Quando cientistas ganham superpoderes e viram a Liga da Justiça | Judão

Batemos um papo com o criador da série animada Super Science Friends, que transforma nomes como Nikola Tesla, Charles Darwin, Albert Einstein e Marie Curie em super-heróis e vai virar jogo pelas mãos de uma desenvolvedora brasileira

Há cinco anos, ao lado da amiga Morghan Fortier, o canadense Brett Jubinville resolveu aproveitar mais de uma década de experiência com animação – em títulos como Ugly Americans, do Comedy Central, e o infantil Dirtgirlworld – para criar a sua própria produtora, a Tinman Creative.

Conforme uma grana foi entrando aqui e ali, essencialmente vinda do mercado da publicidade, Brett teve tempo de começar a pensar em um projeto um pouco mais... pessoal. “A ideia, na real, veio num dia em que eu tava acordado até tarde, tinha comido um monte de podreiras e tava jogando Fallout”, conta. “Eu acho que teve alguma coisa a ver com o futurismo mais retrô de Fallout, juntando com o fato de que eu tinha acabado de animar um comercial com Isaac Newton e Albert Einstein. Mas me deu o clique. O capanga espacial soviético foi o primeiro personagem que esbocei, e aí passei o resto da noite desenhando o que seria mais ou menos o show”.

Pronto: nascia aí o Super Science Friends, série animada que você pode acompanhar, sem pagar nada, no YouTube. :)

Com um visual inspirado tanto no traço de Mike Mignola quanto em animações mais cult como Clone High e Mission Hill (“que são, basicamente, minha inspiração para tudo na vida”, brinca o criador), Super Science Friends pega alguns dos cientistas mais célebres da história, turbina a turma com superpoderes relacionados às suas áreas de atuação e os torna um grupo de super-heróis que viajam no tempo para lutar contra uma série de inimigos, incluindo nazistas. “Se você não puder socar uns nazistas, afinal, quem você vai poder socar?”, sacaneia Brett, lembrando a recente discussão que chegou até os primórdios do Capitão América e de um certo senhor chamado Jack Kirby.

O grupo é formado por Sigmund Freud (controle da mente), Nikola Tesla (habilidades elétricas), Marie Curie (cura através da radiação), Charles Darwin (transformação em animais), um Albert Einstein com 12 anos de idade (supervelocidade e controle do tempo), uma versão de Tapputi, com seus mais de 4.000 anos de idade, inspirada naquela que é considerada a primeira química da história – fazendo perfumes na região da Mesopotâmia 1.200 a.C. e, igualmente tarado por charutos, o Nick Fury dessa galera aqui é ninguém menos do que Winston Churchill.

Com todos estes personagens históricos em mãos, Brett admite que o grande desafio é mesmo encontrar um equilíbrio entre ser fiel aos fatos históricos e exagerar/caricaturizar cada aspecto de suas histórias para que eles sejam adaptáveis a este novo universo.

“Minha esperança é que o público ache a série divertida, antes de qualquer coisa, e que então eles se interessem por estes cientistas não só por seu trabalho, mas também pelas pessoas que eles eram, completamente únicos e até um pouco ridículos”, explica ele. “Enxergar neste trabalho qualquer mensagem que vá além de ‘olha só um pouco de loucuras e bizarrices científicas pra te entreter durante 20 minutos’ é muito generoso. Queremos, isso sim, que seja algo com múltiplas camadas, para que todo mundo possa tirar alguma coisa destas histórias”.

Quer um exemplo claro? O retrato que eles fizeram de Tesla. Segundo Brett, a intenção foi torná-lo justamente uma antítese do Homem de Ferro, alguém inseguro de suas habilidades e que vive querendo se colocar no papel de vítima da situação. “Quando ele estava vivo, nada dava certo pro Tesla. Estamos falando de um gênio científico que não manjava nada de negócios e de quem muita gente acabou tirando vantagem”. Além disso, o animador conta que quis evitar a tentação de criar um Tesla foderoso e chutador de bundas justamente porque seria isso que todo mundo esperaria. “Ele é claramente um personagem que os fanáticos por tecnologia dos dias de hoje adoram. Qual seria a graça de escrevê-lo de maneira tão óbvia?”.

O mesmo vale, por exemplo, para os vilões. Enquanto, obviamente, o arqui-inimigo de Darwin é um Papa (e que aparece montado em um tiranossauro rex), Tesla tem que encarar ninguém menos do que Thomas Edison, creditado como o inventor da lâmpada e que, o próprio Brett admite, foi uma escolha bastante polêmica. “Ele foi um personagem bem divertido de escrever. No papel, veja, ele era um cara legal, fez um bocado por sua comunidade, deu muita coisa pra caridade. Mas não creio que ninguém que conheça a história dele discuta o quanto ele não foi lá muito legal com o Tesla”, explica ele, relembrando da CONTENDA comercial entre os dois pelo uso da corrente alternada (defendida por Tesla e George Westinghouse) versus a corrente contínua (a tese de Edison).

