A revolução em Wakanda não será televisionada | Judão

Misture um icônico poema de sabor político e um hip-hop com uma poderosa batida eletrônica e você tem a trilha ideal para embalar o novo trailer do Pantera Negra

Nos últimos anos, os grandes estúdios tem apostado um bocado nesta coisa de colocar canções populares nos seus trailers pra dar um clima – e, apesar do exagero de uma galera que insiste em usar Sweet Dreams (NÃO FAÇAM MAIS ISSO, PFV), até que tem gente fazendo o trabalho bem direitinho.

Immigrant Song, do Led Zeppelin, por exemplo, não só cria a ambientação ideal pra deixar a gente babando por Thor: Ragnarok como, ora ora, ainda é utilizada MESMO ao longo do filme, de uma maneira que faz bastante sentido e acrescenta de verdade para a trama. Ficamos aqui na torcida, portanto, para que o combo poema + canção que embala este novo trailer do Pantera Negra, absolutamente apropriado para o personagem e também para toda a sua ambientação, seja aproveitado de alguma forma no longa.

Porque tem um significado bastante poderoso (e necessário) nos dias de hoje.

A mistura começa com o icônico The Revolution Will Not Be Televised, poema de Gil Scott-Heron, músico de jazz/soul e poeta norte-americano. Originalmente, o texto – que é um chamado para que as pessoas, em especial os negros, saiam às ruas para lutar por seus direitos – foi recitado em seu disco de estreia Small Talk at 125th and Lenox (1970), numa faixa em que ele estava acompanhado apenas de umas batidas de congas e bongôs. No ano seguinte, a letra foi regravada e de fato transformada em música, com uma banda completa, saindo como lado B do single Home Is Where the Hatred Is, faixa do disco Pieces of a Man.

Batizando a si mesmo de “bluesologista”, um legítimo interessado na história e nas origens do blues, Heron é considerado pelos estudiosos como um dos primeiros MCs da história, porque seu jeito “falado” de cantar é uma espécie de antecessor direto do tipo de rima que fariam anos mais tarde os vocalistas de rap. E, assim como boa parte da galera do hip-hop, o sujeito era bastante engajado e recheava seu trabalho de temas sociais e políticos. Portanto, ele também tinha ligação ideológica direta com os grupos americanos que lutavam pelos direitos dos negros, incluindo os Panteras Negras.

Depois de sua primeira aparição nos quadrinhos, em Julho de 1966 como coadjuvante do Quarteto Fantástico nas edições 52 e 53 da família de super-heróis, e de lutar ao lado do Capitão América (Tales of Suspense #97–99, Março de 1968), o Pantera provou que era um sucesso entre os leitores e acabou se juntando aos Vingadores naquele mesmo ano. No começo dos anos 70, quando ele voltou a aparecer nos gibis do Quarteto, a Marvel tentou começar a chamá-lo de Black Leopard – justamente para evitar comparações políticas com os Panteras Negras da vida real, que, como organização, só passou a existir em Outubro de 1966, portanto depois do surgimento do personagem.

“A única política que T’challa segue a sua própria”, disse o próprio personagem, em um ataque de total e completo paunocuzismo da Marvel. Se aqueles engravatados que tomaram esta decisão na Casa das Ideias pudessem imaginar o tipo de história que Ta-Nehisi Coates estaria escrevendo anos depois...

Mas Wakanda é uma união intensa de tradição ancestral e tecnologia futurista. Assim sendo, pra criar este clima, Gil Scott-Heron representa a força do passado. Então, faltava o olhar para o futuro — que ficou a cargo da união com a faixa BagBak, do recém-lançado álbum Big Fish Theory, cortesia do rapper Vince Staples. Neste seu segundo disco, o músico fez questão de acrescentar uma camada mais eletrônica ao seu som, agora repleto de batidas que fazem referência ao techno dançante da cena de Detroit. É festeiro, quase industrial.

Natural de North Long Beach, na Califórnia, o menino Vincent começou a chamar atenção como integrante do trio de hip-hop Cutthroat Boyz, junto com os parças Aston Matthews e Joey Fatts. Ele também se tornou próximo dos caras do coletivo de rap Odd Future, liderado por Tyler, The Creator e que inclui nomes como Earl Sweatshirt, Mike G e Frank Ocean.

Justamente por isso, seu álbum inicial, Summertime ’06 (2015), tem uma sonoridade mais tradicional — ainda que o resultado seja ótimo, este é um Staples quase gangsta. Mas seu mundo mudou, suas referências também, ele acabou fazendo parcerias absolutamente inusitadas e fora de sua zona de conforto como com os Gorillaz, com quem gravou Ascension, do recente disco Humanz. “Se um fotógrafo tira a mesma foto sempre e sempre, você vai dizer que ele é maluco, certo?”, tenta contextualizar ele, em entrevista pra LA Weekly. “Se um arquiteto faz as casas sempre iguais, se o designer faz as mesmas roupas, se o pintor sempre pinta tudo igual. Todos eles seriam desacreditados, né? Por isso é que me recuso a ficar revisitando sempre sons antigos”.

BagBak, a canção, também tem sua mensagem de protesto — tanto quanto The Revolution Will Not Be Televised, e é aí que elas se encontram e se cruzam. “Prison system broken / Racial war commotion / Until the president get that / Shit, Vincent won’t be votin’”, canta ele, enquanto fala sobre racismo e violência policial, entre outros temas.

É o tipo de coisa sobre a qual é SEMPRE importante falar. E é o tipo de coisa sobre a qual seria importante o Pantera Negra falar. Nos quadrinhos e igualmente no cinema.