A questão da mulher em Blade Runner | Judão

Sexualizada, instrumentalizada e facilmente descartada: forma de crítica ou erro rude?

Quando o assunto é participação feminina, Blade Runner é e sempre foi problemático. Da sua raiz nos filmes noir (recheados de estereótipos de gênero, como o arquétipo da Femme Fatale) à sua composição de elenco, com especial destaque aos tipos de papeis reservado às atrizes escaladas AND suas funções na trama, muitos são os problemas a serem apontados acerca de sexualização e instrumentalização das mulheres no clássico de 1982 e em todas as suas muitas versões.

Não ajuda, também, que a grande “cena de amor” do filme tenha contornos de violência sexual, com o Rick Deckard de Harrison Ford impedindo a fuga da Rachael de Sean Young até que ela concorde e verbalize que quer algo com ele, mesmo claramente não tendo interesse naquilo, naquele momento.

Em entrevistas sobre a gravação da cena de sexo de Blade Runner, a atriz relatou dificuldades na relação com Ford, chegando até a dizer que teve de tirar algumas semanas de folga até retornar às gravações, por conta de hematomas deixados pelo ator durante as cenas. Um de muitos episódios complicados e intimamente ligados à misoginia para a carreira de Sean, narrados nesse memorável papo com o Guardian, em 2015.

É por isso que pode acontecer, e é totalmente cabível que aconteça, de parte do público se sentir frustrada ao perceber que Blade Runner 2049 faz tão pouco, mesmo mais de três décadas depois, para alterar essa realidade.

Embora traga mais mulheres e em papéis de maior evidência desta vez, o filme ainda passa longe de ser aprovado no Teste de Bechdel, e mais uma vez constrói a personalidade dessas personagens como algo complementar e funcional na história do protagonista; no caso, o caçador de replicantes K, de Ryan Gosling. Com exceção de Robin Wright, que vive uma chefe de polícia e DENOTA algum avanço na disparidade de gênero vista na sociedade da saga lá em 2020, as personagens de Ana de Armas, Mackenzie Davis e Sylvia Hoeks são diferentes faces da mesma moeda vista antes com Young e Daryl Hannah.

Em relação ao filme original, aliás, Scott nunca foi direto ao abordar polêmicas relacionadas à questão de gênero, mas sempre explicou a representação feminina no filme como parte de uma grande crítica ao chauvinismo da sociedade moderna, junto à sátira de nossa dependência às grandes corporações e empresários. A maior representação dessa crítica, inclusive, seria a cena em que Deckard executa uma replicante em público, no meio da rua, sem qualquer sombra de remorso – e acompanhamos o brutal assassinato de uma mulher para quem ninguém dá a mínima. Até mesmo a apresentação visual de Rachael, como um avatar da mulher perfeita, enquadrada por Scott como um anjo entre homens, seria o produto da “tecnologia patriarcal”. Hum...

Embora eu acredite no conceito de expor problemas sociais na arte de forma explícita, reproduzindo-os em tom de denúncia, ainda assim, esse é um tipo delicado de comentário social a ser feito por meio do entretenimento de massa – um que pode muito bem ter o efeito inverso e acabar reforçando o tipo de comportamento que, diz seu criador, ele foi feito para combater.

O pensamento de Scott reforça, também, outra interessante interpretação para o Blade Runner original (e que merece um texto por si só ou coisa parecida :D): a de que Rick Deckard é, na realidade, o antagonista da história, desenhada para nos fazer refletir e repensar nossa compreensão e, principalmente, nossas convicções do que é humanidade — e de qual lado teria nossa simpatia num embate entre o que entendemos como ela e seja lá o que representam os replicantes.

Neste brilhante texto do RogerEbert.com, o jornalista Eric Haywood mergulha nessa visão e passa a enxergar o estupro de Rachael por Deckard como um dos elementos da escuridão moral que compõe o personagem; um homem frustrado e solitário que nutre um enorme ódio e sentimento de superioridade pelos e para com os replicantes.

É uma visão que enriquece não só a digestão do filme original como, com as geniais viradas da sequência, fortalece o que vemos em Blade Runner 2049. Se Deckard é a síntese do homem branco heterossexual e frustrado, até o fato de que os únicos dois replicantes executados por ele no filme de 1982 são mulheres serve ao contexto da crítica de Scott ao chauvinismo – ainda que isso não garanta que ela realmente FUNCIONE.

Mas mesmo que tudo isso seja levado em consideração, ainda temos na mão um dos maiores clássicos do cinema que é, por um motivo ou outro, um filme indiscutivelmente problemático na sua representação de gênero. Por que, então, não buscar uma subversão disso em uma sequência realizada décadas depois?

A questão de Blade Runner 2049: a problemática representação do filme original.

Esse é o grande problema de Blade Runner 2049. Mesmo que o argumento de revisitar e recriar a sensação de decadência moral e crítica ~exposicionista do filme original possa ser usado para defender, novamente, uma representação DÍSPAR do feminino e masculino, não há por que, narrativamente, não construir o filme com um pouco mais de independência para suas mulheres. Pegue, por exemplo, a SUPRACITADA Robin Wright. É dela uma das mais poderosas atuações do longa, emprestando sua presença austera e impositiva ao clima incômodo do longa.

Ainda assim, por algum motivo, o filme julga necessário nos entregar uma cena em que ela se insinua sexualmente para K – uma passagem que poderia ser interpretada como característica de uma mulher forte e independente, não servisse para confirmar a regra de que todas as mulheres nesse universo são, mais cedo ou mais tarde, sexualizadas.

É possível, também, que a personagem de Ana de Armas, o programa de computador estilo Ela chamado Joi, seja um avatar para uma crítica metalinguística dessa fetichização e instrumentalização feminina. Um produto feito pura e simplesmente para saciar a solidão e os desejos de homens solitários, contanto que possam pagar. Só que num dos poucos deslizes da direção de Villeneuve, fica difícil focar-se nesse tipo de discussão quando o corpo da atriz passa a ser tão explorado quanto é em tela.

Tudo isso para não entrar no mérito de uma das cenas mais incômodas que me lembro de ter assistido recentemente, claro que protagonizada por Jared Leto. Um exercício gratuito de misoginia que não justifica sua existência com qualquer leitura interpretativa metafórica possível. Triste.

Blade Runner 2049 é um dos melhores filmes deste século, assim como Blade Runner foi do século passado. Também como seu antecessor, não é perfeito, e é também essa parcela de imperfeição que faz dele uma peça tão fascinante, digna de repetidas discussões. Atestar que há um problema na sua representação de mulheres não é necessariamente negar tudo isso, mas constatar algo de relevância para uma crítica construtiva não só ao filme, quanto a nós mesmos. Se a saga pretende mostrar o que podemos nos tornar caso não mudemos nosso rumo, seria interessante que, sem perder a essência, ela mesma mostrasse sinais de fazer o mesmo.

“O que é interessante sobre o filme é que eu estarei viva no ano de 2020. Eu só espero que não esteja vivendo em um lugar daqueles quando eu chegar a esse ano, porque ele mostra mais uma deterioração da nossa sociedade do que seu fortalecimento”, disse Young, em outra entrevista, lá em 1982 mesmo.

Se, na época, ela soubesse da projeção para 2049...