Mais um monte de personagem do Rob Liefeld não deverá ser levado pros cinemas | Judão

Com o sucesso de Deadpool, o acordo com Akiva Goldsman e Graham King parece mesmo um próximo passo até óbvio. Mas vamos combinar que não é a 1a vez que o autor anuncia uma coisa do tipo e… NADA ACONTECE.

Vejam vocês: depois da quantidade obscena de dinheiro que fez o filme do Deadpool, era inevitável que Hollywood quisesse mais. Porque, olha só, Hollywood SEMPRE quer mais. Além de uma continuação das aventuras do mercenário tagarela, seria evidente ver uma mobilização de um bando de engravatados dos outros estúdios para tentar encontrar algo nos mesmos moldes. “Ah, quem criou o Deadpool?”, pergunta um. “Foi um tal de Rob Liefeld”, responde outro, depois de uma busca simples no Google. “Bom, então vamos logo comprar os outros personagens dele que não são da Marvel antes que seja tarde”.

Tá bom, não vou entrar a fundo aqui no mérito de que: 1) o Deadpool foi criado pelo Liefeld em parceria com o roteirista Fabian Nicieza, por mais que ele odeie admitir isso; e 2) este Deadpool que vimos nos cinemas tá bem longe de ser o Deadpool que a dupla desenvolveu nos gibis dos Novos Mutantes/X-Force, no começo da década de 90. Afinal, inicialmente ele era apenas um mercenário com todos os tipos de armas pendurados pelo corpo e só ganhou a faceta de sátira + humor negro + referências pop + metalinguagem e quebra da quarta parede em seu título solo, a partir de 1997, cortesia de roteiristas como Joe Kelly, Christopher Priest e Gail Simone.

Maaaaaaaas os tais executivos foram atrás do Liefeld. No caso, executivos representando o premiado produtor Graham King (Argo, A Invenção de Hugo Cabret), a Weed Road de Akiva Goldsman (Uma Mente Brilhante) e a Fundamental Films, empresa do CEO Mark Gao, uma das maiores do mercado chinês, que recentemente adquiriu cerca de 28% da EuropaCorp de Luc Besson. De acordo com o Deadline, isso resultou num contrato que prevê inicialmente os direitos de mais de 100 personagens saídos de nove gibis autorais dos Extreme Studios de Liefeld.

Os títulos envolvidos no acordo seriam Brigade (supergrupo meio Vingadores), Bloodstrike (esquadrão secreto de assassinos), Cybrid (ciborgue meio Cable, meio Wolverine), Lethal (matadora meio ninja), Re:Gex (grupo de mutantes e seres mecânicos), Bloodwulf (um caçador de recompensas alienígena tipo o Lobo), Battlestone (herói da chamada “era de ouro”, que lutou numa espécie de Sociedade da Justiça) e NitroGen (equipe de heróis adolescentes) e Kaboom, um moleque adolescente com poderes místicos, lançado mais tarde via Awesome Comics.

A ideia aqui seria que Goldsman replicasse o processo conduzido com os Transformers e com o restante do universo da Hasbro, criando uma “sala de roteiristas” para entender como expandir este leque de personagens. Só depois de ter tudo isso devidamente rascunhado e planejado é que eles então procurariam um distribuidor de grande porte para bancar a brincadeira.

O grande lance é que Rob Liefeld já esteve envolvido anteriormente em DIVERSOS anúncios do tipo, a respeito de adaptações de suas criações para as telonas e nenhum deles jamais viu a luz do dia, mesmo com toda a pompa e circunstância que Liefeld sempre deu para cada projeto, PROPAGANDEANDO aos quatro ventos e fazendo uso de sua faceta mais marketeira (que, dizem as más línguas, ele foi forçado a desenvolver para compensar sua falta de habilidade na arte do traço. QUE MALDADE...).

Dá pra considerar que apenas o fato de Deadpool – que, lembremos, é um personagem que Liefeld criou PARA a Marvel – ter se tornado um hit tornaria esta situação diferente? Será que agora vai?

