Santa Clarita Diet mira no estômago, mas também acerta o coração | Judão

Por baixo do humor questionável, das tripas e dos membros decepados, sitcom familiar de Zumbis acerta ao não abrir mão duma pegada mais humana (e bastante viva)

Se Desventuras em Série é uma excelente forma de introduzir a criançada a um tipo de humor mais sombrio, agridoce e desprendido de certos valores e convenções morais, Santa Clarita Diet é a evolução perfeita pra essa mesma galera, num momento já mais próximo ou após a maioridade. A nova série do Netflix adiciona uma pitada de CRIME STORY a uma comédia familiar de subúrbio, tudo enquanto subverte os clichês dos chamados “filmes de zumbi”, pra criar uma narrativa boa pra quem tem estômago forte, senso de humor bastante questionável e facilidade de abstração do ridículo – mas ainda assim, valoriza um bom investimento emocional. :D

A história se passa na ensolarada cidade californiana de Santa Clarita, e tem início quando a corretora de imóveis Sheila (Drew Barrymore), durante visita de potenciais compradores a uma casa à venda, passa muito mal e vomita o equivalente ao que se espera de um ano de bebedeiras na vida de Charlie Sheen AND uma pequena bola vermelha parecida com um órgão. Acudida por seu marido e colega de trampo, Joel (Timothy Olyphant), ela logo se sente bem, mas não demora a perceber que alguma coisa tá meio errada: sem batimentos cardíacos, capacidade de sentir dor, e com um tipo viscoso e preto de líquido no lugar do seu sangue, ela é agora um ser morto que caminha entre os vivos. Mas não diga “zumbi”; é um termo ofensivo.

Inicialmente assustados com as mudanças físicas de Sheila, Joel e a filha do casal, Abby (Liv Hewson), logo dão de ombros a tudo isso muito mais rapidamente que o mais negligente dos seres humanos ao se encantarem com as alterações comportamentais de Sheila e suas vantagens: pra ele, um repentino apetite sexual incontrolável numa esposa outrora mais recatada e do lar™; pra ela, uma postura muito mais moderna, inconsequente e maleável duma mãe outrora muito mais exigente.

Uma comédia familiar de subúrbio que subverte os clichês dos “filmes de zumbi”, criando uma narrativa pra quem tem estômago forte, senso de humor bastante questionável e facilidade de abstração do ridículo – mas ainda assim, valoriza um bom investimento emocional

A festa começa a acabar quando os dois se dão conta que, além de seguir duma forma um pouco intensa demais as suas vontades mais primitivas, a matriarca parece capaz de alimentar-se, agora, única e exclusivamente de carne vermelha crua, direto da badejinha do Wal-Mart ou OUTREM. Consultando a orientação do especialista mais próximo — o vizinho Eric (Skyler Gisondo), adolescente nerd e onanista — eles enfim se ligam no estado zumbificado de Sheila, sua predisposição a ser governada pelo ID (do cérebro, não do PC) e sua provável evolução para uma fera comedora de carne humana.

SÓ QUE, como tá tudo aparentemente controlado, eles resolvem tocar o barco como uma família normal porque, afinal, vai dar nada errado não, né? Heh. :D

Partindo dessa premissa, naquela já quase-regra das séries do Netflix, Santa Clarita Diet demora para engrenar. Num tom meio surrealista próprio dessas sátiras do subúrbio norte-americano — uma mescla de O Gato com Stepford Wives PLUS tripas — ela pode, num primeiro momento, exigir um tantinho da sua boa vontade, seja por conta das reações blasés e dos curtos tempos que os personagens parecem levar para aceitar os mais surreais acontecimentos, seja pelas piadas que, de início, erram bastante o alvo. Só que é só o primeiro infeliz ir parar na barriga daquela que um dia foi A GAROTINHA DE ET, que tudo começa a melhorar pra quem está do lado e cá da tela.

Com Sheila agora incapaz de comer carne animal (que não seja do BICHO HOMEM :D), a única saída possível que Joel encontra para manter sua família unida é auxiliar sua esposa em bem pensados e calculados (ao menos na intenção) assassinatos ~alimentícios. Só que, como se cometer homicídios sem deixar rastros não fosse difícil o bastante, temos aqui uma família planejando uma série deles enquanto vive ao lado dum XERIFE e dum POLICIAL ESTADUAL. Desnecessário dizer que, ao mesmo tempo em que o casal faz diversos malabarismos para manter sua família unida, faz o mesmo nível de esforço para resolver pepinos bizarramente sangrentos em que se metem como serial killers de primeira viagem.

É nessa veia de comédia situacional que, aos poucos, a série vai ganhando corpo. Os personagens vão mostrando outras facetas, tendo reações mais variadas, críveis e HUMANAS, e você se pega investido não só em seu humor peculiar (se essa pegada mais sombria for sua praia, claro), mas no drama que norteia o desenvolvimento dos personagens: a dúvida se a mãe morta, independente de ainda estar viva, representa a morte daquela mãe que, um dia, marido e filha conheceram. Viva-viva.

A série cria ainda uma mitologia própria, partindo duma abordagem mais modernosa para as criações de George A. Romero – algo mais na veia de iZombie do que Madrugada dos Mortos. Mas, por mais que chegue a enfiar o dedão, não mergulha de corpo inteiro nas águas do sobrenatural (ao menos, não por enquanto). Prefere manter-se mais próxima de assuntos terrenos, o que ajuda bastante a segurar o foco desses primeiros 10 episódios no que, tirando todos os corpos mutilados, piadas politicamente incorretas e sacadas ácidas, realmente fazem a série valer a assistida: seus personagens, seu desenvolvimento, e os pequenos momentos em que o nonsense é pausado para que possamos dar uma olhada em suas angústias mais ~humanas.

Enquanto Drew Barrymore é Drew Barrymore talvez mais do que nunca (por bem ou por mal) traçaria aqui um paralelo com Jeff Goldblum, outra lenda dos anos 90 que confere sentido à palavra IDIOSSINCRÁTICO. Timothy Olyphant é, provavelmente, um dos principais motivos que você terá para querer sobreviver aos episódios iniciais da série. Com a vibe mais cool que um corretor de imóveis maconheiro e pai de família poderia ter, ele tem as melhores falas da brincadeira e um timing cômico que é tão afiado quanto suas pernas são tortas. Sempre com um sorrisinho de canto de boca um tanto quanto METALINGUÍSTICO (ele, Drew e o resto do elenco parecem estar se divertindo à beça), ele colocaria a série no bolso não fossem duas inesperadas pérolas chamadas de sobrenome Hewson e Gisondo.

Brilhando intensamente na reta final de Diet, eles formam um casal-não-casal divertidíssimo, que ajuda a quebrar a monotonia narrativa e dar ocasionais fugidinhas do lugar-comum com o qual a série flerta ocasionalmente (ela, em particular, entrega a melhor atuação da porra toda, e dá vida a uma personagem com potencial ENORME).

E rolam ainda umas participações especiais bem legais. ;)

Acertando mais do que errando, Santa Clarita Diet é, da forma mais objetiva que eu poderia colocar, uma série perfeita para quem morreu de rir vendo Jesse Pinkman e Heisenberg dissolverem um corpo humano em ácido, mas chorou ao assistindo à morte de Mike Ehrmantraut. Monstros com coração. Tipo a Sheila. :D