Do enxofre às garrafas de rum, sempre heavy metal | Judão

Running Wild, banda alemã comandada por Rolf Kasparek originou um subgênero chamado Pirate Metal, uma espécie de evolução do power metal só que com temas ligados à história dos corsários

“Fly our flag, we teach them fear / Capture them, the end is near / Firing guns they shall burn / Surrender or fight there’s no return / Under Jolly Roger”. Há quem diga que o power metal e/ou speed metal e/ou metal melódico (como queira chamar você ou o seu especialista em música favorito) é um estilo de música que deveria pagar royalties aos criadores de Dungeons and Dragons e à família de Tolkien pelas constantes referências aos universos de fantasia com suas batalhas pela honra entre cavaleiros, bárbaros, anões, elfos, dragões e demais criaturas mitológicas. O Blind Guardian e o Rhapsody (of Fire ou não), entre outros, que o digam.

Mas justamente da Alemanha, o principal berço do estilo, surgiu no final da década de 70 um grupo cuja inspiração vinha não da Terra-Média ou dos mundos de Dragonlance, mas sim do mar. Mais especificamente, do universo dos piratas. Running Wild é o nome da banda.

Mas se quiser chamar de “banda do Rolf Kasparek”, simplesmente, tudo bem. Ele é daqueles artistas que acabaram transformando suas respectivas bandas em projetos solo ao redor de si mesmos, como David Coverdale (Whitesnake), Ronnie James Dio (Dio), Trent Reznor (Nine Inch Nails), Christopher Johnsson (Therion) e até os brasileiros Humberto Gessinger e o finado Chorão. Quase 20 músicos diferentes já passaram pelo grupo, incluindo os bateristas Stefan Schwarzmann (Helloween, U.D.O. e Accept) e Jörg Michael (Stratovarus, Saxon). Parece que é complicado mesmo trabalhar ao lado de Rolf. ;)

“Dinheiro. Este é o problema”, afirma Rolf, na lata, em entrevista ao Whiplash. “Sempre quis que os músicos fossem parte completa da banda, com todos os direitos e responsabilidades. Se dependesse de mim jamais teríamos trocado de formação. Mas cada músico teve seu motivo para sair, e não pude fazer nada. Quando chamava algum músico para juntar-se ao Running Wild, queria 110% de dedicação, mas muitos não me entendiam. Depois de trocar várias vezes de formação, decidi que seria o patrão, e que a banda seria meu projeto e pronto. Agora é assim”.

Rolf Kasparek e o Running Wild no Wacken Open Air 2015

O Running Wild nasceu em 1976, na cidade alemã de Hamburgo, ainda como uma banda formada por colegas de escola cujo nome era Granite Heart, inspirada por sons mais hard como Kiss e Thin Lizzy. Um ano depois, o quarteto ganharia o seu nome definitivo, inspirado em uma música do Judas Priest (que estava guardado para ser, na real, o nome do disco de estreia) e, em 1983, lançou sua primeiríssima fita demo.

No ano seguinte, as canções Iron Heads e Bones to Ashes foram escolhidas para fazer parte da compilação batizada de Death Metal e lançada pela gravadora local Noise, com outras bandas como Helloween, Celtic Frost e Dark Avenger. O mesmo selo seria o responsável, também em 84, pelo lançamento do disco de estreia do Running Wild, Gates to Purgatory, que chegou a vender 20.000 unidades nos primeiros três meses. Sucesso absoluto.

Com o lançamento de seu segundo álbum, Branded and Exiled (1985), o Running Wild se tornou uma das bandas mais famosas do país, com popularidade comparável inclusive ao Accept e, pasmem, aos hard rockers do Scorpions. Mais de 250.000 cópias comercializadas eram a prova inconteste do sucesso. Em 86 viria a grande notícia: o Running Wild seria a banda de abertura dos norte-americanos do Mötley Crüe em sua turnê Theatre of Pain pela Europa. Estava devidamente lançada a carreira internacional do grupo de Rolf Kasparek.

Naquela época, porém, o tema favorito deles ia numa pegada mais satânica, com letras sobre fogo, enxofre e demônios. “Éramos jovens revoltados e esta era a maneira que usávamos para chocar as pessoas”, explicou Rolf, anos mais tarde, deixando claro que nada tinha a ver com religião. “Falávamos muito sobre o demônio, mas com um conceito político, mais crítico”.

