Se O Predador pelo menos tivesse sido lançado nos anos 80, sabe... | JUDAO.com.br

Shane Black faz mudanças radicais na franquia de um dos maiores vilões da cultura pop. Mas alguém realmente pediu por isso?

Os roteiristas da franquia Predador nunca realmente se preocuparam em entregar muitas informações sobre esses seres alienígenas ao longo de mais de vinte anos de história. Após cinco filmes, a única informação relevante e constante sobre essa implacável espécie é sua sede pela caçada aos humanos. Ou qualquer outro ser da galáxia.

Responsável pela direção e pelo roteiro – que foi co-escrito com Fred Dekker -, Shane Black decidiu que estava na hora de criar novos fatos sobre os icônicos vilões, elaborando uma espécie de mitologia sobre eles. Acontece que O Predador se preocupa muito em criar uma sequência para a franquia e esquece de elaborar a história DESSE filme.

Estrelado por Boyd Holbrook, o filme acompanha Quinn McKenna, um atirador de elite que acaba encontrando involuntariamente um objeto voador não identificado durante uma missão. Um confronto contra ele e sua equipe se segue, restando apenas McKenna, que foge com pedaços da tecnológica armadura do inimigo. Conhecendo seu próprio governo, o atirador envia essas peças para si mesmo pelo correio, apenas como uma forma de ter provas caso algo dê errado.

É óbvio que algo dá errado.

Enquanto McKenna é enviado para participar de um grupo de terapia para veteranos de guerra que lidam com transtorno pós-traumático como uma forma de abafar o caso, a bióloga evolutiva Casey Brackett (Olivia Muun) é convidada para analisar um Predador vivo, capturado após a luta contra McKenna. Todos acabam se encontrando no mesmo prédio secreto do governo, de onde o Predador foge e vai em busca do seu equipamento perdido.

Como se não fosse drama suficiente, as peças enviadas por McKenna são abertas por Rory, seu único filho que convenientemente é uma criança superdotada e logo consegue descobrir mistérios da armadura. A partir daí, O Predador se torna uma corrida desenfreada para encontrar Rory e as peças desaparecidas, enquanto os personagens – e o público – descobrem novas informações sobre os predadores.

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Conforme conhecemos mais sobre os Predadores e o motivo para sempre retornarem à Terra mesmo depois de várias derrotas, vemos que Black não está interessado em abordar as histórias dos outros filmes da franquia. Do começo ao fim, fica claro que seu foco é aumentar a série acrescentando novos fatos à mitologia dos predadores. O problema é que é difícil realmente se importar com qualquer uma delas. Tornar um vilão maior apenas para causar mais estrago não acrescenta nada narrativamente se o roteirista não se aprofundar em um motivo convincente para essa mudança.

A falta de profundidade é um problema recorrente nessa produção, porque o filme aborda questões complicadas como transtorno mental apenas na superfície. O que deveria ser a base para o filme, se tornou o alívio cômico de uma história que já se esforça para ser engraçada. Pensamentos suicidas, Síndrome de Tourette e Transtorno de Estresse Pós-Traumático foram abordados de uma forma tão despretensiosa que é quase perturbador. E para piorar o que já está ruim, o filme ainda sugere que todos os personagens podem superar seus problemas de saúde mental simplesmente matando alienígenas. Com um elenco talentoso como Keegan-Michael Key, Thomas Jane, Trevante Rhodes e Alfie Allen, o filme deveria ter feito MUITO mais em relação à essas questões.

Tornar um vilão maior apenas para causar mais estrago não acrescenta nada narrativamente se o roteirista não se aprofundar em um motivo convincente para essa mudança

O mesmo vale pra Rory, que tem Síndrome de Asperger e é tratado como apenas uma criança com QI alto. POR ACASO, Rory consegue enxergar informações que ninguém mais pode, como decifrar a tecnologia extraterrestre e decodificar idiomas alienígenas. Durante todo o filme, o transtorno de Rory é utilizado em momentos oportunos da trama, descartando completamente as complicadas condições psicológicas reais da síndrome, como dificuldades significativas na comunicação não-verbal e na interação social.

E, claro, ainda precisamos falar sobre a forma como o filme lida com as mulheres em geral, não apenas suas personagens. O Predador sofre de uma misoginia latente, porque o humor do “grupo desajustado” sempre envolve mulheres, mesmo que seja a mãe de algum personagem. Olivia Munn é provavelmente a personagem que mais apanha nesse filme e tem uma sequência de nu desnecessária – mesmo não mostrando absolutamente nada do seu corpo -, além de estar em uma cena completamente de mal gosto envolvendo a Síndrome de Tourette de um dos personagens e uma piada sexual. Fora Yvonne Strahovski, a mãe de Rory que, em sua fala mais longa, precisa fazer um discurso sobre todas as qualidades do ex-marido, que ela claramente odeia.

Todos esses pontos englobam o maior erro de O Predador: o tom escolhido por Black, que não soube dosar o humor do seu roteiro e da sua direção. Inegavelmente, O Predador é um filme esporadicamente engraçado e o humor está presente mesmo nos momentos mais sérios do filme, mas o roteiro está recheado da típica tóxica camaradagem masculina. Ah, e o filme ainda reserva uma piada sobre “maricas”.

Se o roteiro é problemático, O Predador deveria entregar sequências de ação que TENTASSEM compensar todos esses problemas, mas isso não acontece. Black realmente oferece um filme cheio de ação, mas as edições são problemáticas porque não fluem naturalmente, tornando o que seria o ponto forte do filme uma fraqueza.

O Predador é o típico filme de ação produzido por pura testosterona e, enquanto ele poderia ter sido um sucesso se fosse lançado ainda nos anos 80, soa completamente equivocado e desprovido de inteligência ou impacto real.