Por que os roteiristas originais de O Rei Leão não serão creditados no live action? | JUDAO.com.br

Política e decisões de 80 anos atrás tiraram os roteiristas originais da animação dos créditos da versão live action

Provavelmente, quando você assistiu ao trailer de O Rei Leão, você não deve ter reparado naquelas letrinhas miúdas do final, os créditos mostrados. Mas o artista de storyboard Jorgen Klubien, ah, ele bem que reparou.

Responsável pela criação da conceituação de uma cena-chave da história, Klubien foi agraciado com um cobiçado crédito da animação original pelos produtores do desenho de 1994. Mas mesmo que todas as informações sobre o novo filme indiquem que a nova versão vai acompanhar o roteiro original, Klubien não será creditado como um dos criadores dessa história.

Assim como a maioria das animações, o roteiro original de O Rei Leão não foi feito sob a jurisdição do Writers Guild of America (WGA) – o sindicato dos roteiristas. Normalmente, os escritores que trabalham em animações realizam o projeto sob a jurisdição do The Animation Guild (TAG), o representante dos artistas de animação em geral. Sendo um sindicado “abaixo da linha” – termo usado para agrupar quem trabalha com a folha de orçamento de uma produção que diferencia o “grupo criativo” do “grupo braçal” – , o TAG oferece poucas proteções quando o assunto são créditos e não tem qualquer política de royalties...e isso é comum pelas regras do WGA.

Como resultado, alguns artistas e escritores originais de O Rei Leão estão perdendo a chance de serem creditados na nova versão live action que não é live action mas que tá muito mais próxima de ser live action do que animação.

Essa confusão toda começou, na verdade, a partir de um incidente de 1938. Não, você não leu errado. Há mais de 80 anos, o National Labor Relations Board (NLRB) negou um recurso de um estúdio ao recém formado Screen Writers Guild, um dos predecessores do que se tornaria o WGA. Essa decisão discutia o processo de compra de uma história, desenvolvimento e tratamento de um roteiro.

Um ano depois, a diretoria do NLRB considerou um recurso parecido a um novo sindicato de animação chamado Screen Cartoonists Guild de uma forma muito menos formal: “A ‘ideia’ para uma história pode se originar de qualquer pessoa. Segundo a decisão, “diretor e o ‘homem da história’ desenvolvem uma história adequada para projeção de tela dentro do tempo previsto para a exibição”.

Essa resposta é um tanto negligente sobre quem deve receber crédito pelas idéias, já que o entendimento é que a “ideia” pode surgir de qualquer pessoa e o diretor e o “homem da história” – um roteirista, por exemplo – precisam adequá-la para um filme.

Afinal, quem leva os créditos? Pode parecer uma questão simples, mas não é.

Ajude o JUDAO.com.br continuar desafiando a cultura pop. Assine!
A partir de R$5 por mês.

É comum que artistas de fases iniciais de uma produção colaborem para a construção de cenas, sequências e até mesmo diálogos das produções. Os responsáveis por esse trabalho são os artistas de storyboard, idealizadores de muitas das cenas presentes no resultado final. Isso os torna criadores dessa história também. Ou deveria.

Mas essa distinção entre sindicatos que estão “acima da linha” e “abaixo da linha” foi decisiva porque as associações que estavam “acima” conseguiram acordos de royalties para seus membros em 1941, enquanto os sindicatos “abaixo” não conseguiram. Hoje em dia, a maior parte da remuneração por créditos vai para escritores, atores e diretores, mas apenas um pequeno grupo do TAG consegue captar royalties – esses não pagos individualmente, mas diluídos em planos de pensão e planos de saúde pagos coletivamente ao membros do sindicato.

Veja bem, até os atores de dublagem do SAG-AFTRA (Screen Actors Guild‐American Federation of Television and Radio Artists) recebem royalties pelas animações, mas os membros do TAG não.

Segundo Tom Sito, ex-presidente do TAG, disse em uma entrevista para o The Hollywood Reporter, as animações só começaram a REALMENTE gerar dinheiro na década de 1990, com filmes como A Pequena Sereia, o sucesso de Os Simpsons na Fox e o surgimento de uma tal de Pixar – a pioneira no uso da animação de computador na época.

Mas se as animações se tornaram um sucesso inegável, por que o TAG não conseguiu negociar acordos melhores pros seus associados?

Em 1994, o WGA percebeu que esse gênero cinematográfico arrecadava bem, estava ganhando prestígio e formou o Caucus Animation Writers – uma divisão de roteiristas de animação. Surgir dentro de um sindicato que já lidava com royalties facilitou a adesão de artistas grandes, como no caso dos roteiristas do Simpsons, que procuraram o WGA para representação e não o TAG. A partir daí, a Fox estabeleceu que seus seriados animados também seriam representados pelo WGA, criando uma lacuna entre suas animações de televisão e cinema, a primeira recebendo pelos royalties e a segunda não.

Hoje, é comum que as séries animadas estejam no WGA e recebam participação potencial na receita de merchandising e direitos autorais. Enquanto isso, os escritores do TAG não têm muita margem para negociação...

Mesmo esse problema tendo surgido lá por volta de 1930, o fato é que a falta de compreensão envolvendo a criação de uma história estão sendo perpetuados até hoje e são apenas modernizados. Pense que O Rei Leão de 2019 é uma animação foto-realista — sim, o termo existe — criada a partir de técnicas de VFX por artistas que não são sindicalizados.

Se o novo O Rei Leão for escrito sob jurisdição do WGA – um assunto que o sindicato diz não determinar -, então os novos roteiristas creditados terão direito a créditos e royalties, enquanto os responsáveis pelo material original não terão. Como o filme original foi feito sob jurisdição do TAG, acaba sendo considerado um “material original” pelo WGA, segundo explica Lesley Mackey, chefe de créditos do sindicato.

Filho, tá vendo aquele dinheiro ali? Então, se você for do TAG, não vai ganhar nada...

Assim como um livro ou uma história em quadrinhos, a remuneração dos roteiristas está fora das mãos do WGA. Dizendo com todas as letras: para o sindicato, quem deve lidar com essa remuneração é a própria Disney.

Mas a nova refilmagem também não garante qualquer direito de royalties ao TAG, porque tudo deve ser feito sob a jurisdição do próprio WGA. Ou seja...

Como se não fosse complicado o suficiente, Klubien é “apenas” uma das 17 pessoas que receberam crédito pela história de 1994 e outras oito pessoas ainda receberam crédito de “material de história adicional”, além de três pessoas responsáveis pela elaboração do roteiro e outra que supervisionou a história.

Sim, é gente pra caramba, mas mesmo se o filme tivesse sido feito sob jurisdição do WGA, o sindicato proíbe mais de dois roteiristas ou equipes de compartilhar o crédito de uma história. A maior contribuição de Klubien foi em uma única cena do filme, então dificilmente ele entraria como um escritor da história original.

Enquanto a Disney continua lançando incansavelmente as refilmagens de suas animações clássicas, essa questão sobre os créditos e os royalties continuará sendo debatida e, esperamos, finalmente modificada em prol dos animadores que, OBVIAMENTE, são essenciais para o sucesso de uma animação.