1o episódio da série da Patrulha do Destino talvez seja o melhor da DC em muitas telas | JUDAO.com.br

O que os trailers prometiam esta estreia cumpre com louvor e vai muito além, fazendo os Titãs e boa parte do Arrowverse atual comerem poeira. Resta saber se vão conseguir manter o pique até o fim da temporada.

Em seu livro Pancadaria: Por Dentro do Épico Conflito Marvel vs DC, o escritor Reed Tucker descreve com maestria a principal diferença entre os personagens das duas editoras, sem qualquer juízo de valor. Enquanto a DC tem um panteão de deuses intocáveis, com poderes divinos e que vivem combates cósmicos acima da humanidade para decidir se vivemos ou morremos, na Marvel temos um bando de pés-rapados que vivem conflitos totalmente humanos e mundanos apesar de seus superpoderes e identidades secretas, com aluguéis atrasados, corações partidos e famílias em pé de guerra, no melhor estilo novelão.

Curiosamente, Tucker relembra que foi no começo da década de 60, depois que Stan Lee e Jack Kirby começaram a criar o seu pequeno grande universo e enfim começaram a incomodar a poderosa DC Comics, que a dupla Arnold Drake e Bob Haney apareceu nos corredores da Distinta Concorrência com a primeira publicação que tinha um tanto deste espírito Marvel de humanização: a Patrulha do Destino. O ano era 1963 e, sim, a Marvel lançaria no mesmo período uma família igualmente disfuncional, alvo de preconceito e comandada por um sujeito genial numa cadeira de rodas (adivinha só se até hoje não se fala em, hum, talvez plágio?).

O meu ponto aqui é que, 56 anos depois, o que parecia uma escolha pouco usual da DC para uma nova série de seu serviço de streaming mostrou-se um dos seus maiores acertos em muitos anos no campo audiovisual como um todo (talvez deixando de lado as animações, que são um feudo à parte). Eu mesmo desconfiei grandão. Abrir os trabalhos com os Titãs, em alta por causa da animação do desenho do Cartoon Network, tá, até dava pra sacar a ideia. Mas a Patrulha? Um bando de esquisitos praticamente desconhecidos do grande público?

Sim, sim, isso mesmo. Levei na cara, levei bonito. Porque, senhoras e senhores, ao assistir este primeiro episódio da série da Patrulha do Destino, dá pra dizer que a DC encontrou os seus Guardiões da Galáxia. Que aposta maravilhosa.

Se eles foram bastante mal-aproveitados no episódio em que acabaram sendo apresentados às pressas dentro da série dos Titãs, com estes primeiros minutos de exibição não precisa muito pra concluir que eles comeram os 11 episódios do Robin e cia. com farinha, assim, na facilidade. E mais: sem qualquer sombra de exagero, não só este Doom Patrol versão série funciona muito melhor do que a maior parte do line-up atual do Arrowverse (que eu adoro, vamos lembrar) como ainda é uma voadora no queixo de grande parte do que rolou com os personagens da DC nos filmes também. Em menos de 1h, sabendo explorar maravilhosamente humor, drama e non-sense na medida certa, numa narrativa que te faz entender aquele grupo como uma família, com laços estranhos e bizarros entre eles, além de te fazer sentir empatia por cada um dos personagens presentes, a Patrulha faz mais pela DC — e pelo espectador que gosta, afinal, de boas histórias — do que Batman vs Superman, Liga da Justiça e Esquadrão Suicida JUNTOS.

É real oficial: eles cumpriram MESMO toda a promessa e o hype que criaram com os materiais promocionais, pôsteres especiais e trailers divertidíssimos, liberados nas últimas semanas. E foram além.

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O episódio já acerta ao dar o papel de narrador ao sempre ótimo Alan Tudyk, que aqui viverá o estranhíssimo vilão Senhor Ninguém. Com um jeitão totalmente descompromissado, como quem está tirando onda com estilo e sofisticação da cara de cada um dos nossos “heróis”, ele SALPICA até um QUINHÃO de metalinguagem aqui e ali, quando diz “ninguém aguenta mais uma série de super-heróis” ou então “os críticos, ah, bom, mas eles não vão gostar disso aqui também”.

