Kingsman: O Círculo Dourado é uma divertida e problemática loucura! | Judão

Embora não seja melhor que O Serviço Secreto, a nova aventura do jovem agente britânico Eggsy é maior, mais ousada e mais insana que a primeira, por bem AND por mal ;)

Como a primeira sequência de um filme dirigido por Matthew Vaughn a ser, de fato, dirigida por Matthew Vaughn, Kingsman: O Círculo Dourado já nasceu uma grande incógnita. Será que o longa seria capaz de recapturar a mágica do seu predecessor, de longe um dos mais surpreendentemente divertidos e fodásticos lançamentos de 2015? Ou será que, mesmo com as mãos do cineasta, teríamos algo com gosto de Kick-Ass 2, ou X-Men: Apocalipse (já que, convenhamos, Dias de Um Futuro Esquecido é tão de Vaughn quanto de Singer)?

A resposta, felizmente, tá muito mais próxima de servir à primeira pergunta. Por mais que não consiga bater a objetividade narrativa, nem repetir aquela sensação de FRESCOR do primeiro, Kingsman: O Círculo Dourado faz jus à franquia que SEDIMENTA, entregando uma aventura divertidíssima, que expande um universo fascinante, enquanto combina o melhor da ação desenfreada que tanto gostamos de Vaughn com muito humor. É uma pena que tenha alguns momentos bastante problemáticos, que ferem de leve outros, absolutamente geniais.

Abrindo ao som das primeiras notas do hino da música caipira norte-americana de John Denver, Take me Home, Country Roads, só para então dar lugar à música tema dos Kingsman, o filme nos leva a reencontrar a “Minha Bela Dama” dos espiões, Eggsy (Taron Egerton), já na ativa sob o codinome de Galahad. Sem tempo para respirar, agente e o público são arrastados para uma insana sequência de luta, travada no interior de um táxi, que logo se converte numa perseguição de dar inveja em qualquer abertura de 007 na história. Raios, nem Velozes e Furiosos já conseguiu, com tanta plasticidade e riqueza de detalhes, capturar uma disputa em alta velocidade como essa. Não à toa, tenho certeza que o filme conta com o drift mais longo da história do cinema. ;)

É um cartão de visitas que mostra a que veio o filme e confirma a intenção de Vaughn em fazer da sequência algo “maior, mais ousado e mais louco” que o original. Sem a necessidade de estabelecer pesonagens no seu primeiro ato, O Círculo Dourado precisa apenas nos atualizar em seus momentos de vida: Roxy (Sophie Cookson), a Lancelot da organização, segue como parceira e confidente de Eggsy; Merlin (Mark Strong) continua firme e forte como braço direito dos agentes; e o próprio Eggsy divide-se em três, com sua vida como Kingsman, seu relacionamento com a princesa sueca Tilde (aquela mesma, do final de Kingsman: Serviço Secreto, vivida por Hanna Alström) e sua vida anterior ao trabalho de espião, ao mesmo tempo em que ainda tenta reprimir a dor pela perda de seu mentor.

É com a apresentação de Poppy Adams (Julianne Moore), a grande vilã dessa nova aventura, que o filme começa a mostrar suas novidades. Cinicamente fofa e totalmente psicótica (tal qual uma Dolores Umbridge da vida) Poppy é detentora de um monopólio mundial de tráfico de drogas chamado de, veja só, Círculo Dourado. Vivendo isolada numa ilha que converteu numa espécie de cidadela cinquentista, saída dum Fallout ou Bioshock da vida, ela emprega capangas roboticamente alterados, obrigatoriamente submetidos a um doloroso processo de adptação física que descaracteriza sua arcada dentária e apaga suas digitais, para manter seu negócio seguro. Ao mesmo tempo, entretanto, se lamenta por não poder ser mundialmente conhecida como uma empreendedora de sucesso, já que sua área de trabalho é, bem, ILEGAL.

