Sem vergonha do passado, Raylin Joy rasga a máscara em carreira musical | Judão

“A artista outrora conhecida como Skin Diamond” prepara o lançamento de seu primeiro álbum, um pop cheio de estilo, personalidade e com ótimas referências

A música sempre foi feita de identidades secretas, um pouco como aquelas que a gente vê nos gibis de super-heróis. Que o digam os mascarados do Kiss (cujos rostos verdadeiros durante muito tempo foram um segredo bem-guardado) ou um cara como David Bowie e o seu Ziggy Stardust, o alter ego roqueiro alienígena que, quando morreu, deixou um monte de gente meio confusa. Afinal, quem é quem?

Raylin Joy, cantora americana que começou a dar as caras nos últimos meses, também tem a sua. E não tem qualquer vergonha dela. Até porque a identidade secreta veio antes de seu nome verdadeiro para o mundo. Como vocalista, Raylin adotou seu nome de batismo. Mas antes, em sua outra carreira, ela era conhecida apenas como Skin Diamond.

Para quem não ligou o nome à pessoa, uma busca simples no Google indica de quem estamos falando. Mas cuidado, porque os resultados são NSFW, afinal estamos falando de uma das maiores estrelas da milionária indústria norte-americana de filmes pornográficos.

Sua filmografia de produções adultas é extensa: foram mais de 200 títulos diferentes, incluindo até algumas daquelas infames adaptações de blockbusters do cinema e da TV dirigidas por Axel Braun, como X-Men (no qual viveu a Tempestade), The Walking Dead (Michonne), O Homem de Aço (Banshee Prateada, que nem aparecer no filme original aparece, mas...) e até um papel de coadjuvante na versão cheia de sexo de Doctor Who. Desde 2012, recebeu cerca de 50 indicações a alguns dos maiores prêmios deste mercado, garantindo duas estatuetas no cobiçado AVN Award, o Oscar do pornô, em 2014.

EchoNo entanto, os leitores de quadrinhos mais atentos já se depararam com alguém beeeeeeem similar a ela nas páginas dos gibis do Demolidor, por exemplo. Quando David Mack trabalhou na série Daredevil: End of Days ao lado de Brian Michael Bendis, ela posou para que o artista definisse o visual da personagem Echo (Maya Lopez), que ele mesmo criou anos antes junto com o poderoso chefão Joe Quesada.

Nascida na cidade californiana de Ventura, esta mistura de ascendência etíope, dinamarquesa, iugoslava, checa e alemã se mudou para a Europa quando tinha por volta de três anos de idade, morando durante duas décadas na cidade de Dunfermline, com seus 50.000 habitantes, ao norte da Escócia. A mudança aconteceu porque seus pais foram para lá trabalhar como missionários cristãos, ajudando a “espalhar a palavra de Deus”. Só que a religião não estava em seu caminho. Na verdade, desde cedo ela tinha a vontade de embarcar no mundo do entretenimento.

“Eu tive muita sorte com os meus pais, porque ao longo da minha carreira eles sempre me apoiaram e foram bastante amorosos”, conta ela, em entrevista ao site xoJane. “E, bom, se você é um cristão de verdade, tecnicamente é o que você deveria fazer. É o que Jesus disse, se você está realmente prestando atenção: não julgue as pessoas mesmo se você não concorda com o que elas estão fazendo, porque isso é a atitude de um babaca”.

Mas ela explica que o jeito que entrou no pornô foi beeeeem diferente da forma que as pessoas usualmente se envolvem com este mercado. Foi tudo por livre e espontânea vontade, sem uma daquelas histórias de vícios ou abusos que ela mesma admite conhecer aos montes. O objetivo da atriz, bissexual e praticante de BDSM, era explorar a própria sexualidade, sempre reforçando que jamais fez nada que não tenha tido vontade desde seu primeiro filme, em 2009. “Como uma mulher independente e muito sexual, assumir o controle da minha própria vida sexual deste jeito foi imensamente empoderador”, explica. Mas completa: “só que eu jamais recomendaria este caminho para qualquer um”.

Raylin

Tudo começou quando Raylin iniciou sua trajetória como modelo, assinando com uma agência em Londres e posando para marcas como Louis Vuitton, American Apparel e Atsuko Kudo, entre outras. Logo ela começaria a fazer fotos artísticas mais ousadas, que outras modelos não topariam. Surgiriam então os convites para se apresentar em clubes fetichistas, que ela topou na hora. Daí pra pintar o chamado para uma cena entre duas garotas num filme erótico, a ser rodado em Paris, foi um pulo.