Da mesma forma que acontece com Legends of Tomorrow, nos dois últimos anos o grande acerto da turma do produtor Greg Berlanti lá no CW, a Patrulha evita se levar a sério demais em sua faceta superpoderosa, tratando os superpoderes fora do comum não como motivo de orgulho, mas como um fardo, uma pentelhação que pode tornar suas vidas já complicadas algo ainda mais foda de prosseguir.

Mas onde a série sai da curva e aí se diferencia MUITO da zoeira explícita e escancarada a la Liga da Justiça Internacional de Legends é na aposta incrível que faz no coração de seus personagens. E para nos fazer emocionar junto com eles, uma história mais profunda do que a original e vivida por elenco de responsa faz TODA a diferença. Em flashbacks trabalhados com o tal do storytelling de maneira sutil e delicada, vemos que o piloto Larry Trainor vivido por Matt Bomer, antes de se tornar o Homem-Negativo, tinha uma família e um pequeno enorme segredo que dá ao herói uma camada muito mais interessante, uma outra dose de conflito, de alguém que se achava um monstro julgado pela sociedade antes mesmo do acidente de avião, da pele queimada, das bandagens.

O mesmo acontece quando viajamos no tempo e vemos a atriz clássica Rita Farr, com um olhar perdido e nostálgico de uma April Bowlby que prova sua capacidade para além dos talentos cômicos, rodando uma película na África — e o incidente que a afeta vai muito além de “gases vulcânicos”, trazendo uma dose de preconceito que faz com que ela carregue uma eterna culpa. Muito mais do que já mostrá-la como uma versão do Senhor Fantástico, aqui temos uma mulher reclusa e amargurada que ainda não tem exato controle de sua forma, numa luta interna gigantesca para manter sua aparência atual intacta. Menos super-herói e mais filme de terror, por assim dizer.

E aí temos o Homem-Robô. Cuja aparição na série dos Titãs foi a que mais causou uma sensação amarga, do tipo “é assim que ele vai ser retratado?”. Tudo parecia meio estranho, forçado, não só no visual meio capenga mas também na coleção de frases de efeito. Mas agora, com uma série só sua, ver com calma como tudo aconteceu na vida do astro das pistas Cliff Steele (em sua forma humana, interpretado por um Brendan Fraser que esbanja um necessário cinismo) ajuda a tirar o aspecto caricatural do retrato.

Tal qual nos gibis, ele se torna o destaque, meio que o protagonista por direito da série, que começa a usar o sarcasmo como arma de defesa — e cujo visual mais durão, meio Homem de Lata d’O Mágico de Oz, funciona como contraste perfeito para o maior e mais tumultuado coração da equipe.

Complementando um time que ainda não tem o Cyborg neste momento inicial, Diane Guerrero empresta a selvageria necessária pra que as múltiplas personalidades da Crazy Jane provoquem não só o Homem-Robô, mas também o Chefe, o Dr. Niles Caulder, cuja troca de ator para a fleuma britânica e misteriosa quase insuportável de Timothy Dalton foi outra destas escolhas acertadíssimas.

Não dá pra dizer, pelo menos não assim DE IMEDIATO, que esta versão da Patrulha do Destino vai mergulhar tããããããããão de cabeça nas ideias surreais e fascinantes que Grant Morrison, talvez o roteirista que deu ao grupo a sua mais brilhante fase lá no selo Vertigo, quanto poderia. Muito do que ele imaginou está ali, aparentemente pincelado. Mas se eles ao mínimo brincarem com isso, com uma pontinha do iceberg que seja, ao longo dos próximos capítulos, já será uma notícia e tanto.

O que resta agora? Ué, para nós, só resta assistir a cada um dos episódios semanalmente esperando que eles mantenham a qualidade que colocaram bem, mas tipo assim, MUITO bem lá em cima no sarrafo, né? E para os produtores/roteiristas/elenco, o que resta é tentar cumprir esta missão que, ao longo de 13 episódios, promete ser dificílima. Paciência, galera. Agora a bola tá com vocês porque eu, definitivamente, fui comprado. Simbora.