Que bosta, The Strokes. Que bosta. | Judão

Não é porque os caras têm umas musiquinhas legais que a gente deixa de ver o conjunto cagado da obra

De um lado, a imensa galera reunida no palco Skol para o show de encerramento do Lollapalooza Brasil 2017, aguardando aquela CHAVE DE OURO de dois dias seguidos de peregrinações pelo Autódromo de Interlagos, rangos improvisados, xixi segurado, pele queimada, shows amados, shows odiados, e de razões e emoções que fizeram valer a pena.

Do outro, uma banda estadunidense (com baterista ~brasileiro) que não lança nada que mereça atenção desde a primeira metade dos anos 2000, quando estourou, prestes a se apresentar para um público apaixonado de quase um milhão de pessoas (segundo estimativa da PM de São Paulo ;D), mas com zero vontade de criar um setlist que faça algum sentido e claramente despreocupada em mandar bem.

Tem início o show mais bosta do festival: The Strokes.

Veja, o grande problema aqui é o seguinte: quando Strokes é bom, é ótimo. Cheia de boas referências de rock clássico, com personalidade e uma pegada que consegue ser ao mesmo tempo agressiva e dançante, os caras são a EPÍTOME do indie em sua forma mais divertida. Mas isso é quando eles querem ser bons – e eles parecem não fazer a menor questão.

Vivendo puramente de passado – algo lamentável pruma banda com menos de 20 anos de estrada que lançou seu grande álbum em 2001 – os caras colocaram 9 músicas do próprio Is This It num show arrastado, que ficava engasgando em pausas constrangedoras nas quais Julian Casablancas balbuciava piadas idiotas, falava bem da beleza das brasileiras, ou colocava seus colegas para falar com o público. Numa das poucas (todas desconexas) interações entre grupo e público, o baterista Fabrizio Moretti foi convidado pelo frontman a dar “um oi para o seu povo”. “E aí, minha gente”, exclamou o músico. E só.

O público parecia dormir a cada um desses hiatos de quase um minuto entre o Tico e o Teco de Julian e acordar na hora que alguma música de 16 anos de idade começava a ser tocada. E elas foram bem tocadas, com uma engasgada aqui e ali que fazem parte, e empolgaram. Mas não foram o bastante.

Na tentativa de fazer o tradicional momento do “bis”, os caras deixaram o palco abruptamente e ficaram nos bastidores pelo que pareceu uma meia-hora. Deu ruim. Ao invés da reação automática para um bom show, o público só ficou em silêncio, olhando pro palco e pros lados, tentando entender se era só aquilo mesmo ou tinha mais, até que pouco a pouco a banda foi voltando. Julian foi o último, claro.

Autenticidade é uma coisa incrível e muito valorizável, mas não justifica que um artista seja um belo dum babaca com seu público. Da mesma forma, genialidade não dá carta branca pra ninguém ser mala. Ao menos não ao ponto que parem de falar isso. Mel Gibson é um gênio e babaca. Kanye West, a mesma coisa. Tem muita gente que chamaria Noel Gallagher de gênio, e todos sabemos que, bom, BABACA. Agora, entre uma coisa e a outra, eu questionaria apenas se Julian é um gênio. :D

E não venha me dizer “ah, mas é o estilo dos caras”. Ou “essa é a graça do Julian”. Meu amigo, você deve ter noção de quanto custa um ingresso do Lolla. Deve imaginar o estado físico da galera que optou ficar pra ver os caras se apresentando. Sério que você vai defender uma puta apresentação nas coxas num ENCERRAMENTO de FESTIVAL?

Se muito, era uma boa atração para domingo, no início da tarde.

No retorno do bis mais esquisito que já vi na vida, os Strokes tocaram mais duas músicas – ou foi uma, três... não sei. Eu já tava quase dormindo quando fizeram o encerramento de show mais escroto de todo o festival, só apagando as luzes e vazando sem agradecer o público, a produção, ou quem quer que fosse.

Toda a galera que aguentou até uma chuva fina no início da apresentação para ver os caras foi avisada por um letreiro da Skol que a apresentação tinha acabado – e muita gente saiu praguejando. Eu incluso. E como me arrependi de não ter saído durante a parada, enquanto caminhava em meio aos ZUMBINDIES para o trem.

Que bosta, Strokes. Que bosta.