Piratas pirados, animação irada | Judão

Divertido pra adultos e crianças e um DESBUNDE visual de primeira, o filme de stop motion da Aardman Animations merece ser muito mais lembrado (e assistido)

O que pode ser melhor que uma comédia sobre piratas com Hugh Grant, Martin Freeman e David Tennant? Que tal uma comédia sobre piratas com esse trio, mas em STOP MOTION, e feita pela mesma produtora do genial A Fuga das Galinhas?

É isso que temos com Piratas Pirados!, de 2012. Claro, a gente perde a chance de ver os rostinhos do outrora queridinho britânico da América, do Dr. Watson e do amado 10º Doutor, mas ganha três atuações originalíssimas, um monte de palhaçadas visuais lindonas, além dum filme capaz de entreter igualmente adultos e crianças.

Inspirado no livro infantil Piratas Pirados: Um Aventura com Cientistas, lançado em 2004 pelo escritor britânico Gideon Defoe (e primeiro duma série de 5 volumes), Piratas Pirados conta as desventuras do atrapalhado Capitão Pirata (Grant) para ser respeitado enquanto CORSÁRIO. Burro a ponto de confundir um pássaro Dodô com um papagaio, e munido com, talvez, a pior de todas as características para alguém na sua posição – um bom coração – ele e sua tripulação diferentona (que inclui um marujo albino e outro de barba bastante suspeita, além dum peixe de chapéu) são uma piada pelos sete mares.

Querendo mudar, isso, o Capitão decide que deve ganhar o prêmio de Pirata do Ano, dado àquele que mais saquear em 365 dias. A teoria flui melhor que a prática e, depois de diversas tentativas frustadas, ele e sua tripulação beiram a desistência quando um jovem Charles Darwin (Tennant) cruza seu caminho. Em meio a uma crise existencial e morrendo de amores pela brutal Rainha Victoria, o cientista cresce seus olhos para o Dodô do pirata, e propõe a ele que leve o animal até Londres, o inscreva num campeonato sancionado pela Coroa, e use o grande prêmio para conquistar o respeito da pirataiada.

ENTRETANTO, Darwin quer, na realidade, passar a mão no Dodô, e apresentá-lo à sociedade como descoberta própria para, quem sabe, conquistar o coração da monarca. Ingênuo, o Capitão Pirata cai na lábia do cientista, à REVELIA de seu estimado colega Pirata de Cachecol (Freeman), e embarca numa aventura insana que emprega temas frequentemente ligados aos bandidos do mar, como amizade, lealdade e liberdade, num contexto nonsense polvilhado de boas referências pop.

Jeremy Piven, Salma Hayek e Brian Blessed são mais alguns grandes nomes que arredondam o elenco, mas o grande brilho da animação está no costumeiro esmero técnico da Aardman Animations. Da trilha sonora divertidíssima, que coloca até The Clash pra ressoar por ali, à atenção com os cenários, ~figurinos e design em geral do universo de bonecos do filme, os britânicos da produtora entregam uma das suas mais elaboradas produções – com direito a uma Londres vitoriana de dar inveja a qualquer live action por aí. Também, pudera; trata-se da primeira obra da Aardman a usar CGI extensivamente de forma complementar aos efeitos práticos.

“A tecnologia deixou Piratas! realmente libertador de ser feito, por conta do fato de você poder filmar um monte de coisa frente à tela verde, poder estender facilmente os sets com CG, poder colocar o mar lá e um lindo barco que, francamente, nunca velejaria, você consegue pegar isso e colocar numa linda cena, acreditar nela”, disse o diretor Peter Lord ao Coming Soon, em 2011.

Essa sinergia entre recursos e técnicas é mais do que aparente no filme, mas não foi o bastante pra garantir o sucesso da animação pra além das críticas. Embora ostente um invejável percentual de 86% de aprovação no Rotten Tomatoes, e tenha inclusive disputado o Oscar de Melhor Filme de Animação, em 2013 (perdendo pra Valente, em mais uma escolha no mínimo questionável da Academia), o filme fez só US$ 123 milhões no mundo todo, tendo custado US$ 55 milhões. É, até o momento, só o quinto filme mais rentável do estúdio. Entre SEIS.

Com a arrecadação minguada, a Sony logo cancelou planos para uma sequência que, segundo Lord, veria os piratas cruzando caminho com VAQUEIROS. Uma pena. São bem raras as incursões cinematográficas no mundo da pirataria, hoje em dia, que não envolvam um certo pirata bêbado com sobrenome de pardal. Ainda mais uma tão artisticamente caprichada e divertidamente ABRANGENTE, como a de Piratas Pirados! – que estará sempre aí, à nossa disposição.

Tá esperando o que, marujo? Içar velas e bora assistir! :D