Sherlock num caleidoscópio

Sherlock num caleidoscópio

Renan Martins Frade

4 de Janeiro de 2016

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No que era pra ser apenas um especial fora da cronologia, quase que um tapa-buraco no meio desse grande hiato da série, vimos uma grande mistura de visões de Sherlock Holmes e de mundos, além de um bom gancho para o que vem por aí


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SPOILER! Sherlock é uma daquelas séries que é vítima do próprio sucesso. O combo “ótima ideia + bons-roteiros + elenco incrível” fez com que, em menos de cinco anos, Martin Freeman e (principalmente) Benedict Cumberbarch se tornassem ícones da cultura pop. Todo mundo quer trabalhar com eles e, assim, a cada temporada, foi ficando cada vez mais difícil voltar à série que os projetou pro resto do mundo.

Sherlock tem um modelo de produção interessante pra uns, massacrante pra outros: três episódios por temporada, cada um com 1h30, como se fossem três filmes que, de alguma forma, se interligam. Não é muito fácil, ou rápido, de produzir. Mas se sobrar espaço pra UM episódio na agenda da galera...

Assim surgiu The Abominable Bride, que foi ao ar logo no primeiro dia de 2016.

“Esse especial é algo próprio”, contou o produtor Steven Moffat para a EW, explicando porque o episódio se passa na Era Vitoriana, assim como as clássicas histórias de Sherlock Holmes. “Nós não faríamos a história que estamos fazendo, e da forma que estamos fazendo, se não tivéssemos esse especial. Não é parte de uma temporada de três episódios. Então nós tivemos que fazer isso... É tipo algo em sua própria bolha”.

Por tudo isso, parecia que a série escolheria o caminho fácil de se voltar aos originais, seguindo de perto o estilo do escritor Arthur Conan Doyle. Mas The Abominable Bride é mais do que isso – o episódio é o casamento desse universo original com a pegada moderna da série da BBC e também com aquilo que todo mundo imagina quando pensa em Sherloc Holmes, que não tem tanta relação com os antigos livros mas que foi criado na mente e nas produções da TV e do cinema nos últimos 100 anos.

O mix dos originais e do IMAGINÁRIO POPULAR fica claro logo nos primeiros minutos. A cena de abertura nos apresenta ao que seria o primeiro encontro entre Sherlock Holmes e John Watson nesse universo vitoriano, com Sherlock dando bengaladas em cadáveres, quase que numa recriação fiel ao trecho inicial do livro Um Estudo em Vermelho. No final, o nosso ~herói coloca aquele chapeuzinho característico, chamado Deerstalker – mas que nunca foi descrito claramente nas obras do Conan Doyle.

Há um corte de alguns anos e, depois da abertura, Sherlock Holmes já é uma estrela, resolvendo casos que depois são contados para toda Londres por meio dos escritos de Watson. E é aí que o especial ganha ares de genialidade.

Sherlock Special

A história em si não existe nas obras originais do personagem – ou melhor, ela é citada em uma frase como algo passado, mas nunca descrito, no conto O Ritual Musgrave. Uma misteriosa noiva se mata, levanta do necrotério e aparece para matar o noivo. Mistério total – mas essa não é, exatamente, a história principal, mas sim uma distração pro espectador. Quase que como um ARENQUE VERMELHO*.

O enredo verdadeiro começa a surgir quando a maioria das mulheres da história passam a se rebelar contra o Watson – que nunca dá boas falas ou alguma relevância, em seus livros e contos. Vemos reclamações da Sra. Hudson, da empregada da casa do detetive/médico/escritor... Até mesmo a Mary, sua esposa, fica usando de táticas pra ser notada ou vista pelo cara, mas não funciona lá muito bem, também. Não parece mais uma história vitoriana, mas sim uma luta para as mulheres serem ouvidas, terem seu espaço — alguma semelhança com os tempos atuais?

Essa sensação se torna uma realidade quando finalmente Sherlock abre os olhos e descobrimos que estamos em 2014, momentos após o final do episódio His Last Vow. É tudo um sonho – mas não um sonho daqueles que nos irritam, que faz toda a história desmoronar como uma mentira. Essa é uma construção mental do próprio Sherlock, um “Palácio Mental” feito por ele em instantes, no meio de uma ~overdose, misturando elementos do passado, do presente e do futuro não pra desvendar qual é a da Noiva Abominável AND morta-viva, mas sim entender como Jim Moriarty pode estar vivo e atacando a Inglaterra naquele exato instante, mesmo depois de TER-LHE enfiado uma bala na cabeça no final da segunda temporada. A resposta sobre o mistério da Noiva é, indiretamente, a resposta sobre mistério no presente — e o surrealismo impera, quase que se transformando num episódio de Doctor Who.

Mas como alguém morto pode estar vivo depois de tomar um tiro na cabeça? Quem descobre é justamente Mary Watson, num final que pode parecer que fala sobre a luta pelo direito ao voto das mulheres no final do século XIX, mas é sobre a luta das mulheres nessa segunda década do século XXI. “Uma guerra que temos que perder”, como define Mycroft Holmes.

Sherlock

Ao tentar ligar esse desfecho com aquela coisa meio Scooby-Doo de tirar a máscara e descobrirmos que é o Ruivo Hering (não é nenhuma coincidência que o personagem, em inglês, seja Red Herring... o tal do Arenque Vermelho), a história acaba colocando as mulheres numa espécie de sociedade secreta, justamente ao estilo criada pelos homens na Maçonaria. Teve gente que reclamou que a série estaria tentando fazer um “mansplaining” do feminismo — ou seja, tentando explicar pras mulheres, de uma maneira didática demais, algo que elas sabem mais do que ninguém o que é. Talvez, porém, isso esteja lá não pras mulheres, mas sim pros homens, mostrando que o que fazíamos naquela época — e fazemos até hoje — é condenável.

Faltou, de qualquer forma, um direcionamento melhor pra essa (ou qualquer outra) conclusão por parte do espectador. O especial, como um todo, mostra que há ainda muito o que se evoluir nesse aspecto, e que Moffat e o outro criador da série, Mark Gatiss, precisam também ouvir um pouco mais o que suas próprias personagens estão falando.

No começo, parecia que Sherlock prometia uma simples história tapa-buraco, no passado, fora da cronologia. Só que o que entregaram foi uma grande viagem na mente do protagonista, algo que não só faz parte de toda a cronologia da série, como também entrega um verdadeiro caleidoscópio criado com fragmentos de imagens do Sherlock Holmes clássico, da série, da visão de mundo do passado e do que temos hoje. Uma confusão incrível de se ver e que, finalmente (pro desespero dos puristas), manda o inconfundível “é elementar, meu caro Watson”.

Agora, vamos esperar mais um bom tempo até a estreia da quarta temporada, provavelmente em 2017. Era pra já estar sendo gravada, mas a agenda do Cumberbatch anda ocupada com um tal de Dr. Estranho...

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