A morte das histórias em quadrinhos de Terror | Judão

Muito antes da febre The Walking Dead, os quadrinhos de terror já foram sucesso – mas acabaram assassinados por um psiquiatra

“Os gibis de crime e terror são extremamente feios em aparência, causados pela mente diabolicamente distorcida de seus criadores... Assassinatos e tramas sórdidas... Algo deve ser feito... Por lei, se as editoras não censurarem corretamente o seu próprio trabalho”

Dizem, na política, que é feio citar o Mein Kampf, o criticado livro de Adolf Hitler. Em relação mundo dos quadrinhos, talvez eu tenha acabado de fazer algo da mesma medida. Eu citei Sedução do Inocente, o polêmico livro de Fredric Wertham. Acabei de mencionar o homem que tirou a vida dos gibis de horror.

Claro, não dá pra comparar Wertham com Hitler. Mas Wertham agiu em uma época en que os quadrinhos, como mídia, estavam amadurecendo. Uma época de poucos super-herois e uma explosão de gêneros. Revistas de terror, com suas torturas e assassinatos sórdidos, vendiam muito bem nos EUA.

Veja só: estamos falando em uma época que revistas de quadrinhos eram baratas, custando 10 centavos de dólar, e estavam em toda e qualquer banca. Não havia preocupação com faixa etária, classificação indicativa, nada. A EC Comics, que era a grande editora do segmento de terror e crime, publicava títulos como Tales from the Crypt, The Vault of Terror, Weird Fantasy, Panic, Shock SuspenStories e por aí vai. Imagens coloridas, crimes empolgantes, cenas cheias de sangue... A molecada adorava essas coisas.

Foi nesse contexto que o nome de Wertham foi ouvido pela primeira vez. Psiquiatra, ele nasceu na Alemanha e foi para os Estados Unidos ainda nos anos 20. Nas décadas seguintes, estudou diversas crianças, conheceu a delinquência juvenil e encontrou um ponto em comum entre todos: elas liam “quadrinhos de crime”, nas palavras dele, definição que abrangia de terror aos super-heróis.

Naqueles tempos, era difícil não encontrar uma criança que não lia gibis.

Esses estudos levaram ao livro Sedução do Inocente, publicado em 1954, e recheado de inúmeras respostas (e desenhos) de um questionário aplicado nas crianças. “Os desenhos inspirados nas revistas em quadrinhos revelam que as crianças se tornaram imbuídas de uma forma especial de sadismo que habita os quadrinhos, desenhos de terror com gângsteres glorificados, com super homens, com cientistas malucos, com confusão sexual”, diz Wertham em certa parte do livro.

Crime SuspenStories #22

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O Código de ética dos quadrinhos

[/one-half][one-half last=”true”]Guerra Fria, anos 50, o livro de Wertham... Tudo isso criou um clima favorável a uma grande perseguição. Associações se movimentaram contra as editoras, “mães e pais de família” se uniram para juntar as revistinhas dos filhos e fazer enormes fogueiras. O Senado dos EUA abriu o subcomitê sobre Delinquência Juvenil e, claro, os editores, roteiristas e artistas estavam no banco dos réus.

Monroe Froehlich Jr., gerente comercial da Timely Comics (que, depois, assumiria o nome de Marvel Comics) foi chamado a prestar esclarecimentos ao subcomitê. Martin Goodman, o publisher da Timely, mandou encher uma Kombi com gibis bíblicos e histórias “boazinhas” da editora. Não adiantou muito. Como conta o livro Marvel Comics – A História Secreta, de Sean Howe, o inquisidor brandia pra plateia com uma Strange Tales #28 na mão, falando que ali tinha “cinco histórias nas quais treze pessoas morriam de forma violenta”. O que esperar de uma publicação chamada justamente Strange Tales? Pois é. [/one-half]

Goodman e Froehlich Jr. levaram uma pancada, mas saíram de lá apenas com os dois olhos roxos. O mesmo não aconteceu com a EC. Maior expoente do primeiro auge do terror nos quadrinhos, o publisher William Gaines era a vidraça que os políticos queriam. Mais uma vez o inquisidor foi com uma revista na mão, agora Crime SuspenStories #22, com uma capa cheia de sangue. “Você considera isso de bom gosto”, perguntou o senador Estes Keufauver, em mais uma cena retratada no livro Marvel Comics – A História Secreta. “Sim, senhor, considero de bom gosto para a capa de um gibi de terror”, respondeu Gaines. O depoimento foi parar na capa do New York Times.

