ROMA e o cinema de Alfonso Cuarón pelos olhos de Guillermo Del Toro | JUDAO.com.br

Diretor publicou “dez observações pessoais” sobre o filme do seu amigo no Twitter, mostrando todo o poder que o cinema tem sobre as pessoas

A gente pode assistir a um filme. A gente pode pensar o que quiser sobre o filme, sentir o que quiser sobre um filme. Mas de repente a gente para pra ouvir o que uma outra pessoa pensou e sentiu sobre um filme e, bem... Nossos pensamentos e visões podem não mudar, mas a simples possibilidade de enxergar a obra à partir de um outro ponto de vista nos abre bastante a GAMA do que sentir, do que pensar.

ROMA, por exemplo, é um filme extremamente pessoal escrito, dirigido, editado e fotografado por Alfonso Cuarón. Como tal, ele não ressoa da mesma maneira com todas as pessoas e, na maioria dos casos, é necessário um nível de identificação um pouco maior com a história (ou com quem a está contando) pra absorver TUDO, ou a maior parte, do que é mostrado na tela.

Enquanto pra mim o filme é bastante distante e, pra Julia, que escreveu sobre ele aqui, trata-se de uma porrada que a atingiu bem forte, pra Guillermo Del Toro o filme é, além de tudo, a história que um amigo seu está contando — e que, por ter vivido no mesmo país, na mesma época, ele conhece melhor que tanta gente.

No seu twitter, Del Toro ofereceu “10 observações pessoais sobre ROMA”, que eu resolvi traduzir aqui pra vocês que por acaso pensarem que ROMA é só mais um filme. :)

Pra mim, o plano inicial sugere que a Terra (o piso infestado de merda) e o céu estarão sempre distantes, mas a água os revela e une brevemente, como um espelho. Em ROMA as verdades são reveladas pela água.Estes planos de existência, como a separação de classes na casa, não podem ser facilmente abordados. Os momentos em que a família mais se aproximam são passageiros. “Cleo nos salvou” e, quase que de imediato, “prepara uma vitamina de banana pra mim”?Na minha opinião o silêncio da Cleo é usado como ferramenta dramática para o arco da sua história e nos revela sua dor mais íntima — revelado pela água. “Não queria ter nascido”. Cleo se cala e sufoca sua emoção e culmina nessa explosão

Um momento chave, orquestrado com enorme precisão por Cuarón, foi a decisão de fazer com que sua bolsa estourasse junto do Massacre de Corpus Christi e que Fermín invadisse a loja e apontasse uma arma pra ela usando uma camiseta do “Amar é...”. O bebê nasce morto. ROMA é, em todos os sentidos, uma pintura mural, um enorme afresco, não um retrato. Não só pela maneira que foi filmado, mas pela maneira que ~rola horizontalmente. Toda informação audiovisual (contexto, agitação social, facções e políticas / morais da época) estão na tela.Me parece que o fato de Cuarón e Eugenio Caballero terem CONSTRUÍDO diversos quarteirões da Cidade do México num estúdio (calçadas, postes de luz, lojas, ruas, etc) não é muito conhecido. É um feito gigantesco.As diferenças de classe são representadas no filme não só entre a Cleo e a Família, mas entre a Família e os parentes “gringos”, donos de terras, e também entre Fermín e Cleo. Isso fica patente quando ele a ofende no campo de futebol.

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Grande parte da narrativa de ROMA é feita através da imagem e do som. No cinema, a trilha sonora é dinâmica, envolvente e sutil, mas muito precisa.Cuarón parece sugerir que tudo é cíclico: por isso, talvez, Pepe se lembra de outras vidas em que pertenceu a classes e profissões diferentes. Tudo vem e vai: solidariedade, amor, a vida... e só as vezes podemos nos abraçar perto do mar.A imagem final rima perfeitamente com a inicial. Mais uma vez, Terra e Céu. Só Cleo pode transitar entre eles, com a mesma essência que a permitiu realizar a prova de Zovek. Começamos o filme olhando pra baixo e terminamos olhando pra cima, mas o céu, o avião, estão sempre longe.

Del Toro ainda continuou um pouco o assunto, lembrando a todos que no cinema de Cuarón, o oceano costuma ser usado de maneira metafórica, como em E sua Mãe Também, Filhos da Esperança e, ainda que não seja o Mar, tem água importando bastante em Gravidade.

Sobre Gravidade, aliás, Del Toro afirmou que o estúdio estava pressionando Cuaron pra mostrar helicópteros no céu, no fim, pra resgatar a personagem da Sandra Bullock, o que ele negou. “Sair da água era o triunfo, encostar na terra, se levantar... O estúdio então perguntou sobre ouvir os helicópteros. Alfonso, mais uma vez, disse ‘não’. O estúdio sugeriu adicionar um rádio, dando a ela coordenadas, prometendo ajuda. Alfonso disse ‘não’. Mais um final feito ar, terra e água”.

É o que dá quando você permite que o cinema seja cinema... :)