É daí que surge seu plano: forçar a humanidade a legalizar todos os tipos de drogas, fazendo dela uma legítima mulher de negócios e permitindo que merguhe em sua fama e sucesso de forma pública. Julianne Moore se diverte MUITO no papel, além de ter uma das melhores introduções de vilão já vistas, nas telonas, em filmes de espião. Ela é, de muitas formas, ANTAGÔNICA ao Richmond Valentine de Sam L. Jackson, do primeiro filme; se ele não podia sequer ver a sombra de sangue, ela não tem o menor medo de derramá-lo em larga escala – o que faz, sem pestanejar, hackeando, localizando e destruindo todas as locações dos Kingsman pelo mundo (e quem nelas estivesse).

Sozinhos e encarregados de, mais uma vez, tentarem salvar a humanidade, Eggsy e Merlin executam o chamado “Protocolo do Juízo Final”, que os leva até uma misteriosa organização descrita por Vaughn como “os primos norte-americanos dos Kingsman”, Statesman. Bilionários e donos de uma enorme destilaria no Kentucky, esses agentes são cowboys modernos batizados de acordo com bebidas populares: Champagne, ou Champ (Jeff Bridges) é o líder; Whisky (Pedro Pascal) é o agente número 1; Tequila (Channing Tatum), o rebelde do grupo; e Ginger Ale (Halle Berry), a técnica operacional e médica.

Trata-se do início do segundo ato do filme, que começa bem com uma sensacional cena de ação com Tatum, super à vontade no papel dum agente caipira tão fodão quanto marrento, mas logo descamba para uma quantidade excessiva de exposição. É bem bacana ver como as peculiridade dos Kingsman são americanizadas para servir à Statesman, claro, mas depois duma abertura tão frenética em tiros, porradas e risos, a quebra de ritmo é crítica. Pra piorar, Tequila é logo ESQUECIDO pelo filme (muito provavelmente pela falta de disponibilidade de Tatum para um papel maior) e somos relegados a acompanhar o consideravelmente menos carismático Whisky no que é o segmento mais problemático de todo o filme.

Após duras críticas por uma certa piada sexista no encerramento do primeiro filme, a ideia de ter Tilde num relacionamento sério e realmente importante com Eggsy me soou como uma boa resposta de Vaughn e companhia – além dum sinal de amadurecimento. Pois LEDO ENGANO. O sexismo do primeiro longa não chega nem perto do nível deste segundo, o que fica claro quando o jovem agente e Whisky precisam executar uma missão que consiste, basicamente, em seduzir e masturbar uma garota durante o festival de Coachella. É incômodo e constrangedor – e culmina numa cena absolutamente insensível que, além de injustificável, deve (ou ao menos DEVERIA) deixar MUITA gente pistola.

A impressão que fica é que, na tentativa de expandir tudo do primeiro filme, faltou uma avaliação crítica do que poderia ser não só diminuído, como extinto. A tentativa de fazer rir acaba saindo pela culatra nesse e em alguns outros momentos, mas o filme volta aos trilhos quando acerta a mão no quesito complementar: o drama. O retorno de Harry Hart, mostrado sem escrúpulos nos trailers dos filmes, é conduzido de forma bastante interessante, servindo mais uma vez ao crescimento de Eggsy enquanto CAVALHEIRO (aka um homem honrado, para bom Kingsman), e o terceiro ato retoma toda a ação explosiva do primeiro enquanto ainda entrega uma das mais belas cenas do ano, cheia de coração e mais uma vez ao som de Take me Home, Country Roads. É de encher os olhos. De lágrimas.

Falando de PERFORMANCES, o filme acerta na maioria. Desde a primeira cena do filme, Taron Egerton mostra que é um dos nomes mais promissores de sua geração. Colin Firth retorna, como sempre, com sua classe e atitude, mas assumindo um papel mais secundário – esperado, claro, mas não que fosse feito de forma tão cômica, o que pode fazer algumas pessoas torcerem o nariz.

