Uma das melhores histórias em quadrinhos de 2017 é do Senhor Milagre | Judão

Ponto central dos Novos Deuses de Jack Kirby e coadjuvante de luxo na Liga da Justiça Internacional, Scott Free não é exatamente o que se pode chamar de personagem mainstream — mas o que o roteirista Tom King fez com ele até agora merece ser lido por MUITO mais gente

Nos últimos anos, qualquer anúncio envolvendo o ex-agente da CIA transformado em escritor de quadrinhos Tom King vinha sempre carregado de expectativa. Depois do que ele fez com Dick Grayson em seu ótimo titulo solo sem o uniforme do Asa Noturna e de ter transformardo o gibi do Visão em uma das melhores publicações de 2016, contra tudo o que se esperava dessa ideia (menos pelo King e mais pelo personagem), qualquer coisa que envolvesse seu nome gerava grandes expectativas.

E, conforme nos aproximamos do final de 2017, já dá pra dizer sem medo de errar que sua nova HQ é uma das melhores e mais intensas do ano, um trabalho delicado, cheio de alma e deliciosamente humano. Mas, não, não tamos falando da nossa revista do Batman, que ele também tá escrevendo (e muito bem) — e sim dos primeiros cinco números da minissérie em 12 partes do Senhor Milagre, que estreou em Agosto.

Se você deixou passar, não perca. Porque vale DEMAIS. Que história, que jornada, que olhar mais moderno e dinâmico sobre toda a mitologia dos Novos Deuses criados por Jack Kirby — arrisco dizer até que um dos mais interessantes nesta quase cinco décadas, uma atualização respeitosa mas cheia de personalidade e inteligência. Um retrato ao mesmo tempo sutil e sufocante do ser humano contemporâneo, uma parábola não só sobre um super-herói e mestre do escapismo, mas sobre um pessimista com tendência a piadinhas infames, com fartas doses de cinismo, ansiedade e paranoia.

Pra quem não ligou o nome à pessoa, o Senhor Milagre é Scott Free — filho de Izaya, o Pai Celestial, líder supremo do planeta Nova Gênese. Como parte de uma “ação diplomática” para impedir uma guerra contra Apokolips, Izaya concordou em fazer uma troca de filhos com o governante de seu planeta vizinho e maior inimigo, o monarca das trevas conhecido como Darkseid. Então, o jovem Orion foi criado em Nova Gênese como filho do Pai Celestial, enquanto Scott foi mandado para ser torturado criado no orfanato da Vovó Bondade. Conforme cresceu, se revoltou contra o totalitarismo de Apokolips, apaixonou-se pela guerreira conhecida como Grande Barda e, eventualmente, saiu do planeta rumo à Terra.

Já por aqui, se tornou protegido e assistente de um artista de fugas circense, Thaddeus Brown, que se apresentava com a alcunha de Senhor Milagre. Virtualmente imortal, imune à maior parte das toxinas e doenças e dotado de agilidade e reflexos super-humanos, Free assumiu a identidade do mestre quando ele acabou sendo assassinado. Depois da fase de Jack Kirby, o Senhor Milagre acabou tendo um mínimo de visibilidade ao tornar-se integrante da Liga da Justiça Internacional, na fase cômica, ao tentar uma vida calma e pacífica no subúrbio ao lado de Barda e do melhor amigo, o irascível anão Oberon.

A obra de King carrega um tantinho deste DNA justamente por tirar o foco do super-herói e trazer os holofotes para o homem por trás da máscara multicolorida. Tem bastante humor aqui, seja nos diálogos afiados, seja nas situações absurdas que distorcem o aspecto épico kirbyniano e enfiam divindades cósmicas na pequena sala do apartamento dos Free para dividir um pratinho de salada comprado no supermercado. Mas é um humor diferente, menos gargalhada e mais reflexivo, do tipo que te faz sorrir mas com um gosto amargo na boca. Porque este é um Scott Free para quem tudo deu errado. Super-herói reconhecido, celebridade do mundo das fugas com diversos fãs ao redor do mundo, ele não é o Senhor Milagre, porque isso é nome de palco. E também não é Scott Free, porque este foi o nome que ganhou em Apokolips. Quem ele é, afinal?

Tomado por um VAGALHÃO emocional chamado depressão, ele sente o peso de carregar o mundo nas costas, o caos de manchetes desgracentas que desmorona ao seu redor, e tudo que ele quer é fugir. Do mundo. Da vida. Da sua própria vida, aliás.

