Pornochanchadas: o exploitation Made in Brazil | Judão

Porque, vamos lá, a gente também entende um bocado de gêneros cinematográficos malditos ;)

Filmes apelativos, grosseiros, vulgares até, que foram sucesso junto a uma relevante parcela de público mas acabaram sendo perseguidos pelas “pessoas de bem” por serem um “atentado à moral e aos bons costumes”. Se você tá acompanhando o tema da semana aqui do JUDÃO, poderia achar tranquilamente que estamos falando dos filmes do tipo exploitation, atração favorita dos grindhouses que inspiraram Tarantino e Rodriguez. Mas a descrição é mesmo das pornochanchadas, este gênero cinematográfico tipicamente nacional e que é parte importante do nosso cinema underground e, obviamente, da nossa cultura pop.

“Pornochanchada is the name given to a genre of sexploitation films produced in Brazil that was popular during the 1970s and early 1980s. Its name combined pornô (porn) and chanchada (light comedy), as itself combines comedy and soft-core pornography”, é como define a versão em inglês da Wikipedia, deixando clara a relação com os exploitation gringos. Mas, claro, com nosso jeitinho todo especial. “O contexto brasileiro, pautado pela ditadura, pela moral tradicional e pelo inchamento acelerado dos grandes centros urbanos conferiu um tom peculiar às chanchadas”, explica o pesquisador e professor da UNESP Claudio Bertolli Filho, em entrevista ao JUDÃO.

Ao lado da também pesquisadora Muriel Emídio P. do Amaral, Claudio lançou uma coletânea de textos sobre o período, batizada de Pornochanchando: Em Nome da Moral, do Prazer e do Deboche, com 15 artigos de pesquisadores das áreas da Ciência e Comunicação. “Quando propus capitanear junto a organização da coletânea, alguns colegas acadêmicos, mesmo que zombeteiramente, falavam que eu era um ‘velho sem vergonha’ e que a pornochanchada era ‘filme de sacanagem'”, explica ele. “No plano acadêmico, a Academia ainda é muito moralista e pouco fala de sexo e práticas sexuais propriamente ditas”.

Claudio explica que o marco zero das pornochanchadas pode ser considerado, ironia suprema, o ano de 1969, com as produções cariocas Adultério à Brasileira, de Pedro Carlos Rovai, e Os Paqueras, de Reginaldo Farias, ambos uma evolução do humor da chanchada brasileira dos anos 50 com um toque da comédia erótica italiana dos anos 60. “O ambiente social e político era tenso; a cultura urbana brasileira, refletindo o contexto internacional, bradava em liberdade individual e coletiva; por outro lado, o ano de 68 marcava o acirramento do poder ditatorial”, conta. “O deboche e a busca de prazer tornaram-se um forma de exprimir a liberdade, tanto entre homens quanto entre mulheres”.

As pornochanchadas se popularizaram, no entanto, nos anos 70, com as produções vindas de São Paulo, ali do bairro da Luz, da região conhecida popularmente como Boca do Lixo. “Por que aconteceu ali?”, pergunta o ator Marcos Winter, que interpreta um relutante diretor de pornochanchadas na série nacional Magnífica 70, num papo já histórico no nosso Asterisco. E ele mesmo explica: “Porque aquele lugar, a Rua do Triunfo, esse pedacinho, era muito próximo da estação de trem. Era um jeito dos filmes serem feitos, ficarem prontos e a distribuição ser muito rápida, por trem. E naquele lugar, especificamente, que foi conhecido como Boca do Lixo, foi um lugar onde tinha uma concentração de produções cinematográficas muito grandes. Então aconteceu de juntar geograficamente ali, que tinha fácil acesso à distribuição”.

A partir daí, começaram a surgir filmes que podiam, assim, ser adaptações pouco usuais de determinados contos de fadas, do tipo que poderia ter o Costinha como um caçador que deixa a amiguinha dos sete anões sair livre, leve e solta depois de uma sessão de pegação na floresta — e isso pra dizer o mínimo. Mesmo que, no começo, rolasse um certo constrangimento do público, que de um lado tinha “vergonha” das cenas sensuais e, por outro, considerava este tipo de filme como sendo uma produção menor. “Um dos estigmas da pornochanchada é que se trata de ‘filme para peão’, ‘filme para pobre’ e não para aquela classe média”, afirma. “Mas muitas delas falavam de sexo, insinuavam, mas não chegavam nem mesmo a apresentar corpos despidos ou o ato sexual. Foi somente quando o gênero começou a declinar e a ditadura fragilizar-se, no final da década de 70, que cenas mais ousadas foram incorporadas à pornochanchada. Existia uma espécie de ingenuidade em tais produções”.

O fim das pornochanchadas começou nos anos 80, quando o cinema pornô começou a ganhar suas produções Made in Brazil e a sugestão da sacanagem foi substituída pela putaria explícita e escancarada

Claudio diz que no início da pornochanchada, quando nem todas as famílias tinham televisão em casa, a coisa rolava mais ou menos assim: nos fins de semana, os cinemas passavam filmes “para a família”, sem cenas ousadas. “No meio da semana, passavam então as pornochanchadas, quando os homens solteiros ou os casais ‘moderninhos’ iam assistir”. Mas rapidamente este tipo de filme deixou de ser apenas nicho e se mostrou um empreendimento bastante rentável. “Quando deixou de haver constragimento em ir ao cinema para ver tais filmes, especialmente nos grandes centros urbanos, houve produções que faziam filas de dobrar o quarteirão”, afirma Claudio.

