Se cala a voz de muitas tribos | Judão

Chris Cornell, conhecido por seu trabalho à frente do Soundgarden e do Audioslave, foi encontrado morto aos 52 anos em Detroit, horas depois de uma apresentação na cidade

Estava em destaque na capa da NME, a bíblia da música independente. E, ao mesmo tempo, também no Blabbermouth, considerado a “CNN do heavy metal”. Punks, indies, classic rockers, headbangers, blueseiros, soulmen, todos amanheceram nesta quinta-feira (18) homenageando, em suas respectivas timelines, o talento de Chris Cornell, um cara que soube navegar de maneira bastante inteligente por muitos gêneros. Aos 52 anos, ele foi encontrado morto em um quarto de hotel de Detroit, cidade na qual tinha feito uma apresentação ao lado de seus parceiros do Soundgarden, banda pilar do grunge ao lado de nomes como Nirvana, Pearl Jam e Alice in Chains.

“Chocante e inesperada”, disse um representante, a respeito da notícia, confirmada nas primeiras horas do dia. O motivo da morte ainda não foi confirmado, mas as primeiras investigações consideram a hipótese de suicídio. “A família gostaria de agradecer aos fãs por seu amor e lealdade ao longo dos anos e gostaria de pedir respeito à sua privacidade”. Entre os astros que lamentaram a perda ao longo das últimas horas, estão nomes como Jimmy Page (Led Zeppelin), Joe Perry (Aerosmith), Billy Idol e Mike Portnoy (Dream Theater).

Nascido em criado em Seattle, ele fundou o Soundgarden em 1984, ao lado de Hiro Yamamoto (baixo) e Kim Thayil (guitarra), inicialmente com o próprio Chris cantando e tocando bateria, com mais tarde Matt Cameron assumindo as baquetas. Sucesso com o público alternativo, ele conseguiu cativar os metaleiros que acusavam o grunge de ter “matado” o metal com a sonoridade de discos como Badmotorfinger (1991) e Superunknown (1994), que conseguiam ser ao mesmo tempo pesados, intensos e modernos/contemporâneos.

Depois do lançamento de Down on the Upside (1996), o quarteto passou pelas já famosas dissidências criativas e acabou preferindo encerrar atividades. Voltariam então às boas lá pelo ano de 2010, reunindo-se periodicamente para shows e até para um novo disco, King Animal, lançado em 2012. Desde 2015, eles vinham trabalhando em uma nova bolacha, eternamente prometida mas nunca concluída. Em abril, numa entrevista para a Billboard, Cornell afirmou que ele e o restante do time estavam no meio do caminho. “Mas não temos uma agenda fechada. O que eu senti mais falta, no entanto, era desta sensação de camaradagem. Foi isso que mais me deu saudades quando não éramos mais uma banda. Quando faço turnês-solo, eu estou basicamente sozinho todo o tempo”.

Por falar nisso, ele também conduziu uma carreira-solo bastante interessante, explorando o poder da sua voz não apenas em tonalidades roqueiras, mas também com um swing blueseiro, salpicado com música negra. Em 2013, ele chegou a se apresentar aqui no Brasil como uma espécie de “estranho no ninho” como parte do festival Best of Blues, tocando o material de seu disco acústico Songbook (2011), ao lado de caras como Buddy Guy e John Mayall. Recentemente, em 2015, ele soltou Higher Truth, numa pegada mais intimista e que conversa muito mais com o clima de seu primeiro álbum sozinho, o lindo Euphoria Mourning (1999). Foi este Cornell solo que também gravou You Know My Name, a poderosa canção-tema de Cassino Royale, que serve como introdução perfeita para o novo James Bond vivido por Daniel Craig.

Cornell ainda se envolveu com dois daqueles chamados “supergrupos”, com integrantes de renome de outras bandas que geraram registros que merecem destaque. O primeiro deles, que o apresentou a um público diferente do Soundgarden, foi o Audioslave, que era essencialmente um Rage Against The Machine mais soft e sem o Zack de la Rocha nos vocais. O RATM tava querendo continuar as atividades sem o cantor, que pulou fora, tavam procurando um novo frontman, e aí que Tom Morello, Tim Commerford e Brad Wilk deram de cara com Cornell... e a química foi imediata. Em 19 dias, escreveram 21 músicas, que gerou o primeiro álbum, autointitulado. Outros dois discos depois, a banda deixou de existir, mas hits como Cochise e Like a Stone ficaram na cabeça de uma base fiel de fãs, sempre pedindo para eles retornarem em algum momento. Em janeiro deste ano, eles se reuniram para a abertura de uma apresentação anti-Trump do Prophets of Rage – que é basicamente o RATM com os vocalistas do Public Enemy e do Cypress Hill. “Podemos voltar a tocar juntos de novo”, afirmou ele, ao Blabbermouth, pouco depois. “A gente vêm falando sobre isso há três ou quatro anos. Só precisamos encontrar um buraco na agenda, porque sei que todo mundo está afim”.

A agenda de Chris Cornell andava complicada porque, além de sua carreira-solo e do retorno do Soundgarden, ele vinha falando sobre novas apresentações do Temple of the Dog, surgida originalmente em 1990 como uma homenagem ao amigo Andrew Wood, falecido cantor do Mother Love Bone. Com Cornell nos vocais, Mike McCready e Stone Gossard (ambos do Pearl Jam) nas guitarras, Jeff Ament no baixo e com Matt Cameron na batera, eles gravaram um único disco, em 1991, e chegaram a fazer uma mini-turnê em 2016 para comemorar os 25 anos de seu lançamento. “Foi uma experiência incrível que a gente queria repetir”, contou ele, ao Den of The Geek. “O problema era o de se sempre: todo mundo sempre ocupado”.

E assim, sempre com um monte de coisas pra fazer, cheio de planos, com um monte de amigos disputando a sua atenção para fazer um som, Chris se foi, deixando para trás muitos Chris diferentes para que diferentes fãs possam curtir do seu jeito, nos mais diferentes volumes. Mas, como diz a letra de Outshined (“I’m looking California and feeling Minnesota”), vai rolar um sabor meio amargo nos próximos meses...