A representatividade na TV avança, mas... | JUDAO.com.br

É, a diversidade na televisão norte-americana avançou, só que ainda está longe de representar PRA VALER a população dos EUA.

O site Deadline divulgou uma análise bem interessante realizada pelo TV Time, o maior aplicativo de rastreamento de TV do mundo, na qual mostram que, mesmo que a televisão nos EUA esteja mais aberta à representatividade, ela ainda não reflete as diferentes raças e grupos sociais do país.

Inegavelmente, existem avanços significativos na representação de negros, asiáticos, latinos, da comunidade LGBTQ+ e das mulheres nos últimos anos. Programas como Master of None, Atlanta, Insecure, Black-Ish e até mesmo a diversificada família de Modern Family são provas desses passos adiante.

Foram analisados 130 milhões de votos da comunidade de usuários do TV Time, cuja maioria tem entre 18 e 34 anos, para determinar os 100 personagens favoritos de 2015, 2016 e 2017 e é aí que a coisa desanda. Porque mesmo com os avanços que essas novas produções representam, a inclusão desses grupos ainda é BEM baixa.

Porque, lembremos, a sociedade norte-americana tem 50,8% de população feminina, 23,1% de não brancos e 4,8% de pessoas que se identificam como LGBTQ+. É gente PRA CARAMBA.

Apesar do “aumento” da diversidade na telinha, não houve uma grande mudança em relação aos personagens negros favoritos do público na televisão. Em 2015, esses personagens tinham apenas 15% da PREDILEÇÃO, subindo para 18% em 2016 e 20% em 2017. Mesmo com o aumento do número de atores escolhidos para novas séries, é uma taxa bastante baixa.

Segundo esse estudo, apenas 18 personagens negros estão no top 100 e nenhum deles sequer presente no top 10. Forçando um pouco a barra, apenas o ator Wentworth Miller, de Prison Break, que tem pai negro e mãe branca, está na lista dos dez personagens favoritos do público.

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Por outro lado, esse top 10 inclui dois atores abertamente gays, Jim Parsons, de The Big Bang Theory, e o próprio Miller, mas nenhum deles interpretam personagens LGTBQ em suas respectivas séries. Esse exemplo também vale para Neil Patrick Harris, que surge na posição 13, mas que interpretava um mulherengo em How I Met Your Mother.

Mas o TV Time registrou também um crescimento de 57% dos votos em personagens LGBTQ desde 2015. Segundo seus rankings, os personagens LGBTQ representam 11% dos 100 personagens favoritos de 2017. Matthew Daddario, de Caçadores de Sombras, é o primeiro personagem queer (reforçando aqui, a palavra usada para denominar pessoas que não seguem o modelo de heterossexualidade ou do binarismo do gênero) que surge na lista dos 100, seguido por Miguel Ángel Silvestre, de Sense8, Caity Lotz de Legends of Tomorrow, Taylor Schilling de Orange is The New Black, além de Jack Falahee e Viola Davis, de How To Get Away With Murder, que também interpretam personagens em narrativas queer.

A próxima pessoa não caucasiana da lista só surge na posição 28, bem distante das dez primeiras colocadas. A estrela de Quantico, a atriz indiana Priyanka Chopra, conseguiu uma boa posição em um ano em que personagens femininas sofreram um declínio.

Esse declínio foi BEM considerável nos últimos dois anos de pesquisa. De 2016 para 2017, houve uma queda de 11,2% nas personagens femininas escolhidas pelo público. E a queda é ainda maior se o foco for nos primeiros 25 colocados. Apenas seis dos favoritos em 2017 eram mulheres. Em 2015, 10 dos 25 eram femininos, e isso representa uma queda de 40% em relação ao primeiro ano da pesquisa. A primeira mulher da lista de 2017 a aparecer é a atriz canadense Marie Avgeropoulos, de The 100, que nem chega ao top 10.

Priyanka Chopra em Quantico

Um ponto que sempre precisa ser levado em consideração em qualquer estudo é o fator “alcance de pesquisa”, não apenas entre os usuários ativos do aplicativo, mas também do próprio público dessas séries, da identificação racial, social e cultural das audiências e do próprio alcance da cultura em diferentes grupos sociais dos EUA.

Diversas das chamadas “minorias” não são exploradas em grandes narrativas televisivas — os indígenas são um ótimo exemplo disso, portanto nem considerados diretamente nessa pesquisa. Existe uma óbvia barreira mesmo para quem analisa representatividade na televisão ao explorar grupos marginalizados.

E, obviamente, isso passa não apenas por quem assiste, mas também POR QUEM FAZ.

Pelo seu site, o jornal britânico Guardian publicou uma pesquisa da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), que levantou que nessa nova temporada televisiva de 2017-2018, 91% dos novos programas são feitos por brancos e 84% por homens. Apesar dos óbvios sucessos de bilheteria e audiência de conteúdos diversificados, os homens brancos ainda ocupam grande parte dos cargos criativos.

Dos 45 novos programas de televisão aprovados para 2017-2018 em diferentes plataformas de transmissão, havia somente quatro criadores não caucasianos, todos eles negros. E entre eles, apenas sete eram mulheres, em 16% dos novos programas, seguido das minorias com 9%. A perspectiva para essa temporada é muito pior que a anterior, que tinha melhorado bastante em ambas as categorias. As mulheres também assumiram apenas 28% do protagonismo dos novos shows, mas houve uma melhora na contratação de não caucasianos para os novos programas, também em 28%.

A indústria começou a sinalizar com mudanças, que devem ser celebradas, mas elas ainda estão vindo a passos de tartaruga e isso acaba refletindo desde o consumo do público até o desenvolvimento de personagens.

No fim das contas, perceba, VOCÊ também faz toda a diferença no futuro da cultura televisiva (e cinematográfica, literária, musical).