Projeto Flórida: é a vida, é bonita e é bonita!

Infelizmente deixamos de ser crianças um dia. Mas pelo menos existe o cinema pra nos mostrar que as coisas podem ser diferentes, nem que seja por poucas horas.

Tem um par de personagens em Projeto Flórida que, se você não reconhece alguém daquele jeito na vida real, é porque você é um dos dois. Brasileiros, ambos chegam em Orlando — ou, como alguns resumem, na Disney — e se veem hospedados num dos trocentos “abertos” que existem na região. Eles ficam um tanto assustados com a ideia, primeiro porque acharam que estavam se hospedando dentro do Walt Disney World Resort (um fica a 10km de distância do outro, de carro é realmente perto e rápido), segundo porque, como a mina do casal diz, aquele hotel se parece mais com um “Projeto”, uma referência ao que aqui em São Paulo chamamos de “COHAB” e que o poeta Chorão tornou conhecido no País inteiro como “BNH”.

Eles brigam, discutem, o marido diz que errou, a moça diz que não vai ficar ali, os hotéis estão lotados, é a lua de mel. Enquanto isso, a câmera fica se não o tempo todo focada em Moonee e Scooty, que moram no tal do Magic Castle Inn & Suites, mas mostrando aquela cena a partir do ponto de vista dos dois, crianças entre seus sete, oito anos. Absolutamente alheios à toda aquela treta, pra eles a única coisa que interessa naquele momento é carregar as malas do casal e eventualmente ganhar uma gorjeta pra comprar um sorvete ou qualquer coisa assim.

Retratar a atitude e a nacionalidade do casal não é acaso, ainda que seja um dos muitos recortes possíveis dentro do filme. Não precisa ir muito longe pra ouvir histórias de Brasileiros que foram para a “Disney” e voltaram de lá achando que aquele é o resumo dos EUA, uma terra mágica, onde tudo funciona, tudo é limpo, todos têm oportunidade; qualquer coisa além daquilo desperta o que de pior existe no nosso COMPATRIOTA, o mesmo fodido que acha que outros fodidos são piores que ele e votam por pisar em suas cabeças.

No meio disso tudo, as crianças vivem em seu próprio mundo. Eventualmente vão refletir aqueles mesmos comportamentos, mas pouco importa o hotel, pouco importa muita coisa. Pra uma criança, não é difícil transformar a vida, por mais difícil que seja, em algo mágico. A Vida é Bela, por exemplo, ganhou merecidamente um Oscar ao retratar exatamente isso — o que faz o fato de Projeto Flórida ter sido PRETERIDO na lista de indicados ao Careca Pelado desse ano um tanto bizarro, mas essa é outra história.

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Projeto Flórida — que não tem esse nome por ser um conjunto habitacional, que não é, e sim porque era assim que Walt Disney, nos anos 60, chamava o que depois se tornaria o Walt Disney World — é um filme que conta uma história pesada, triste, de como as coisas estão e são difíceis pra todos, em todos os lugares, a partir da vida de Halley e Moonee, mãe e filha interpretadas pela estreante Bria Vinaite e pela personificação do carisma, Brooklynn Prince, respectivamente. A diferença é que, com as crianças em primeiro plano a maior parte do tempo, essa mesma história é contada de maneira leve, alegre, mostrando que, bom, as crianças são mesmo as melhores coisas que a humanidade já criou — e não, qualquer semelhança com Os Batutinhas não é mera coincidência. “O filme se passava durante a Grande Depressão e aquelas crianças viviam na pobreza, mas estava focado na alegria, no coração e no humor de ser uma criança e nós queríamos a mesma coisa”, contou o diretor Sean Baker ao THR.

Enquanto uma, com seus vinte e bem poucos anos, faz um enorme monte de cagadas enquanto tenta ganhar o suficiente pra pagar o aluguel e criar a pequena, a outra vive uma vida de muita dificuldade fazendo o que faz de melhor: sendo uma criança. “A gente entende que cinema ainda é um meio de entretenimento e o público quer entrar numa sala e escapar por duas horas. Por isso a gente quis fazer as pessoas rirem, se divertirem com essas crianças e passar o verão com elas, mas também usar essa plataforma pra mostrar algo que eu acho bem importante”, afirmou o diretor. “Habitação é um direito humano fundamental e eu acho que o primeiro passo pra mudança é consciência, então se mais pessoas souberem dessa situação, eu espero que isso as inspire a se envolver — doando, educando, ajudando...”

“A gente vê a Moonee usar sua imaginação e maravilhamento por todo o filme pra tirar o melhor da situação que ela vive”, explica o diretor. “Ela não pode ir pro Animal Kingdom, então faz um ‘safári’ atrás do hotel e vê as vacas, ela vai para as casas abandonadas porque não pode ir pra Mansão Mal Assombrada”, conta. Tal qual uma versão cinematográfica de Pais e Filhos ou Como Nossos Pais, no fim das contas, a gente percebe que a mãe é tão imatura e, por que não?, inocente quanto a filha que, além de repetir os piores comportamentos de quem serve de exemplo, em determinado momento, acaba parecendo muito mais velha do que é — justamente no único momento em que a realidade toma conta, te fazendo sentir exatamente a mesma dor que a pequena Moonee sente e, possivelmente, chorar da mesma maneira.

É nesse mesmo instante, porém, que o filme assume uma postura completamente diferente — inclusive em termos técnicos, abandonando os 35MM e passando a usar um iPhone 6 Plus, pra mostrar que, apesar de tudo, ser criança ainda é uma vantagem no mundo em que vivemos. Que sim, é possível fugir da realidade e viver dentro de um Castelo Mágico com sua melhor amiga. E que, bom, o cinema, sempre ele, também consegue nos fazer sentir como crianças e viver um mundo muito melhor, mais leve e divertido do que o que de FATO vivemos.

Basta que a gente deixe isso acontecer — com o cinema e com as nossas crianças.