“O legal neste episódio do Edison é que vamos pra frente e pra trás muitas vezes na revelação de quem é o vilão e, alerta de spoiler, descobrimos que o ex-chefe e nêmesis de Tesla era apenas um babaca”, brinca. Aliás, o episódio Electric Bogaloo, este com o duelo entre Edison x Tesla, é o mais recente lançado até o momento, o número 2 depois do capítulo inaugural (isso se a gente não considerar o especial de Natal), devidamente financiado via Kickstarter. “O próximo episódio será lançado no dia 25 de março. E temos planos de colocar no ar alguns episódios mais curtos no meio do ano e então mais dois episódios completos entre os meses de setembro e outubro”, conta. “Temos em mente fechar a primeira temporada com um total de 7 episódios”.

Para tentar dar uma força nos custos de Super Science Friends, Brett até abriu um Patreon pra garantir o tal do financiamento coletivo recorrente. Mas, por enquanto, os valores ainda são bem baixos. “Nós realmente ainda não nos empenhamos como deveríamos para recrutar estes patronos, mas é bom ter esta comunidade para poder compartilhar coisas”. Mesmo assim, no entanto, a Tinman acredita no projeto e mete as caras – sim, migos, a gente entende vocês, VENHAM AQUI E DEIXEM A GENTE DAR UM ABRAÇO EM VOCÊS! <3

E olha que os custos dos caras pra produzir um episódio de Super Science Friends não são baixos. Apesar do traço simples, é tudo feito no esquema de animação tradicional mesmo, frame a frame, na melhor herança possível do acetato, um time-base de 12 pessoas envolvidas diretamente na produção. “Tipicamente, cada episódio demora 2 meses para ser escrito, mais 4 meses no desenvolvimento do storyboard, 4 meses para animar e então cerca de 6 semanas pra colocar a música e os efeitos sonoros. Então, na soma, pode colocar aí uns 10 meses para ter um episódio pronto”. E embora eles já tenham dublagem e legendas em espanhol tradicional, a produtora agora está procurando parceiros para que possam ter a mesma entrega no espanhol falado na América Latina e também em português. “A América Central e vocês da América do Sul parecem ter curtido mesmo a série, então queremos fazer com que esta audiência fique ainda mais feliz”.

Lançamento em DVD e/ou Blu-ray parece carta fora do baralho para eles por enquanto, mas o licenciamento para se ver Super Science Friends em uma outra plataforma está no radar. “O Netflix atinge praticamente todo mundo, então claro que funcionaria lá, mas acredito que talvez um Adult Swim ou um Cartoon Hangover [o canal online do Frederator Studios, criadores de Hora de Aventura e Padrinhos Mágicos, entre outros] encaixasse melhor”.

Além disso, apesar do ritmo lento para o lançamento dos episódios, Brett está curtindo experimentar outras mídias para complementar a experiência de Super Science Friends. Ele foi o roteirista da HQ Super Science Friends: 2099, uma trama paralela com arte do ilustrador Xulm (aka Marcin Surma) e estrelada não apenas por um Einstein futurista, mas também pela versão 2099 – em clara referência ao universo da Marvel – de ninguém menos do que Ada Lovelace, matemática e escritora reconhecida como a responsável pelo primeiro algoritmo a ser processado por uma máquina.

E, sim, quem acompanha o trampo deles, já sabe que eles também anunciaram recentemente, com certa carga de mistério, um game de Super Science Friends. “Ah, eu sou terrível em manter segredos, de qualquer forma”, brinca Brett, antes de contar que o desenvolvimento ficará a cargo da Gorlami Games, empresa pernambucana que recentemente lançou Trumpocalypse IV, joguinho pra celular no qual é preciso impedir o atual presidente dos EUA de foder com todo o planeta. “Conforme tivemos mais pra mostrar, vamos lançar uma campanha no Kickstarter especialmente para o jogo, nos próximos meses, e nosso objetivo é tê-lo pronto no ano que vem, mais ou menos nesta mesma época”.

Mas qual vai ser a pegada? A resposta dá vontade de começar a jogar AGORA: “Vai ser um jogo animado numa vibe meio retrô, pixelada, um jogo de luta em side-scrolling mantendo a tradição de Streets of Rage ou Teenage Mutant Ninja Turtles: Turtles in Time”.

Torcendo desde já por um golpe conjunto de Tesla e Darwin, por favor.