Quando as HQs viram uma baita homenagem pros rappers brasileiros | JUDAO.com.br

Batemos um papo com o youtuber LØAD, um dos responsáveis pelo lindo projeto Rap em Quadrinhos, sobre como a parada surgiu e pra onde ela vai

Lá em 2015, a Marvel inventou de reinterpretar com seus personagens as capas de alguns dos discos mais importantes e icônicos do hip-hop/rap de todos os tempos.

Teve Doutor Estranho na capa de The Chronic, do Dr Dre; Howard the Duck no lugar de Ol’ Dirty Bastard em Return to the 36 Chambers; Homem de Ferro pagando uma de 50 Cent em Get Rich or Die Tryin’; e até o Homem-Formiga como o bebê na capa de Ready to Die, do Notorious B.I.G. “Durante anos, a Marvel Comics e a cultura do hip-hop estiveram engajadas em um diálogo frequente”, afirmou o editor-chefe da editora na época, Alex Alonso.

Alguns quadrinistas e ativistas negros não concordaram e acusaram, com bastante justiça, a empresa de fazer do hip-hop apenas um trampolim, uma “estratégia de marketing”, usando a cultura negra para atrair os brancos — enquanto tem em suas fileiras personagens negros e gibis com equipes de negros, a editora raramente apresentaria artistas negros nos bastidores.

Pois se lá a gente tava falando de super-heróis assumindo o papel de rappers, por que não experimentar, talvez, o contrário? Pois foi este jogo invertido que o youtuber Gil Santos, o LØAD do canal de mesmo nome, acabou fazendo em parceria com o ilustrador Wagner Loud, gerando o projeto Rap em Quadrinhos.

“Eu sempre achei que as obras conversavam, por ouvir rap desde moleque e ler quadrinhos também”, explica o LØAD, em entrevista pro JUDAO.com.br. “Já vinha fazendo conteúdos em vídeo pro canal nessa linha, até que conheci o Wagner no projeto que ele fez de Punk Rock em Quadrinhos.

O artista que atende pela alcunha de W.Loud já trabalha há uma década na Maurício de Souza Produções e também é designer do Dead Fish e de mais uma porrada de bandas do cenário HC/punk. O que ele fez, assim, por conta própria, foi adaptar seus heróis gringos, ícones do gênero, pras capas de gibis da Marvel. E aí tivemos Joey Ramone na capa do Homem-Aranha, Johnny Ramone em Capitão América, The Descendents incorporando Quarteto Fantástico, Minor Threat como X-Men, Dead Kennedys no clima do Demolidor… “Conversando com ele, tivemos a ideia de fazer a mesma coisa com MCs, já que a ligação é bem mais forte”, afirma ele. “Demoramos uns 6 meses até concretizar o projeto”.

Ele explica que a conexão do hip-hop com os gibis se fortaleceu na década de 70, quando tanto as HQs quanto os filmes de kung fu tavam fazendo a cabeça da rapaziada que começava a produzir seus primeiros trabalhos tanto lá quanto cá. “Muitos grupos daquela época que estavam começando foram se utilizando dos quadrinhos pra criar nomes de projetos e até logos. Wu-Tang Clan, Grandmaster Flash são só alguns exemplos”. Pro LØAD, não apenas as HQs como a própria cultura pop fazem parte do DNA do rap e do movimento hip-hop como um todo. “Difícil ter um álbum de rap sem uma referência à cultura pop ou um sample que referencie num som. Aí é só procurar saber do MC ou DJ o que ele mais fazia na infância. Certeza que uma das coisas que ele vai falar é que lia HQs”.

No entanto, apesar de ter curtido a ideia da Marvel alguns anos atrás, o LØAD nos revela que sua maior influência foi mesmo o gibi Hip Hop Genealogia, obra de Ed Piskor que narra como nasceu o movimento nos EUA, lá na virada dos anos 70 pros 80. Lançado em capítulos na revista Boing Boing e depois editado em compilação pela Fantagraphics, saiu aqui pela Editora Veneta.

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“Eu e o Wagner percebemos que faltava algo assim aqui pros nossos artistas que nos influenciaram tanto. Aí fomos lá e fizemos”, conta. Dos punks gringos pros rappers brasileiros. E como o gosto musical de ambos é bastante parecido, primeiro eles pensaram no artista e depois debatiam qual herói e personalidade casava mais com ele, escutando as músicas. “Como adoramos quadrinhos, fugimos de coisas óbvias e clichês, procurando sempre achar aquele ponto onde o artista vai entender a comparação e o leitor e ouvinte também”. Mas teve alguma ideia que ambos tiveram e depois voltaram atrás, do tipo “não, melhor não, talvez o cara não vá gostar”? Segundo o LØAD, ele e o Wagner mudaram muitas coisas — por exemplo, artistas que iriam sair na primeira remessa de ilustrações eles acabaram segurando pra segunda.

“Um exemplo é o Kamau. Originalmente ele seria o Super Choque mas, depois de conversar com ele e mandar a arte pro cara aprovar, mudamos ele pro Fera, já que tinha mais a ver com a personalidade dele. Temos muitos assim, que mudamos depois que o Wagner desenha — mas porque não paramos de pensar e adicionar coisas!”.

O primeiro que eles fizeram foi o Emicida de Miles Morales. “Como tenho uma amizade com ele, mandei pro cara e perguntei o que ele achava da ideia e tals, ele pirou mesmo!”, conta. “Todos os artistas adoraram, não teve nenhum até agora que achou ruim ou não curtiu sua versão. Aliás, estamos mandando antes de postar pra saber opinião de alguns. E foi sucesso total!”.

O projeto, inicialmente dedicado às redes sociais, teria só 10 artistas homenageados. Mas com o sucesso, eles fecharam em 20 e inauguraram até uma exposição, que começou a rolando em alguns lugares.

Desta forma, tivemos uma mistura de novas e velhas gerações com Mano Brown como Pantera Negra, MV Bill como Luke Cage, Criolo como Senhor Destino, Negra Li como Tempestade, Marcelo D2 a BNegão como a dupla Wolverine e Hulk (na versão Senhor Tira Teima), Black Alien como Doutor Estranho, Karol Conká como a Vixen, Rincon Sapiência como Super Choque, uma homenagem ao Sabotage como Doutor Manhattan de Watchmen e, um dos meus favoritos, a dobradinha Thaíde e DJ Hum como Besouro Azul e Gladiador Dourado.

Fora as exposições, palestras e rodas de debates com alguns desses artistas, eles realmente tão pensando em fazer um material físico, entre “outras coisas”, que ele não conta ainda quais são. “Estamos organizando tudo direitinho pra não ficar algo fora de controle porque eu tenho o canal e meus projetos paralelos e o Wagner tem vários trampos e responsas fora do projeto”.

Mas a promessa tá clara: “a ideia é voltar com uma parte 2 ano que vem”. 2019 tá vinte dias longe da gente, então... ;)