No final do ano passado, por exemplo, os nomes de Liefeld e Goldsman já tinham sido colocados na mesma frase que “adaptação de HQ para os cinemas”. A Paramount fez um acordo inicial pelos direitos de Avengelyne, uma guerreira-anjo que encara ameaças do céu e do inferno. E Goldsman não apenas estaria envolvido como produtor, mas também potencialmente como diretor, já na busca por um roteirista que pudesse conceber o que ele chamou de “John Wick com um anjo caído”. Empolgante, né? Mas o papo de que a Avengelyne ia virar filme vem lá de 2013, quando Liefeld levou a ex-lutadora de MMA Gina Carano para a Comic-Con em San Diego. Lá, ela assinou pôsteres exclusivos que a retratavam como a personagem e tudo mais, e o autor chegou a dizer que a ideia é que ela se tornasse uma espécie de Kate Beckinsale na pegada de Underworld. Três anos e meio se passaram e... nada aconteceu.

Mas não acaba aí: em 2015, por exemplo, rolou um papo de que ele estaria diretamente envolvido na adaptação de Prophet, supersoldado problemático que ganhou poderes de um viajante do tempo. A Fox estaria interessada, Liefeld obviamente falou para quem quisesse ouvir que ia rolar... Mas adivinha só? Nada aconteceu DE NOVO.

Se a gente for ainda mais trás, láááááá em 2008/2009, enquanto a Warner colocava Bryan Singer para produzir Capeshooters, gibi de Liefeld sobre dois fotógrafos especializados em registrar os bastidores do mundo dos super-heróis, a Reliance Entertainment (Gigantes de Aço, Histórias Cruzadas) tinha adquirido os direitos de adaptação do Youngblood, o grupo de super-heróis que se tornou a maior criação solo do “mestre”, sendo a primeira HQ da nascente Image Comics e vendendo milhões de cópias, a ponto de deixar Marvel e DC pra trás. Brett Ratner, depois de X-Men 3, estava cravado na direção (o que se passa na cabeça desta gente?) e Liefeld ajudaria no roteiro da dupla J.P. Lavin e Chad Damiani.

Pra MTV, chegou a dar detalhes da trama: que seria mais violenta do que o Homem de Ferro da Marvel, que se focaria no relacionamento entre o recém-chegado Shaft e o líder durão Chapel, que o adolescente transformado num gigante de pedra Badrock não estaria na história (“ele não se encaixa num primeiro filme”). E ainda disse que esperava que o fato dos heróis trabalharem abertamente junto ao público e despertarem tamanho interesse da imprensa poderia ajudar numa pegada diferente, como se eles fossem efetivamente celebridades perseguidas pelos paparazzi. “São personagens que têm micro-câmeras instaladas nas flechas, nos rifles, nos bastões. Podemos ter cenas dos mais diferentes ângulos”, afirmou.

Legal, né? Mas acho que você sabe o que aconteceu de lá pra cá, certo? NADA.

Ano passado, para celebrar a aproximação do aniversário de 25 anos do título, ele soltou um roteiro escrito por ele, a sua “visão do que seria um filme do Youngblood”, para quem se cadastrasse em seu site (ainda dá pra solicitar por aqui).

Não parece estranho que o próprio Youngblood, o maior blockbuster que ele tem na manga, não esteja envolvido neste novo acordo de Liefeld com King/Goldsman? Teremos um OUTRO anúncio em breve?

Enfim, tomara que desta vez a coisa embarque de vez e que, vá lá, pelo menos UM filme saia como resultado deste acordo. Não precisam ser nove, só um já tá valendo pra começar. Mas é que essa será a melhor oportunidade que teremos de ver os personagens de Rob Liefeld com uma anatomia minimamente proporcional pela primeira vez na vida. E os pés, cara. Enfim, os super-heróis de Liefeld terão pés que não estão cobertos pela grama ou por uma névoa sorrateira.

Que momento histórico, senhoras e senhores.