O músico começou a ficar meio puto que as entrelinhas não eram lá muito compreendidas por quem ouvia suas músicas e foi aí que os piratas finalmente invadiriam a vida destes alemães para sempre, com o clássico absoluto Under Jolly Rogers. “Na real, foi meio que uma coincidência. Não planejei esta mudança”, explicou ele, em entrevista para o próprio site oficial da banda. “Eu estava procurando por um título para uma música e pensei em ‘Under Jolly Roger’. Achei bom. Aí, resolvi ampliar o escopo e mudei a capa do álbum e fiz nossos figurinos segundo este tema. Deu tão certo que se tornou nossa marca registrada”.

A partir de então, o tema da pirataria jamais sairia de cartaz nas letras do grupo e também em suas apresentações, nas quais Rolf e a trupe assumem uma postura quase teatral, vestindo as roupas de piratas e entrando definitivamente no clima, com uma superprodução de palco invejada até hoje e com direito a toda sorte de pirotecnias e afins. “Sempre gostei das histórias envolvendo pirataria, e comecei a escrever sobre isso. Mas não eram apenas histórias fantasiosas. Eu queria conhecer como funcionava a logística dos piratas, sua organização, o que era mesmo ser um pirata, ter um navio, executar as pilhagens”, conta o frontman. “Sempre fui interessado na parte histórica do assunto, porque acho que muitos elementos do passado tiveram forte influência no presente em que vivemos. Algumas pessoas exageraram na interpretação das letras, mas sempre fui um fã de história”.

Rolf faz questão de destacar que tem interesse nos piratas de verdade, e não nas versões hollywoodianas. “Muitos deles só queria ser livres da sociedade vigente naquela época. É mais sobre isso, sobre liberdade, do que sobre ser um criminoso. É mais sobre poder ser livre para viver de acordo com suas próprias regras”.

A bem-sucedida turnê de Under Jolly Rogers daria ao Running Wild o título de “pirate metal band” e também um lendário show em Budapeste, na Hungria, que mais tarde geraria o disco ao vivo Ready for Boarding. Em 88, veio o igualmente cultuado Port Royal, cujas letras já refletiam maior maturidade de Rolf na pesquisa sobre o assunto, expandindo os temas tratados com um tantinho de superficialidade no disco anterior. Aqui, nascia oficialmente um subgênero, influenciando nomes como a americana Swashbuckle, a escocesa Alestorm, a italiana Silverbones, a sueca Blazon Stone e até uma legítima representante brasileira do estilo, a Piratas do Recife.

Vieram os anos 90, o heavy metal saiu de cena, foi novamente relegado ao underground graças ao interesse crescente da grande imprensa por movimentos como o grunge... mas a discografia do Running Wild nunca parou.

Quer dizer, QUASE nunca. Em 2009, Rolf anunciou que o Running Wild encerraria atividades com uma bombástica apresentação no Wacken Open Air — a mesma que geraria, inclusive, o lindo DVD ao vivo The Final Jolly Roger, lançado em 2011. Só que aí, em 2012, depois de se reunir com o antigo colega de banda Peter Jordan para o projeto Giant-X, bateu um estalo. Bateu a saudade. Sairiam então Shadowmaker (2012) e Resilient (2013), até que enfim eles retornassem às turnês. Seu mais recente lançamento de inéditas é Rapid Foray, de 2016, com uma sonoridade bem old school.

E eis que então a bandeira continua firme e forte, içada bem ali, no mastro principal. E o Brasil fica no aguardo para se tornar o próximo porto de parada para as turnês dos caras, ainda inéditas por aqui. “Não tenho problemas em tocar no Brasil ou em qualquer outro país. Mas devemos levar em consideração que o custo é alto sim, porque não quero ir sem levar meu show completo, com a mesma produção que fazemos na Europa”, explica ele. “Outro fato que complica tudo é que a banda sou apenas EU, e teria que contratar músicos, que cobrariam caro para deixar suas ocupações normais e virem para fazer três ou quatro shows na América do Sul. Não toco por dinheiro, se ele vier é bom, mas isso não guia minha vida. Só que não podemos pagar para tocar, isso é ilógico”.

Alguma produtora, por favor, dispare logo os canhõe