Quem são as mulheres que estão mudando o cinema espanhol | JUDAO.com.br

Um movimento derivado da Movida Espanhola anda refrescando o cinema espanhol. E o mais legal: ele é feito por mulheres! <3

Porque a nossa cultura ocidental ADORA um produto americano, a gente acaba sempre dando pouco destaque pra coisas que vem de outros lugares. Por isso, acabamos perdendo boas oportunidades de conhecer algo INCRÍVEL. Mas antes de falar sobre o que anda acontecendo de MUITO foda no cinema espanhol, precisamos dar uma relembrada na História da Espanha.

O ditador Francisco Franco ficou no poder da Espanha de 1936 a 1975. OBVIAMENTE, como toda ditadura, rolou aquele horror que a gente também viveu aqui: repressão policial violenta, pessoal sendo torturado, galera sumindo do nada… Lembra daquele quadro cheio de horror e dor do Picasso, Guernica? Foi feito para retratar o período.

Franco era apoiadíssimo por gente como Hitler, Mussolini e Salazar, então IMAGINA o clima. E essa situação só acabou quando, depois da morte de Franco, seu sucessor Juan Carlos I fez um referendo sobre uma reforma política e, GENTE, que surpresa, 94% da população queria uma democracia parlamentar.

Durante os primeiros anos de transição, um movimento contracultural muito importante nasceu: a Movida Madrilenha. Afetou a literatura, artes plásticas, quadrinhos, grafite, fotografia, música, televisão, cinema... pacote completo. Todos os que se uniram estavam quase EXPLODINDO de fazer coisas modernas, diferentes, queriam falar sobre sexo, drogas e libertações em geral. Ficou tão grande que logo começou a ser conhecida como Movida Espanhola e muuuitas coisas tornaram-se inesquecíveis, como os quadrinhos Madriz, o lendário Concierto de Primavera e o iniciozinho da carreira de um cara aí chamado Pedro Almodóvar.

O movimento chegou ao fim lá pro final dos anos 80, mas é claro que sua importância histórica continuou sendo reafirmada durante todo esse tempo e, por consequência, acabou contagiando novos artistas. E nessa semana, em entrevista ao Hollywood Reporter, as diretoras catalãs Carla Simón, Elena Martín e Neus Ballus falaram um pouco sobre o movimento feminino de cinema que se considera filho da Movida. <3

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As coisas na Catalunha andam TENSAS. Há um fortíssimo movimento separatista por lá e as consequências dessa movimentação política andam bem sangrentas. Mas enquanto isso acontece, algumas cineastas querem ir na contramão dessa brutalidade fazendo pequenos filmes semi-autobiográficos que estão ganhando uma BOA atenção em festivais por aí, especialmente porque mostram algo dessa cultura fora aqueles estereótipos acalorados, machistas e dramáticos que estamos acostumados a ver. “Fazemos parte de uma geração, especialmente entre as mulheres, de colaboração” disse Martín. “Nós estudávamos juntas e mantemos uma boa comunicação entre esses estilos alternativos. Poder compartilhar o processo é um privilégio.”

Pra ela, é JUSTAMENTE essa união que dá o tom especial dessas produções. “ [Os filmes] têm em comum uma certa sensibilidade feminina, não só porque foram feitos por mulheres, mas também porque fomos criadas de uma maneira menos emocionalmente rígida do que nossos pais.” As histórias são no estilão coming of age, sobre vida, amadurecimento e descoberta de identidade. Conversam muito com obras como Me Chame Pelo Seu Nome, Submarino, Juno, como Verão 1993, filme em que Carla Simón conta sobre quando, aos 6 anos, mudou-se para o interior de Barcelona no verão seguinte à morte de sua mãe; e Júlia Ist, que nos leva para Berlin junto com a protagonista para aproveitar uma completa liberdade pela primeira vez.

Carla Simón no set de Verão 1993

Assim como fazer filmes no Brasil é complicado (e querem dificultar cada vez mais…), lá não muda muita coisa. “Somos diretoras que não sabem o que é produzir com dinheiro” disse Simon, que tem 32 anos. “A nossa crise estourou assim que saímos da escola. Então, estamos acostumadas a fazer tudo com praticamente nenhuma verba. E acho que esse é o nosso diferencial. Nós precisamos aprender a ser bem mais criativas.” E TAMBÉM como o Brasil, rola um complexo de vira-lata por lá.

A jornalista especializada em críticas cinematográficas Astrid Meseguer confirma que há uma baixíssima autoestima entre os espanhóis e que, do mesmo jeito que rola aqui, a mídia prefere exaltar o pessoal que consegue algum prestígio internacional. “Se você consegue fazer sucesso fora da Espanha, as pessoas vão chegar até você e dizer ‘Oh, ok, agora sim vamos te promover’”, conta.

Tudo isso nasceu sem pretensão de ser algo grande, mas nesse contexto atual não há COMO não virar algo importante e parte de algo muito maior. “Eu acho que a gente nunca sabe bem quando está vivendo um momento historicamente importante”, diz Carla. “Mas estamos nesse momento. E tudo o que está acontecendo é sobre esses sentimentos”.

É MUITO foda ver essas mulheres fazendo História-com-H-maiúsculo, especialmente quando honram os movimentos de contracultura importantes do seu país. Taí uma coisa na qual a gente poderia se inspirar, né? ;)