Jordan Peele produzindo o novo Candyman é uma das melhores notícias do ano | JUDAO.com.br

Diretor de Corra! ressuscitará a lenda urbana criada por Clive Barker, e atualizará as poderosas questões raciais presentes no original

Corra! foi um dos filmes mais importantes para o cinema e a cultura pop em 2017 e quem discordar é clubista. O sucesso de crítica do longa de estreia de Jordan Peele na direção, com produção do midas Jason Blum, acabou consagrado com o merecidíssimo Oscar de melhor roteiro original, em uma premiação na qual outro filme com elementos fantásticos e de terror, A Forma da Água, saiu como grande vencedor.

O ponto é que Corra! também foi sucesso de público, porque faturou mais de 170 milhões de dólares na bilheteria doméstica (somando mais de 255 milhões no mundo todo) e foi o primeiro da história dirigido por um negro a alcançar essa marca – seguido então pelo arrasa-quarteirão Pantera Negra com seus 1,3 bilhão de dólares arrecadados em todo o globo.

Mais importante do que cifras ou estatuetas, no entanto, Corra! se tornou fundamental porque atingiu na veia com sua crítica ao racismo sistêmico, escancarando para o espectador de um suposto mundo onde o racismo não existe que o problema não acabou, perdura forte e podemos dizer até que, em caso de lugares como um certo país da América do Sul, a tendência é o cenário piorar, dado o aumento do discurso de ódio graças ao resultado das urnas.

Junte todos estes motivos acima e não demora pra deixar o mundo em POLVOROSA o anúncio de que o recém-anunciado reboot de O Mistério de Candyman, que chegará às telonas em Junho de 2020, será produzido por Peele para a MGM e com distribuição da Universal. E ele ainda escalou para a direção Nia DaCosta, de Little Woods, filme inédito por essas bandas estrelado por Tessa Thompson e que traz a história de duas irmãs negras que são levadas a trabalhar fora da lei para melhorar suas vidas.

Quem se lembra bem do clássico do terror noventista, baseado no conto de Clive Barker (sim, aquele mesmo do Hellraiser), O Proibido, presente na coletânea Livros de Sangue, sabe que ele é muito mais do que a história de um sujeito com um gancho na mão que aparece toda vez que você repete seu nome cinco vezes em frente ao espelho. E definitivamente BEM MAIS do que uma tentativa de emular Freddy Krueger como um novo movie maniac em busca de vingança, dando o pontapé inicial numa nova série de slasher movies.

Se você não lembra, não tem problema, a gente explica: há poderosos subtextos por trás de O Mistério de Candyman, como luta de classes, gentrificação e exclusão racial.

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Na trama, uma antropóloga está escrevendo sua tese de pós-graduação sobre lendas urbanas quando se depara com o conto de Candyman. Por meio de testemunhas, ela descobre que, na comunidade carente de Cabrini-Green, localizada na periferia de Chicago, lugar conhecido por sua criminalidade, violência e falta de saneamento básico e onde a população negra de baixa renda da cidade vive, há um rumor de que não só a lenda existe, como está fazendo vítimas por lá.

A origem de Candyman remete ao ano de 1890, quando Daniel Robitaille, papel eternizado por Tony Todd, filho de um escravo, acumulou uma pequena fortuna trabalhando na confecção de sapatos. Só que ele acaba se apaixonando e engravidando a filha branca de um fazendeiro poderoso e o pai da moça resolve se vingar, espancando o pobre diabo e levando-o ao lugar onde hoje está localizado Cabrini-Green. O senhor e seus empregados o amarram, cortam uma de suas mãos e o lambuzam de mel, fazendo com que um enxame de abelhas o ataque (daí o nome, Candyman, que teria como tradução livre “Homem-Doce”). Depois ele tem seu corpo queimado e suas cinzas espalhados por todo o vilarejo.

Ou seja, o verdadeiro horror presente em Candyman não vem de seu gancho enferrujado ou do seu séquito de abelhas, mas sim das preocupações do homem branco com relacionamentos amorosos e sexuais de negros com as mulheres caucasianas — e também o pavor de que negros pobres, sem condições melhores de vida, saiam de seus guetos e adentrem nos suntuosos bairros e prédios da classe média alta, roubem seus empregos, seus lugares nas universidades. Por isso a necessidade em mantê-los afastados, como se não existissem, ignorando um problema muito maior.

Apesar da estrutura de filme slasher e do gore, o contexto do filme está mesmo na mensagem da segregação racial que existe na América há séculos (e Brasil se inclui com força), e em toda a repressão personificada pelo anti-herói negro, assustador e violento, que virá em busca de vingança se for chamado. Estamos falando de um retrato cru do final dos anos 80 e começo dos anos 90 para a comunidade afro-americana – aos moldes de Faça a Coisa Certa, As Cores da Violência, New Jack City – A Gangue Brutal e afins – envolvendo questões urbanas inerentes àquela década: a escalada da violência na periferia, guerra de gangues, drogas, tudo acontecendo em comunidades sem segurança, com seus muros pichados, alocadas em complexos habitacionais intencionalmente separados do resto da cidade.

A estética hoje em dia pode ser outra, mas a questão racial em nada mudou. Continua exatamente a mesma e tão próxima de nossa assustadora realidade. E é por isso que o novo Candyman não será um remake, e sim uma continuação direta do primeiro filme, ignorando suas sequências (moda hoje em dia, vide o novo Halloween) e retornando a história ao hoje projeto gentrificado onde uma vez existiu Cabrini-Green. Pense no potencial disso...

Segundo Peele, “o original foi um marco sobre a representação negra no horror. Junto com A Noite dos Mortos-Vivos [primeiro filme do gênero protagonizado por um negro, diga-se de passagem, que recém completou 50 anos], Candyman foi uma das maiores inspirações para mim como cineasta”. E o produtor ainda explica a empolgação por trazer a bordo um novo talento como Nia para conduzir o projeto: “Estamos honrados em trazer o próximo capítulo da história do CANON de Candyman à vida e ansiosos por dar a uma nova audiência um ponto de entrada para a lenda de Clive Barker”.

Se depender das desgraças que andam fazendo com a maior criação do escritor, Pinhead, e todas as sequências sofríveis de Hellraiser em três décadas, graças a uma disputa judicial entre Barker – que quer rebootar seu clássico – e a Dimension Films, que não larga o osso e continua produzindo tranqueiras para não perder os direitos, o autor está cada vez mais distante de atingir um novo público.

Que o novo Candyman vai ser mais um “filme dedo na ferida” na recente, porém efervescente, carreira cinematográfica de Peele? Com certeza! E que esse filme, tal qual seu antecessor da década de 1990, será extremamente necessário para o atual momento social e discussões raciais? Mais certeza ainda!