pedras, tive a sensação que poucas coisas mudaram de lá pra cá, considerando o ano de lançamento. O que você acha?
Paus e Pedras remonta aos tempos bíblicos, então eu imagino que estamos na mesma direção há muito tempo. As imagens fictícias que eu desenhei sobre as mudanças climáticas estão se tornando realidade a cada dia, então, infelizmente a HQ é praticamente um documentário sobre os eventos atuais [Nota do Editor: Esta entrevista foi realizada ANTES do resultado da eleição dos EUA, então...].

| Sua obra geralmente traz forte crítica e uma visão meio cética do mundo, principalmente no que se refere à política. E quanto a você? Isso o impede de ser uma pessoa otimista e enxergar o lado bom das coisas?
Na verdade, é justamente o contrário. Por meio do desenho e da escrita sobre o que acontece no mundo, de alguma forma eu tiro tudo isso do meu peito. Na verdade, passo a maior parte do tempo como uma pessoa bem feliz já que eu desenho o dia todo profissionalmente e há um grande prazer nisso. Eu acho que, no fundo, estamos meio que condenados já que nossas lideranças são tão corruptas e, para impedir o derretimento das calotas polares e o aumento das marés, precisaríamos de ações muito mais contundentes de nossos líderes no sentido de frear a exploração gananciosa das grandes empresas. Dito isso, deveríamos ser tão felizes quanto as circunstâncias nos permitirem e amar o máximo que pudermos aqui e agora.

| Na última vez que esteve aqui, disse que estava dando aulas em uma universidade. Continua lecionando? Que matérias leciona?
Eu leciono em Harvard e na Faculdade de Artes Visuais de Nova Iorque. Normalmente, eu ensino quadrinhos com os alunos produzindo uma página de tiras toda semana. Este ano, na FAV, estou ajudando uma sala de novos alunos de ilustração em um projeto de ilustração de clássicos da literatura com duração de um ano.

| E quanto aos artistas brasileiros? Conseguiu conhecer seus trabalhos durante o FIQ? Você acha que os quadrinhos brasileiros possuem alguma característica, algum tipo de assinatura, que permita que alguém identifique sua nacionalidade?
Eu tento acompanhar, mas há tantos trabalhos incríveis que é praticamente impossível a menos que você não faça outra coisa o dia inteiro além de ler quadrinhos! Fábio Moon e Gabriel Bá fazem um trabalho brilhante, mas eu não conheço muitos outros trabalhos além dos deles, então eu não posso mesmo falar sobre. Pretendo olhar com mais calma quando estiver no Brasil e aí poderei lhe dar uma resposta melhor depois de minha visita.

| Aliás, em 2013, quando esteve aqui, chegou no momento da comemoração do título do campeonato brasileiro de futebol e apesar da bagunça, conseguiu conhecer alguns lugares, como o Mercado Municipal. E agora? O que gostaria de fazer dessa vez? Tem algum lugar em mente?
Bom, estarei em São Paulo durante todo o tempo do evento. Eu dependo da gentileza das pessoas da cidade para me recomendar coisas e me mostrar os lugares. Alguma sugestão? :) Depois da loucura que foi a última vez, eu acho que ficarei mais tranquilo se não estiver acontecendo nenhum campeonato de futebol!

| E por último, mas não menos importante, as pessoas poderão comprar O Sistema também na Comic Con de SP?
Eu não tenho certeza se ele será vendido, mas talvez eu leve alguns exemplares da edição em espanhol. Mas além de Paus e Pedras, o meu Ruínas [sobre o casal Samantha e George, que resolve passar um ano sabático na região mexicana de Oaxaca, no México, encarando as mudanças do mundo] é a principal razão da minha ida ao Brasil.