Atômica: Charlize Theron e o filme são tudo isso mesmo | Judão

Trabalho do diretor David Leitch não chega a corrigir nenhum erro, mas se sobressai a todos os problemas de história do filme

Vamos tirar algumas coisas da nossa frente, logo de cara assim? Vamos: Atômica tem alguns sérios problemas em termos de história. Muito é culpa do gibi no qual o filme é baseado, e só não é pior porque o filme fez o que uma adaptação deve fazer, adicionando, deletando e alterando diversos elementos.

Mas pode ser, sim, que você eventualmente se perca um pouco com quem tá espiando quem. Pode ser que você comece a pensar que essas 1h55 do filme talvez estejam um pouco longas demais. Talvez, até, você fique sem aquela coisa de “será que vai dar tudo certo?” já que o filme começa pelo fim.

E é no meio disso tudo que o trabalho do diretor David Leitch se sobressai.

Porque mais do que tirar leite de pedra, sua estética neon, músicas que funcionam como um personagem, numa mistura muito interessante do que vimos em Baby Driver e Guardiões da Galáxia, AND cenas de ação e uma violência sensual pra caralho, que já conhecemos de John Wick e que podemos esperar, em algum grau, em Deadpool 2, fazem de Atômica uma das melhores coisas que você vai ver no cinema esse ano.

Atômica é um daqueles filmes que realmente empolgam quem assiste. GOSTOSO de ver, divertido, te faz bater palma quando vê a Charlize Theron dando na cara de quem quer que seja, te faz aplaudir DE PÉ quando a tal da cena da escadaria, “sem cortes”, sem música, acaba. É cruel e cru. E já está na história do cinema.

Você vai ver muita gente comentando, falando, estudando... Porque, de fato É MARAVILHOSA essa sequência.

E é aí que toda e qualquer dúvida sobre “versão feminina de John Wick” vai pro saco. Sim, eu sei, é uma comparação inevitável quando você vê os azuis / vermelhos e porradaria (que, aliás, mostram que David Leitch é que é o bom diretor da dupla do primeiro filme) no trailer, mas o filme passa absolutamente longe. disso.

Não é um universo fantástico, é o mundo real. Atômica é uma heroína REAL. Ela apanha. E apanha MUITO. Ela sente. Mas ela bate. E bate MUITO.

É uma pena, só, que as motivações não sejam assim tão claras ou realmente boas, especialmente depois que o filme acaba, deixando um pouco de “Oi?” dentro das nossas cabeças. Outra coisa que difere de John Wick, aliás, já que lá bastou um cachorrinho. ;)

Ao contrário do gibi, que é contado a partir do ponto de vista dos espiões, Atômica usa Berlin e os dias que antecedem a queda do muro — bem como o que e quem o derrubaram — pra contar a história da espiã que vai até a cidade pra tentar descobrir porque um outro agente britânico foi assassinado, onde caralhos tá a lista de todos os agentes duplos de todo o universo e ainda encontrar um agente duplo e, se possível for, matá-lo.

É uma história urbana, não de altos escalões políticos e diplomáticos. Os protestos, cada vez maiores na época, ajudam a contar a história do filme, bem como a trilha sonora, formada basicamente do chamado NEW WAVE dos anos 80, seja ele Made in USA ou Hergestellt in Deutschland (alô você que tem uma balada, favor fazer uma festa só com essas músicas. Conheço uma galera que iria... INCLUSIVE EU. Ficaí a dica!)

As músicas te fazem bater o pezinho durante o filme, cantar junto, e te colocam mais dentro da história. TANTO QUE, mesmo depois de um fim que poderia ter acontecido uns 10 ou 15 minutos antes, o que toca faz tudo valer a pena. O embrulho PERFEITO.

Charlize Theron, cara. Que mulher foda. Que puta atriz. E que puta de atriz de ação, né? Ela consegue ser BADASS e absolutamente vulnerável o fucking tempo todo, sem que um se sobressaia ao outro. Não sei se na época da guerra fria teve gente fazendo o que a sua personagem fez no filme. Mas Charlize Theron me faz acreditar que é perfeitamente possível... E tomara muito que tenham existido algumas Lorraine Broughtons.

James McAvoy nesse filme parece ter inventado mais uma personalidade para o seu Kevin Wendell Crumb de Fragmentado, mas é muito, mas MUITO melhor do que a sua contraparte nos quadrinhos, em diversos sentidos. Aí tem a Sofia Boutella, né? Ela é uma mistura enorme de tudo o que tem de errado no cinema e no filme, enquanto também é um dos maiores acertos. Ajuda em toda a sensualidade da produção, adiciona uma camada a mais na personagem da Charlize Theron, mas também não serve pra muita coisa além disso. Acaba sendo só mais um recurso de roteiro que, definitivamente, não precisava estar lá — ou, pelo menos, não do jeito que esteve.

Tem coisas que a gente não precisa ver. Tem coisas que não precisam ser mostradas pra gente entender o que aconteceu. ALÉM do chamado “Show, Don’t Tell”, claro.

The Coldest City, o gibi escrito por Antony Johnston e ilustrado por Sam Hart, é bem legal. É bonito pra caralho e, apesar de quase 180 páginas, é rápido de ler. Vale a pena, ainda que seja um pouco confuso.

Mas Atômica é um daqueles casos em que a adaptação fica MELHOR que o material original, pelos mais diversos motivos — e um deles, sim, é o que o David Leitch tem na cabeça e como ele enxergou a história. E não, não é um John Wick feminino. Tira isso da cabeça. Atômica é a Atômica. É a Charlize Theron sendo MARAVILHOSA. Precisa mais?

Vai logo pro cinema, bicho. E se tudo der certo a gente se vê nessa balada NEW WAVE ANOS 80. ;D