La La Land da vida real | Judão

Sem cor, sem música e com uma porrada bem forte na cara dos sonhadores.

Um dia, quando comecei a trabalhar com cultura pop, eu tive o sonho de ver de perto o letreiro de Hollywood. Sonho mesmo, desses que a gente bota na cabeça que um dia vai realizar e tenta fazer as coisas se encaixarem pra conseguir... e eu consegui. Não foi tão de perto assim, mas enfim fui pra Los Angeles, enfim cheguei perto daquele símbolo de tanta coisa que me divertiu durante tanto tempo.

Um símbolo que, ao mesmo tempo, enquanto eu ficava mais próximo daquela cidade e daquela montanha, começou demonstrar muito mais significados que, em sua maioria, não eram tão divertidos quanto os que eu, à distância, estava acostumado.

La La Land pra mim é a representação perfeita desse sonho. Bonito, colorido, divertido, uma ODE ao cinema, mas que carrega, em uma das suas várias camadas, muitas perdas, dores e decepções... e é um filme. Uma história que força um sorriso na sua cara e te faz seguir em frente, ainda que esteja completamente destruído por dentro, tal qual seus sonhos.

Essa cena de Eu, Tonya poderia dar o Oscar a Margot Robbie. Não vai. Mas poderia.

O Artista do Desastre chega aos cinemas num momento em que Hollywood olha muito pra si e pro resto do mundo, produzindo tantos filmes sobre sonhos quanto um dia produziu sobre desastres naturais. Tirando o elefante branco da sala, sim, a atuação, direção e roteiro de James Franco são de fato sensacionais e o filme é realmente muito bom.

Mas isso é o de menos.

O Artista do Desastre, baseado no livro de Greg Sestero, conta a história de Tommy Wiseau e a produção de The Room, considerado por muitos o pior filme já produzido na história — e quem pensa isso não tá errado, não. Absolutamente inassistível pelos mais diversos motivos, o FENÔMENO The Room já gerou um sem número de obras derivadas, de jogos a dissertações, passando por trabalhos acadêmicos e até músicas.

É perfeitamente compreensível a reação geral de quem consegue assistir a The Room de dizer que o filme é “tão ruim que fica bom” ou que “é muito engraçado”. O mesmo vale pra quem assiste a O Artista do Desastre e ri das reconstituições das cenas do filme original ou os absurdos que Tommy Wiseau inventava simplesmente porque tinha um dinheiro quase infinito que ninguém nunca soube de onde veio e umas ideias completamente lelés na cabeça.

Mas o principal ponto de O Artista do Desastre é mostrar que tudo isso foi motivado por sonhos — especialmente aquele, morto há tanto tempo, que muita gente chamou de Sonho Americano.

Em mais de uma oportunidade, Tommy Wiseau se derreteu em elogios sobre os EUA para os próprios americanos. Ele EMIGROU da Europa (isso, pelo menos, ele assumiu que fez) e se naturalizou americano pelo amor que sente pela “Terra da Liberdade” que conheceu, essencialmente, através de filmes.

Wiseau nunca foi um ator / diretor / roteirista fracassado. Sua intenção nunca foi se expressar através da arte. Esse cara, excêntrico o suficiente pra pagar um outdoor com a sua cara por cinco anos ao custo de US$5 Mil por mês, queria simplesmente fazer parte de algo que ele, muito provavelmente, cresceu vendo.

A diferença é que ele tinha dinheiro pra usar câmeras digitais e de película ao mesmo tempo, usar fundo verde em momentos absolutamente desnecessários... E por aí vai.

O Artista do Desastre é um La La Land da vida real. Cru, sem cor, sem música, com felicidade muitas vezes forçada e uma porrada bem dada no meio da cara. É um filme que explica quase que completamente todas as decisões ridículas que Wiseau teve com The Room e absolutamente nenhuma delas é engraçada.

A verdade é que The Room é o resultado de algo muito pesado e triste. Uma necessidade imensa de autoafirmação, além de um coração completamente destroçado por seja lá quem for a Lisa da vida real — e você sabe que ela existiu. Mas, mais do que isso, The Room é a PERSONIFICAÇÃO de um clássico sonho Hollywoodiano.

Assim como La La Land, The Room também é um filme. A diferença é que ele é, também, a vida real.

O Artista do Desastre não vai, em momento algum, melhorar ou piorar The Room. Mas vai mostrar, de maneira sensível mas sem se segurar em momento algum, todas as intenções de um cara que, como eu e muito provavelmente você, viveu boa parte da vida achando que Hollywood era a melhor coisa do mundo.

Infelizmente, porém, ele ainda acredita que seja.