O estrago, amigo, já tava feito.

Como é comum nesses julgamentos políticos, o subcomitê nunca terminou a “investigação”. Nem precisava. Fogueiras de gibis haviam aquecido o inverno estadunidense entre 1953 e 1954. Em resposta a tudo isso, a indústria dos quadrinhos se acovardou. Temendo uma censura do governo e a ira dos pais, criaram o Comics Code Authority — chamado no Brasil de “Código de Ética dos Quadrinhos”.

[one-half]O texto do código trazia coisas como “os crimes nunca devem ser apresentados de uma forma que crie simpatia aos criminosos”; “nenhum gibi deve apresentar detalhes explícitos e métodos do crime”; “em toda a instância o bem deve triunfar sobre o mal e o criminoso deve ser punido por seus erros”; “todas as cenas de horror, derramamento excessivo de sangue, crimes sangrentos ou horripilantes, depravação, luxúria, sadismo e masoquismo não serão permitidos”; e “profanidade, obscenidade, vulgaridade, ou palavras ou símbolos que tenham adquirido significados indesejáveis são proibidos”.

O código não era mandatório, mas uma revista precisava do selo do CCA em sua capa pra ser aceita pelos anunciantes, distribuidores e donos de banca. E, pra receber o selo, as editoras precisavam enviar previamente as histórias para a entidade. Era uma censura prévia.

Na prática, os gibis de terror começaram a morrer naquele setembro de 1954, quando o Código foi criado. Foi uma morte lenta, como em uma boa história de terror, com a EC e as outras editoras abandonando o gênero aos poucos.

Para a EC Comics, sobrou apenas um título: a humorística Mad, que nos anos 60 chegou a ter tiragem de mais de 1 milhão de exemplares.[/one-half][one-half last=”true”]

Mesmo pra 1954, as regras do CCA eram esdrúxulas e maniqueístas

CCA[/one-half]

Era de Prata: nada admirável mundo novo

Basicamente, a ficção científica foi tomando aos poucos o espaço dos outros gêneros das revistas que eram vendidas nas bancas na segunda metade dos anos 50. Porém, o jogo mudou de vez quando a DC Comics — a única que apostou initerruptamente nos super-heróis desde o final dos anos 30 — pegou justamente essa ficção científica para reimaginar o Flash. Começava a Era de Prata dos Quadrinhos, com suas histórias maniqueístas (como o código exigia) e um domínio que fez as HQs se tornarem por muito tempo quase que exclusivamente sinônimo de super-heróis.

Showcase #4 e o início da Era de Prata dos quadrinhos

Showcase #4 e o início da Era de Prata dos quadrinhos

Mas as vítimas daquela cruzada nos anos 50 não eram apenas os quadrinhos. Wertham também criticava outras mídias, principalmente a televisão. “Eu ouvi de um grande executivo de televisão que se toda a violência e o terror foram removidos das histórias em quadrinhos e da televisão, tudo no mundo ficaria igual”, disse o psiquiatra em Sedução do Inocente. “Esse tipo de argumento antiético tem sido feito em cada etapa do progresso que a humanidade já fez, seja a assepsia, vacinação ou inspeção da carne”.

Isso, ele comparou o terror na TV e nos quadrinhos com inspeção da carne e assepsia.

O que importa é que a televisão, claro, não foi vítima da mesma cruzada, até porque as grandes corporações do meio era já poderosas naqueles tempos, mas o terror em outras mídias sentiu sim o golpe. Assim, fica difícil imaginar como seria hoje o mundo sem Wertham, Sedução do Inocente, CCA...

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Mudando o jogo

Como um zumbi, ou um vampiro, o terror não ficou muito tempo longe dos quadrinhos. Sobreviveu nas décadas seguintes em fanzines, publicações independentes e coisas do tipo. A partir dos anos 80, com a chegada do mercado direto de quadrinhos e as comic shops, voltou a ser viável lançar revistas para um público mais velho e segmentado, com gente que poderia ler histórias de terror e crime sem papai e mamãe ficarem preocupados.

Com a força dos super-heróis, o terror começou a ressurgir exatamente deles a partir de 1984. O primeiro título de sucesso a resgatar esses elementos foi o do Monstro do Pântano do Alan Moore. Mais adulto, mais sombrio, mais cru, mais assustador. “É sadismo e eu estou sendo pago por isso”, disse Moore em 1985 em uma entrevista para a própria DC.[/one-half][one-half last=”true”]

Swamp Thing #29: o primeiro dá série sem o selo do CCA

Swamp Thing #29: o primeiro da série sem o selo do CCA

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Nessa época o caminho já estava claro. Anos depois a DC lançou Sandman, de Neil Gaiman, que (entre diversas outras coisas) também resgatava elementos dos gibis de terror. A editora reuniu tudo isso em um novo selo, chamado Vertigo, feito para o público adulto e que não dava atenção ao Código de Ética.