A história começa justamente quando Scott toma conta dos noticiários ao tentar fazer sua maior fuga, a mais audaciosa, e literalmente corta os próprios pulsos, dando a nítida impressão de que o homem dos muitos milagres, na verdade, está morto. Só que ainda não sabe.

Sem ter plena certeza do que é real ou imaginário (coisa que, até o momento, nem o próprio leitor saca muito bem por conta da narrativa bastante quebrada — e isso é MUITO legal), Scott se sente preso num mundo que não reconhece, onde nem tudo é o que parece. Seu melhor amigo está morto? Que lembranças são estas, afinal? E a sensação não o acompanha só na Terra, mas também em Nova Gênese, agora que o Pai Celestial morreu e seu filho adotivo, Orion (um arrogante narcista que você tem vontade de SOCAR), assumiu o trono.

A guerra entre os dois planetas está mais do que declarada porque, segundo consta, Darkseid enfim tem em suas mãos a tal equação antivida, uma espécie de fórmula matemática que, se for ouvida por qualquer um, lhe tira imediatamente o livre arbítrio. A conquista do universo estaria próxima.

Se espera, portanto, que o Senhor Milagre assuma seu papel como general desta batalha — aliás, existe toda uma profecia sobre ele ser o responsável por encerrar o conflito Nova Gênese/Apokolips de vez. Uma mistura de Neo, o escolhido, com um certo Jesus Cristo, que deve guiar aqueles sem esperança rumo a um futuro melhor. Mas será que ele tá disposto a assumir este fardo? Ou tudo que ele quer é assistir um pouco de TV de maneira despretensiosa, com Barda deitada tranquilamente no seu colo?

Os Novos Deuses, que estavam acima de nós no panteão de Kirby, mostram seu lado mais frágil e partido em pedaços.

E enquanto um conflito espacial se desenrola do outro lado da galáxia, é nos momentos mais mundanos, mais “tranquilos”, mais gente como a gente, que a série ganha muito mais corpo. Como quando Scott e Barda, depois de uma luta sangrenta, resolvem se recolher para tomar um banho e percebem que não fazem ideia de como o chuveiro funciona em Nova Gênese — enquanto a poderosa esposa do nosso herói relutante revela que não lida bem com a própria altura, se achando feia, estranha, esquisita.

À prosa inteligente de King se junta o traço certeiro de Mitch Gerads, seu parceiro em The Sheriff of Babylon, da Vertigo. Quem já teve a oportunidade de ler o título deve ter estranhado a escolha — porque, afinal, o desenho do sujeito é mais escuro, sombrio, diferente da paleta cheia de cores primárias pulando na página que é todo o universo de Kirby (basta ver o uniforme verde, amarelo e vermelho do Milagre pra sacar). “Não dá pra ser mais louco do que o Kirby. Não dá pra ser mais grandioso do que ele. Então, o que o Mitch fez foi seguir no caminho oposto”, explica King, em entrevista ao Comics Beat. “Ele pega tudo aquilo e internaliza, fazendo as coisas mais humanas. Ele pega tudo que é bizarro e incrível e torna comum”.

Esta é a mais pura verdade. As caretas que Scott faz enquanto usa a máscara, com os olhos esbugalhados e a bocona aberta, são de uma expressividade absurda — você chega a ficar de saco cheio DA VIDA junto com ele quando, sentado na cadeira ao contrário, ele espera pacientemente pelo monólogo cheio de idas e vindas do Orion durante um certo julgamento num pequeno quarto e sala de Los Angeles. Mas quando o Milagre tira a máscara e vira só o Scott, tá clara a tristeza em seus olhos, baixos e cansados, como alguém que não tem mais pique pra lutar uma batalha que é maior do que qualquer coisa que tá rolando em Nova Gênese, Apokolips ou adjacências.

E isso tudo porque o Darkseid nem apareceu ainda. E, de verdade, não faria falta nenhuma se nunca sequer desse as caras. Só pra não quebrar este clima.

Posso parecer exagerado ao dizer isso mas, de alguma forma, a desconstrução que Tom King está fazendo com os Novos Deuses é um pouco o que um tal de Alan Moore fez com as versões de personagens da Charlton Comics num gibizinho aí de nome Watchmen.

A grande graça e também a grande tragédia de Senhor Milagre é que Scott Free somos eu e você. Isso é pra rir. Mas também é pra chorar.