Presidente da ABC adoraria um reboot de LOST. Mas valeria a pena? | JUDAO.com.br

Nos dias de hoje, talvez a série como foi outrora não tivesse o mesmo impacto ou, pior, talvez tivesse impacto DEMAIS da conta…

Na semana passada, durante a edição 2019 da chamada press tour da Television Critics Association, que reúne canais de TV e serviços de streaming para contarem para os mais de 200 integrantes da associação vindos dos EUA e do Canadá sobre suas novidades de programação para o ano, rolou um painel da ABC — que serviu de “estreia” para a nova presidente do canal, Karey Burke, outrora líder de programação original do canal-irmão Freeform.

Na abertura do painel, foi exibido um clipe com alguns de seus maiores sucessos, o que incluiu um trecho da terceira temporada de Lost no qual Jack (Matthew Fox) diz para Kate (Evangeline Lilly) que eles precisam voltar para a ilha. Aproveitando a deixa, o pessoal do Deadline então perguntou pra executiva se existe algum recado que poderia ser lido por eles nas entrelinhas da escolha daquele vídeo em específico. “Você deveria”, brincou ela. E depois emendou: “eu gostaria muito disso; este é um reboot que eu estaria interessada em ver”.

Pois muito que bem. Este é o FATO. Ao contrário do que algumas publicações andaram alardeando, isso NÃO QUER DIZER algo como “a ABC anunciou que vai fazer um reboot de Lost” ou mesmo “ABC anuncia interesse em reboot de Lost“. Foi apenas e tão somente um momento no qual Karey Burke, pessoa física, mencionou seu interesse numa coisa do tipo.

Tudo entendido? Que bom. Depois deste pequeno e infelizmente sempre necessário lembrete de como deveria funcionar o jornalismo que cobre cultura pop, o que cabe discutir a partir da declaração da moça é: quase 10 anos depois do season finale, com tudo que aconteceu de lá pra cá, com a mudança clara no consumo de séries que o público passou a manifestar, faria sentido retornar ao mundo de Lost?

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Burke deixou claro, ao final da sua nítida provocação àquela audiência de coleguinhas jornalistas, que ela bem sabia que ia se tornar manchete dos sites especializados no dia seguinte, que jamais chegou a conversar com os criadores J.J. Abrams, Damon Lindelof e Jeffrey Lieber, tampouco com o showrunner original Carlton Cuse, a respeito da possibilidade.

Isso a gente bem já imaginava: num mundo em que os revivals de séries estão bombando por aí nos mais diferentes formatos, de Charmed a Will & Grace, seria natural que alguém fizesse esta pergunta pros caras. E o THR de fato perguntou a Cuse a respeito, no ano passado, se seria algo que ele toparia/curtiria. “Damon e eu sempre fomos muito rígidos com relação ao fato de que contamos a história que queríamos contar. Eu estaria de acordo se a ABC contratasse alguém com uma boa ideia que envolvesse OUTROS personagens que vão pra ilha em algum ponto”, diz. “Eu ficaria menos empolgado se eles quisessem usar os mesmos rostos que já mostramos na série”.

E ele gostaria de estar envolvido, apesar de ter assinado um baita acordo justamente com a ABC para o desenvolvimento de novas séries por meio de sua companhia, a Genre Arts? “Não, eu acho que não”.

Olha só, o cara tem um ponto BEM interessante aqui: usar o conceito de Lost mas sem necessariamente pensar numa continuação direta e/ou PREQUÊNCIA envolvendo Jack, Kate, Sawyer, Ben, Locke, Sayid, Hurley e afins, se focando naquele que é maior e mais interessante personagem de todas as seis temporadas originais da série que é a Ilha, poderia realmente ser uma boa ideia.

Mas, por outro lado, é importante pensar que Lost foi exibida entre 2004 e 2010, antes das redes sociais ganharem a força brutal que têm hoje, inclusive impactando diretamente algumas decisões criativas que produtores/roteiristas tomam em suas atuais produções. Em termos de CONCEITO, será que Lost, como foi há quase uma década faria sentido nos dias de hoje? Afinal, se AINDA tem gente que continua insistindo que a galera tava toda morta e a gente precisa explicar isso recorrentemente...

