Por muito pouco o Universo Marvel dos Cinemas como conhecemos não existiu | Judão

“Todo mundo caga pros outros personagens. Volta lá e faz um acordo só pelo Homem-Aranha”, disse, um dia, um cara que muito provavelmente se arrepende amargamente do fato. Ou não. :)

A vida é feita de oportunidades e existe aquela coisa de que é sempre bom você agarrar uma quando a vê, porque muito dificilmente você terá outra chance como a primeira. O ponto é que também existe o lance do TIMING e nem sempre uma oportunidade aparece no melhor momento... Sobram poucas coisas pra se fazer. Dá pra se lamentar eternamente ou levantar a cabeça e lidar com o que acabou (não) acontecendo e é isso aí.

Agora em 2018 completamos uma década do chamado Universo Cinematográfico da Marvel. Foi nesse ano que estrearam Homem de Ferro e O Incrível Hulk, com essa coisa nova de misturar os personagens dos filmes e as tais cenas pós-créditos, que aos poucos iam preparando o público pro que ficou conhecido como “Iniciativa Vingadores” e uma das franquias, vamos chamar assim, de maior sucesso da história do cinema, redefinindo a cultura pop.

Maaaas... As coisas poderiam ter sido muito diferentes. Ou sequer ter sido.

Em 1996, a Marvel quase foi à falência. Dedicada quase que totalmente aos gibis, as vendas não estavam indo bem e algumas outras cagadas administrativas fizeram com que a empresa entrasse em concordata. Pra salvar a Casa das Ideias, um cara chamado Avi Arad se ligou que o que mais importava ali dentro eram os personagens e resolveu que vender seus direitos para grandes estúdios de cinema solucionaria os problemas.

Acabou dando, de fato, certo. Os X-Men, Quarteto Fantástico e Demolidor foram para a Fox, o Hulk para a Universal, o Motoqueiro Fantasma, Justiceiro e o Homem-Aranha para a Sony e o resto, você deve saber bem, é história. Só que, por muito pouco, toda essa maluquice de contratos pra lá e pra cá foi evitada e todos — eu disse TODOS — os personagens não ficaram nas mãos da Sony.

Em 1998, já com os direitos de lançamento em DVD garantidos, a Sony nomeou o executivo Yair Landau pra negociar e adquirir os direitos de cinema do Homem-Aranha, podendo assim produzir um filme. Com a proposta na mão, Landau ouviu de Ike Perlmutter, o então sócio de Avi Arad, que poderia vender os direitos de TODOS os personagens (incluindo Homem de Ferro, Thor, Capitão América, Guardiões da Galáxia e Pantera Negra) por US$ 25 Milhões.

Vou repetir: a Marvel ofereceu pra Sony TODOS os seus personagens por míseros 25 MILHÕES DE DÓLARES — algo em torno de US$ 40 Milhões, em números corrigidos pela inflação. É menos do que o orçamento de um filme médio.

Todo mundo caga pros outros personagens. Volta lá e faz um acordo só pelo Homem-Aranha

Landau levou a contraproposta para o escritório e ouviu de um dos seus chefes que “todo mundo caga pros outros personagens. Volta lá e faz um acordo só pelo Homem-Aranha”, disse ele ao jornalista Ben Fritz, que no mês que vem lança o livro The Big Picture: The Fight for the Future of Movies, via Wall Street Journal.

O tal acordo acabou sendo feito e a Sony levou os direitos pelo Homem-Aranha, sozinho, por US$ 10 Milhões e pagando ainda 5% das bilheterias dos filmes AND 50% dos lucros com produtos licenciados.

Se as coisas teriam funcionado tão bem com o estúdio, JAMAIS saberemos. Temos as encarnações do Homem-Aranha pra discutir o que poderia, ou não, ter acontecido. Mas o fato é que, se não fosse por esse acordo, LITERALMENTE não existiria o Universo Marvel dos Cinemas.

Puto da vida com o sucesso que o Homem-Aranha fez nos cinemas e vendo muita gente chamar de “Sony’s Spider-Man”, Ike Perlmutter, um escroto de marca maior que se recusava a abrir a mão pra tudo, inicialmente se recusou a entrar no mundo dos cinemas, dizendo não até para uma ideia de Avi Arad de criar um tal de Marvel World, em que a empresa formaria uma JOINT VENTURE com investidores para produzir seus próprios filmes.

Em 2005, porém, o então presidente da recém-criada Marvel Studios, David Maisel, conseguiu um empréstimo de US$ 525 Milhões pra produzir filmes. Perlmutter, mais preocupado com o dinheiro que ganharia com a venda de bonequinhos, acabou aceitando a ideia AND escolhendo o Homem de Ferro pra começar a brincadeira — porque ele acreditava que seria o personagem mais VENDÁVEL nas lojas de brinquedos e produtos licenciados.

No ano seguinte, Avi Arad acabou saindo da Marvel, o controle criativo dos filmes caiu nas mãos de Kevin Feige e, bom, hoje estreou no mundo todo o filme do Pantera Negra, que poderia nunca ter existido se o tal do acordo com a Sony tivesse acontecido.

Porque a vida é feita de oportunidades, sim, mas às vezes até as que a gente perde acabam servindo pra coisas muito maiores. :)