Por mais que tenha criado uma segunda personalidade diferente para atuar com sexo explícito diante das câmeras (a frase “a artista outrora conhecida como Skin Diamond” consta em destaque no flyer de um de seus primeiros shows, em NY), Raylin fala com orgulho de sua carreira no mundo do pornô. “A Skin Diamond é parte da minha personalidade. Ela se tornou meu alter ego. Mas tem MUITO mais sobre mim do que apenas sexo, o que é outra razão para eu ter optado por usar meu nome de verdade ao trabalhar com música”, conta, em entrevista para a Filthy.

Só que a música sempre foi uma de suas paixões – tanto é que, além de dar as caras no clipe John Doe, do cantor de hip hop B.o.B., ela mesma já tinha lançado um primeiro videoclipe, ainda como Skin Diamond, produzido pela galera da Brazzers (sim, eles mesmos) e batizado de Sex In A Slaughter House, uma parada bem esquisita, tipo trilha de filme de terror, ao mesmo tempo sensual, com umas máscaras de cabeça de porco espalhadas ao longo do vídeo, meio Rob Zombie. Mas uma coisa se destaca imediatamente: a voz aveludada e ao mesmo tempo cheia de estilo e personalidade da futura cantora.

Depois desta primeira performance, bastante elogiada, Raylin percebeu que tinha jogo aí e resolveu investir de vez. Seu primeiro single, a faixa Fire, um pop gostoso e contagiante daquele tipo pra cantar junto, surgiu quase que totalmente no primeiro encontro dela com o atual namorado (e produtor), Ben Cole, um show do Deftones, em 2015. Mas embora não tenha nada da banda de Chino Moreno aí — e nem de Iron Maiden, que ela também diz que ouvia um bocado na adolescência — é importante destacar que as raízes roqueiras da cantora se mostram bastante na sua sonoridade. Quando ela descreve seu som como sendo “pop alternativo com uma pegada rock”, tudo faz MUITO sentido. Não é só aquela conversinha furada de comunicado enviado pra imprensa.

A Skin Diamond é parte da minha personalidade. Ela se tornou meu alter ego. Mas tem MUITO mais sobre mim do que apenas sexo, o que é outra razão para eu ter optado por usar meu nome de verdade ao trabalhar com música

Dos quatro singles lançados até agora, todos com vídeos disponíveis em seu canal no YouTube, ela mostra bastante diversidade, mas sempre com uma VERVE roqueira bem visível. Atitude, definitivamente, é o que não falta aqui. Enquanto Feel Me é uma daquelas faixas fortes pra pista de dança, Karma é uma espécie de dark pop, uma canção de pegada sombria sobre uma mulher sem medo de ser cruel, uma verdadeira “bitch” e com orgulho.

Mas a gente sente a força que Raylin tem de verdade como cantora com All Night, que é bem sexy, tá bom, mas carrega num rock deliciosamente temperado de soul e é cheia de pequenos recados para quem não acredita em seu novo caminho, com Raylin soltando a voz com mais força e potência. “Não importa o que você diga, vou fazer as coisas do meu jeito. E você não pode negar que vou posso fazer isso a noite toda”.  Resumidamente: estamos diante de um trabalho que merece ser ouvido não porque é “a viagem musical de uma pornstar”, mas sim porque tem um potencial musical incrível, com ou sem sexo envolvido.

Quando questionada se Skin Diamond vai continuar existindo e se o pornô está fora de sua vida, ela diz que está dando um tempo para se forcar mais não apenas na música, mas também em outras possibilidades no mundo da atuação – recentemente, ela atuou na minissérie Submission, do canal Showtime, sobre uma mulher que experimenta um lance mais SADOMASÔ depois de um relacionamento infeliz.

“É importante mostrar que as pessoas podem ter muitos lados diferentes. Não finjo que o pornô não existe pra mim porque este é um lado que ainda sou eu. Cheguei num ponto em que quero guardar um pouco do meu lado sexual pra mim. Já dei tanto da minha sexualidade pro público durante tanto tempo que agora é hora de mostrar a eles algo diferente”, esclarece. “Eu percebi que estava tão focada no trabalho, vivendo esta persona de Skin Diamond 24h horas por dia, que estava perdendo um pouco de quem eu era como pessoa de verdade”.

Nas redes sociais, ela mantém perfis diferentes para Skin e Raylin, para deixar bem claro do que se trata. “Eu nunca deixei de ser Raylin. É quem eu sou e quem eu vou sempre ser. Eu só ainda não estava preparada para que o mundo me visse desta forma. Revelar seu corpo para o mundo é uma coisa, mas revelar a sua alma e quem você é de verdade e outra muito diferente. O único jeito de acabar com uma ilusão é quebrando o espelho inteiro, sem pena”.

Considere o espelho quebrado. ;)