Do lado dos Statesman, Jeff Bridges é ele mesmo e, BY DEFAULT, sensacional, enquanto Halle Berry injeta doçura em seus poucos momentos de tela. Tatum promete, mas não cumpre, já que é simplesmente ESCANTEADO pelo filme (caímos no conto do marketing, amigos) e Pedro Pascal, que tem lá um bom destaque como Whisky, não consegue cativar como um Beto Carrero macho man e sanguinário. Pena.

Se Julianne Moore manda muito bem no que é encarregada de fazer, é de outros dois e muito inesperados atores que vêm os maiores destaques do filme: o primeiro, que nem é exatamente do ramo, é Sir Elton John, que além de emprestar seus hits à trilha sonora do filme, ainda protagoniza muito mais cenas do que um típico CAMEO costuma propor (incluindo uma impagável sequência de luta). Já o segundo, aqui sim um grande nome da sétima arte britânica, é Mark Strong. Novamente na pele de Merlin, ele assume aqui, por boa parte do filme, o destaque que teve Firth em O Serviço Secreto — e emprega todo o carisma que mostrou em RocknRolla, Lanterna Verde e até no sofrível Irmão de Espião, para aprofundar o personagem.

Também não machuca o fato do cara ser um PUTA ator, capaz de ir do humor ao drama e do drama à ação num piscar de olhos. Foda.

E se a já famosíssima “cena da igreja” de Serviço Secreto reside em seu coração cinéfilo, saiba que Vaughn não poupa esforços para tentar recapturar a mágica daquele momento, enchendo o filme de porradaria, filmada da forma mais fluida e criativa possível. Ele pode não conseguir, porque aquela primeira vez, bicho, QUE LOUCURA. Mas estar na plateia durante uma cena de ação do cara é como estar numa daquelas montanhas-russas virtuais insanas que você tanto curtia nas Playlands da vida, só que com a boa e velha ultraviolência e uma playlist DO CARALHO: simplesmente impossível de não te deixar com um sorrisão na cara. E, na falta de uma, o filme tem ao menos umas TRÊS dessas. :D

Falando em música, Kingsman: O Círculo Dourado não só mergulha em John Denvers e Elton Johns da vida, como mais uma vez lança mão duma trilha original de fazer arrepiar os cabelos da nuca de qualquer fã de, olha aí de novo, 007. Destaque para a pegada country rock que toma conta do som quando os Statesman chutam bundas – uma DELÍCIA.

No que é um dos melhores momentos de Kingsman: O Serviço Secreto, Harry Hart e Richmond Valentine discutem sua saudade dos velhos filmes de espião, com suas tramas absurdas, cheias de ação racionalmente duvidosa e traquitanas malucas e sem medo de breguice. É uma clara alusão à proposta de Vaughn ao adaptar o universo de Kingsman dos quadrinhos de Mark Millar: parodiar e, ao mesmo tempo, revisitar esses tempos de outrora, injetando muita irreverência e toques modernos a esses TROPOS tão conhecidos.

Pois então, Kingsman: O Círculo Dourado honra essa proposta, ao mesmo tempo em que escolhe encarar com GRANDIOSIDADE a ingrata tarefa de enfrentar o hype criado após o sucesso do primeiro filme. Não é a toa que Vaughn decidiu encher de agentes americanos o filme em que decidiu seguir o ditado “go big or go home”, tão típico na Terra do Tio Sam. É uma pena que ele tenha valido até para os problemas do primeiro filme? É. Pra cacete. Mas ainda assim, sobra muita coisa boa a ser curtida, ali.

O jeito é torcer por um terceiro encontro com Eggsy, Harry e companhia no qual Vaughn encontre um equilíbrio melhor entre o que precisa ser, de fato, aumentado, e o que precisa ser diminuído.