Em Setembro do ano passado, a Evangeline Lilly mandou um importante recado para aqueles que se sentiram traídos pelo final de Lost, que não respondeu praticamente nenhuma das questões que muita gente ACHAVA que deveria ter respondido. “Se você quer uma resposta para uma grande pergunta sobre a vida, vá para a Igreja, Deus, encontre a resposta. Mas arte... Arte deve, sempre, te devolver a pergunta, pedir pra que você olhe pro que você está vendo, ouvir o que você tá escutando, vivenciar, e aí olhar pro espelho da sua alma e entender o que aquilo significa pra você”.

E completou, lindamente: “Não existe uma única interpretação para o final de Lost. Pra cada pessoa que está nessa sala, existe um final real e verdadeiro de LOST. Porque é apenas um reflexo de quem vocês são, e é a grande pergunta sendo feita a vocês, não a grande resposta sendo dada”.

Essencialmente, este é um bom resumo do que foi a série. Mais sobre a experiência, sobre a viagem, do que sobre perguntas sendo feitas. Mas vivemos, nos dias de hoje, num mundo em que as redes sociais simplesmente EXPLODIRIAM ao final de cada episódio e no qual o Twitter se tornaria uma verdadeira bomba atômica caso tivéssemos um final como aquele de 2010. Imagine a mesma internet que vê Game of Thrones assistindo a uma parada tipo Lost? Já dá até pra imaginar os comentários das mesmas pessoas que, até bem pouco tempo, estavam desesperadas querendo dissecar qualquer entrevista de Darren Aronofsky para encontrar o significado de seu filme mãe!, sabe?

“Você sai do filme e você não está feliz, você sai bem puto. E essa era a intenção: alimentar o público com uma dor imensa. Depois, com o tempo, isso se dissipa e cria espaço para conversas e realizações e é aí que o filme funciona”, afirmou o cineasta, em entrevista ao JUDAO.com.br, ressaltando mais de uma vez que quer que as pessoas tenham suas interpretações e discussões. Só aqueles danados daqueles números de Lost iam se tornar razão pra galera sair no tapa. Imagina a fumaça preta, os pés gigantescos das estátuas... Eita.

Neste texto sobre Aniquilação, a gente disse que precisamos deixar o cinema ser cinema, e isso vale pra cultura pop como um todo. “O público quer pensar da mesma maneira, entender exatamente o que tudo aquilo significa, ao invés de procurar os seus próprios significados dentro de si, das suas experiências. Assistir a um filme é um ato de passividade: você senta na poltrona e deixa aquela obra falar com você. Não adianta interrompê-la, tentar adivinhar os próximos passos ou, principalmente, querer que ela seja o que VOCÊ QUER que ela seja”, foi a nossa conclusão.

Imagina esta galera do explicadinho nos mínimos detalhes vendo aquele mesmo Lost de uma década atrás? Imagina todo o medo dos spoilers, as teorias de fãs bombando ainda mais, como rolou com Westworld, por exemplo, e definindo o que é certo ou errado, o que deve ou não ser aceito... “O maior desafio do telespectador moderno é fugir de spoilers que ainda não aconteceram”, afirmou nosso filósofo Chico Barney. “Não me venham com mistérios se arrastando por meses a fio caso os seus roteiristas não sejam mais engenhosos que uma miríade de internautas desocupados”. Pois é.

No fim, o Lost para o mundo de hoje talvez tivesse que ser um OUTRO Lost. Mas muito provavelmente um OUTRO Lost talvez não tivesse a mesma graça do que aquele que virou o universo das séries de cabeça pra baixo lá atrás... Vale a pena o esforço?

Talvez seja esta a pergunta que uma galera tá se fazendo dentro da ABC neste exato momento.