Basta lembrar, por exemplo, de A Dama do Lotação (1978), com Sônia Braga, que quase 40 anos depois continua sendo a quinta maior bilheteria de um filme nacional de todos os tempos, com seus 6,5 milhões de espectadores, deixando para trás blockbusters como os Trapalhões, 2 Filhos de Francisco e o primeiro Tropa de Elite.

O pesquisador ressalta ainda que as pornochanchadas também tiveram um papel importante não só como um gênero que dominou o cinema nacional por cerca de uma década como também por retratar comportamentos sociais que, para a época, eram considerados tabus – como o sexo fora do casamento, a exposição despudorada do corpo, as “amizades coloridas” e a relativização da importância do núcleo familiar na trajetória individual. “Foi nas pornochanchadas que homossexuais masculinos e femininos, assim como as travestis, ganharam fluência e frequentemente tratamento positivo. Postar-se contra a moral tradicional e dos valores defendidos pela ditadura, sintetizada pela noção de ‘moral e civismo’, foi um dos eixos implícitos na pornochanchada”.

O fim destas produções começou lá nos anos 80, quando o cinema pornográfico propriamente dito começou a ganhar suas versões made in Brazil, a sugestão da sacanagem substituída pela putaria explícita e escancarada. “Querendo se aproximar do que acontecia nos EUA, eles não tinham tramas e restringiam-se a apresentar uma coleção de cenas e só”.

“Hoje, no plano moral e sexual, as pornochanchadas já não causariam tanto alvoroço”, PONDERA Claudio. “Outra questão é a onda moralista que tomou conta da cultura ocidental. Cito por exemplo Onda Nova, de 1983. Na primeira cena, Casagrande e outros jogadores do Corinthians aparecem travestidos de mulher, jogando uma partida de futebol com mulheres que falavam palavrões e mesmo coçavam um saco imaginário. E em nenhum momento a orientação sexual dos jogadores do Corinthians foi colocada em dúvida. Mais recentemente, quando um cidadão tentou organizar a torcida gay do Corinthians, foi alvo de críticas e mesmo de agressão física”, explica, complementando: “Efetivamente, somos mais moralistas que nossos pais e avós!”.

Pra quem se interessou pelo assunto, o autor ainda seleciona CINCO filmes marcantes que ajudam a resumir, esteticamente, o que foram as pornochanchadas. A saber:

| A Árvore dos Sexos (1977)
Na pequena cidade do interior paulista chamada Bondomil, é descoberta uma árvore cujos frutos fazem as mulheres engravidar e que causa mistério e muita polêmica. A árvore era mantida pela família do falecido Barão de Bondomil, que a história conta que fora morto debaixo da mesma. Os estranhos frutos são explicados como originados do sangue dos órgãos genitais do barão, que fora surpreendido por um marido ciumento que lhe baleara nessa parte do corpo. O prefeito tenta explorar o turismo e exportar os frutos e as mulheres solteiras que os comeram e ficaram com sintomas de gravidez, são expulsas e cuidadas pelo dona do bordel.

| A Super-Fêmea (1978)
Um laboratório de produtos farmacêuticos vai lançar no Brasil a pílula anticoncepcional para homens. Para a publicidade de lançamento, contrata os serviços de uma agência de propaganda, que começa a fazer uma pesquisa de opinião entre os consumidores em potencial. A pesquisa revela que 83% dos homens consultados temem tomar a pílula, com receio de que o produto possa diminuir sua virilidade. Na verdade, nada há a temer, demonstra o laboratório, uma vez que, administrada experimentalmente em animais machos, a pílula nada revelou de nocivo à potência. Mas, como induzir o público a aceitar o produto? A agência de propaganda recorre então às luzes de seu melhor redator, um supercérebro capaz de dar a melhor solução aos problemas mais difíceis. O gênio tem a solução na ponta da língua: o homem que se pretende atingir, o brasileiro, apóia-se em três mitos fundamentais: a mulher, o jogo e o café. E é a partir desses estimulantes que uma campanha publicitária, com base no lançamento de uma mulher-mito, a Super-Fêmea, atinge seus objetivos.

| O Bem-Dotado: o Homem de Itu (1978)
Lírio (Nuno Leal Maia) é um caipira ingênuo, nascido em Itu. Devido às gigantescas proporções de seu pênis ele vai à cidade grande, onde se transforma em um “homem-objeto” para mulheres da classe alta. Em meio a esta situação, Lírio passa por inúmeras dificuldades até encontrar seu par ideal.

| Um Pistoleiro Chamado Papaco (1986)
Papaco é um misterioso pistoleiro todo de negro que chega a uma pequena cidade do Velho Oeste arrastando um caixão, e deixando uma trilha de corpos pelo caminho. Ali, duas quadrilhas rivais disputam a “mercadoria” trazida por Papaco no interior do caixão.

| As Novas Sacanagens do Viciado em C... (1985)
José Carlos encontra sua parceira perfeita e resolve se casar... (...)