Foo Fighters em São Paulo: que show, putamerda.

Não há nada na cultura pop de hoje em dia como uma apresentação de Dave Grohl, Taylor Hawkins & Cia.

Escrever sobre shows, pra mim, é acima de tudo escrever sobre a experiência de estar naquele lugar, naquele momento — algo muito maior que a música, que também jamais aconteceria se não fosse por ela.

Nunca fico (muito) perto do palco, sempre procuro ter espaço em volta de mim e invariavelmente dou as costas pra banda, olhando pras pessoas, físicas e jurídicas — uma a uma e como plateia — e assistindo às suas reações. A ideia é ter uma visão distante de tudo aquilo, independente do quanto eu gosto ou não de quem e o que tá tocando, pra poder vir aqui e escrever um bom texto.

Isso, é claro, até a noite dessa terça-feira, 27, em São Paulo.

Sem nenhum atraso, os brasileiros do Ego Kill Talent entraram no palco com a noite ainda por cair e o público começando a chegar. Não sei de quem foi a ideia de colocar uma banda de abertura pra começar a tocar às 18h numa cidade como São Paulo, mas não tão muito de parabéns, não.

Foram exatos trinta minutos de um som pesado que muita gente por ali cantarolava e outros tantos pulavam, mas muito pouca gente se interessava o suficiente pra se dedicar àquele momento. Ainda que bandas de abertura, em sua maioria, sirvam exatamente pra isso, foi uma apresentação pra quem curtir aquele tipo de som procurar num Deezer da vida, ouvir depois e, aí sim, curtir DE VERDADE.

Foto: Thiago Borbolla / JUDAO.com.br

O primeiro grande ato da noite começou meio de surpresa, sem nenhuma preparação ou aviso, quando enfim o dia se foi. Ao som de Walk the Night, dos Skatt Bros, o Queens of the Stone Age entrou no palco e, entre diversos paineis de LED, começou a tocar If I had a Tail — o que, de maneira geral, o público só percebeu alguns segundos depois.

E foi assim por boa parte do show, aliás. Não sei se foi o efeito chute-na-cara-da-fotógrafa, mas nem Josh Homme se mostrava muito empolgado por estar ali, nem o público parecia muito afim de vê-lo ali em cima. Foram bem poucas, e muito frias, as interações e, se não fosse por The Way You Used to Do, No One Knows e Go With the Flow, a galera teria no máximo mexido a cabeça pro que tava ouvindo.

Foi realmente muito estranho o clima e o fim, sem nenhum bis ou algo além de um “Obrigado”, foi mesmo a cereja do bolo de uma apresentação que em momento algum chegou PERTO de ser ruim ou qualquer coisa desse tipo, mas parecia mais uma audição do que um show em um estádio.

Foto: Thiago Borbolla / JUDAO.com.br

Mas aí as luzes se apagaram de novo e, gritando e correndo e deixando bem claro a quem aquele palco e aquele estádio pertencia, Dave Grohl liderou os Foo Fighters com Run, pedindo pra que aquela galera acordasse e corresse por suas vidas com eles.

E, olha, dizer que não foi exatamente isso o que aconteceu seria exagero da minha parte.

Emendando All My Life, Learn to Fly, The Pretender e a sensacional The Sky is a Neighborhood, esticando cada uma das músicas com trocentas pausas pra, ou ficar EMBASBACADO com o público, ou conversar e, a todo momento, elevar a empolgação da galera por estar ali. E foi assim por todas as praticamente 3h de apresentação. “Vocês não terminaram ainda, né?”, vivia perguntando Grohl, no meio das músicas. “A gente vai ficar tocando até não poder mais”. Claro que isso não aconteceu e em momento algum aconteceria, mas o sentimento era EXATAMENTE esse: ninguém queria que acabasse e eles pareciam MESMO estar tocando por estarem se divertindo.

Ninguém queria que o show dos Foo Fighters terminasse e eles pareciam que estavam ali só tocando e se divertindo com todo o resto da galera

Talvez isso explique a troca de Make it Right, White Limo, Arlandria, Wheels e Something from Nothing por Big Me (que me deixou MUITO feliz em ouvir) e Dirty Water, que talvez não tenha sido a melhor escolha pra um retorno de bis, mas funcionou demais no seu final, além de ter sido a primeira vez que ela foi tocada ao vivo.

Até mesmo a porra do sempre insuportável solo de bateria foi sensacional, com o elevador que colocou Taylor Hawkins no ponto mais alto possível do palco — merecidamente, diga-se de passagem, pois que homem. Na jam de apresentação da banda (ou, como Dave Grohl disse, dos seus maridos), entre Under My Wheels do Alice Cooper cantada por Chris Shiflett, e Another One Bites the Dust (Queen), Miss You (Rolling Stones), Blitzkrieg Bop (Ramones), o cara puxou um Love of My Life do Queen, à capella, e trocou de lugar com Grohl pra uma versão de Under Pressure.

É o tipo de coisa que, de verdade, não tem como dar errado.

Foto: Thiago Borbolla / JUDAO.com.br

Eu não sou exatamente a pessoa mais conhecedora de CONCERTOS do mundo, mas já estive em alguns enormes e, depois de ouvir uma galera que não só já viu o Foo Fighters em outros momentos como vive indo em shows por toda sua vida de tudo quanto é banda, eu acho que posso escrever aqui que, hoje em dia, ninguém faz o que o Foo Fighters faz. Absolutamente NINGUÉM.

Nenhuma outra banda tem o carisma que TODOS os integrantes tem, nenhuma outra banda consegue dominar o palco e um estádio cheio de gente como eles fazem. Ainda que todos os clichês desse tipo de show estejam presentes (“vocês são maravilhosos, nós te amamos”, “a gente vai voltar”, “vamos tocar só mais uma e acabou” e por aí vai), é como se fosse sincero. Grohl não faz nenhum tipo de concessão; manda o casal recém noivado “get out of my fucking stage, go make a baby”, chama todo mundo de motherfucker, dá um oi pra “Miss Tits” que, muito provavelmente, mostrou as suas em algum momento e diz que demorar três anos pra voltar “não é tanto tempo assim” e parece realmente emocionado ao dizer que era a primeira vez (não era) que ligavam as luzinhas do celular num show da banda. “This is really fucking beautiful”.

Pessoas se beijam ao som de Best of You e são elogiadas por outros casais pelo momento, não param de mexer a perna nem enquanto parecem estar querendo literalmente se engolir. Eu, na minha ideia de olhar distante, não consegui não dançar — e quem me conhece sabe que eu não sou disso. Foi, de verdade, a primeira vez na minha vida que consegui me soltar tanto num show, o suficiente pra estar cogitando, enquanto escrevo isso, tentar um ingresso pra assistir à segunda apresentação nessa quarta (28) e, o principal, nunca deixar qualquer outro show dos caras por aqui passar em branco. Eu tou disposto a encarar um FESTIVAL se for o caso. :)

Eis uma experiência que as pessoas poderiam ter pelo menos uma vez na vida. Mesmo que você ache que todas as músicas dos caras pareçam iguais, mesmo que sua banda preferida seja uma como o Queens of the Stone Age e você curta ficar só mexendo a cabeça quando os ouve ao vivo. Não há nada no mundo como um show do Foo Fighters.