O Código, aliás, foi também sendo relaxado. E depois de algumas polêmicas em meados anos 90, a aprovação da CCA deixou de existir de forma efetiva. As editoras pararam de mandar as revistas pra lá, apesar do selo ainda aparecer na capa. Mas foi apenas nos anos 2000 que o Comics Code Authority morreu de vez, substituído por uma classificação etária, tal qual existe em outras mídias.

[one-half][quote width=”100%” author=”Robert Kirkman”]

É como se a nossa indústria estivesse amadurecendo novamente como arte

[/quote][/one-half][one-half last=”true”] Foi nesse mundo novo, cheio de escolhas, que Robert Kirkman e Tony Moore lançaram The Walking Dead em 2003 – buscando, de certa forma, o terror para criticar as pessoas e a sociedade, um pouco como fazia a EC nos anos 50. “Eu acho que agora, com a completa remoção do Comics Code Authority, é como se a nossa indústria estivesse amadurecendo novamente como arte que pode contar uma grande variedade de histórias”, disse Kirkman em recente entrevista ao HeroFix. “Horror é um gênero muito popular, crime é um gênero muito popular, eu amo que nós estejamos vendo mais revistas de ficção científica – é uma vasta gama de títulos que não são de super-herói. Eu acho que é um ponto de virada da indústria e claramente está corrigindo o que deu de errado no passado para os quadrinhos como um todo”. [/one-half]

Nisso tudo, The Waking Dead foi pra TV — sendo um sucesso também na outra mídia. O curioso é que esse sucesso, de certa maneira, foi previsto pelo Fredric Wertham nos anos 50. “Nos últimos cinco anos ou mais os quadrinhos de crime influenciaram toda a mídia em algum grau. [...] É verdade, sempre foi apontado pelos defensores das histórias em quadrinhos que os programas de crime e terror existiam muito antes das HQs. Mas há um novo e especial toque – flagrante, bruto, sem vergonha – que essa outra mídia agora tem que absorver, imitar a rival para competir com a indústria dos gibis. A mente das crianças já foi moldada no forte padrão sádico”, publicou o psiquiatra em Sedução do Inocente.

[three-fourth]No caso de The Waking Dead — e de outras produções do tipo que estão surgindo e são adaptações de quadrinhos, ele estava certo. Só que, veja só, isso não é ruim. Até porque, vamos combinar, o conteúdo não é para crianças. Nem nunca foi.

O fim de Wertham

Ainda nos anos 50, Wertham tentou publicar um livro parecido com Sedução, chamado The War on Children, sobre os efeitos da TV nas crianças. Nenhuma editora quis. Com o tempo, começou a se interessar pela subcultura dos quadrinhos e, no livro The World of Fanzines (de 1974), disse que os fanzines eram um “exercício saudável para a direção criativa”. Só que tudo aquilo que ele escrevia, nessa época, era visto com ceticismo.

Wertham morreu em 1981, aos 86 anos. Em 2010, Carol Tilley, professora assistente da Universidade de Illinois, analisou os materiais que deram origem a Sedução do Inocente e concluiu que “Wertham manipulou, exagerou, comprometeu e fabricou provas – especialmente as provas que ele atribuiu à pesquisa clínica com jovens – para ganho retórico”. [/three-fourth][one-fourth last=”true”][text-box title=”Passado logo aí” width=”100%”]

Muitas das HQs do primeiro auge do terror (e de outros gêneros) estão em domínio público e, veja só, são distribuídas gratuitamente na internet. Atualmente, The Digital Comics Museum tem mais de 15 mil títulos pra download. Só que como a EC Comics foi comprada pela DC, nada deles caiu em domínio público e não pode ser encontrado por lá.

Mas isso não quer dizer que não há boas histórias de terror no passado no Museu. É possível encontrar por lá publicações como Tomb of Terror, Witches Tales, Beware Terror Tales, Down With Crime, Crime Mysteries e Beware, entre diversas outras. Pra conhecer, clique aqui.

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E se começamos a matéria comparando o psiquiatra a Hitler, fechamos comparando-o a Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.

Fredric Wertham, o homem que odiava quadrinhos, já idoso e lendo... quadrinhos

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