Silêncio no tribunal: começa o Julgamento do Flash | Judão

No primeiro episódio de 2018, 4a temporada da série do velocista chega fazendo alusão a mais um dos arcos clássicos do personagem, lá do comecinho da década de 80

Depois de repetidos duelos com os mais diversos velocistas e um monte daquelas cagadas envolvendo viagens no tempo (isso sem mencionar a insuportável vibe “novela mexicana” com a Iris), a quarta temporada de The Flash finalmente começou a seguir um caminho diferente — não apenas ao colocar o protagonista diante do intelecto brilhante do Pensador / Clifford DeVoe (vivido pelo ótimo Neil Sandilands), mas também por buscar referências em tramas com uma pegada diferente de “vamos ver quem corre mais rápido”, como é o caso do caminho que começou a ser seguido a partir do episódio desta terça-feira, 16, no retorno da série em 2018.

Trata-se do icônico Julgamento do Flash, publicado a partir de 1984 entre as edições 323 e 350 do gibi do Velocista Escarlate, com roteiros de Cary Bates e arte de Carmine Infantino. Foram quase dois anos de uma história repleta de reviravoltas, misturando as típicas lutas e conflitos de super-heróis com sequências dignas dos melhores e mais ROCAMBOLESCOS dramas de tribunal da TV americana.

Na versão televisiva, quem é levado para diante do juiz é Barry Allen, que caiu como um patinho numa armação que DeVoe começou a tecer muitos episódios antes. Desconfiando de que aquele professor numa cadeira de rodas é muito menos inocente do que aparenta, o alter-ego do homem mais rápido do mundo começa a tentar investigá-lo por conta própria e dá umas mancadas brabas, deixando vídeos e a porra toda pra trás, pintando o retrato de um daqueles stalkers assustadores.

Barry, como investigador do time de CSI de Central City, acaba sendo denunciado por DeVoe e sua esposa e toma uma dura do chefe do distrito, além de encarar uma ordem de restrição. Mas as provocações de DeVoe continuam e, quando eles revelam abertamente quem são em suas identidades superpoderosas, é justamente o momento em que o vilão consegue transferir sua mente para o corpo de outro meta humano, deixando sua forma que definhava graças a uma doença degenerativa pra trás — assim como o corpo esfaqueado de DeVoe também ficou de presente no chão do apartamento de Barry Allen, para que tanto ele quanto a polícia encontrassem. Bastou ligar dois mais dois pra sacar que Barry tava numa roubada.

Nos quadrinhos, no entanto, quem acabou sendo julgado não foi Barry, mas sim o próprio herói mascarado.

Tudo começou a ser construído em The Flash #275 (1979), numa festa à fantasia na qual Barry estava vestido como Flash e sua esposa Iris como Batgirl. Ao final, no entanto, descobrirmos que alguém morreu em circunstâncias pra lá de estranhas — e foi ninguém menos do que a amada do Sr. Allen, bem debaixo do seu nariz.

Só OITO números depois, quando começa a lidar melhor com a tragédia depois de tretar até mesmo com seus bons amigos da Liga da Justiça, é que o herói descobre que Iris foi assassinada pelo Flash Reverso, aka Eobard Thawne aka Professor Zoom, que atravessou o crânio da moça com sua mão em altíssima velocidade. A descoberta leva a uma briga entre os dois que acaba ultrapassando múltiplas dimensões. E é em uma delas que o Flash deixa seu maior inimigo perdido, aparentemente pra sempre.

Barry Allen então volta pra Terra e segue em frente com a vida, eventualmente até se apaixonando mais uma vez. Ele se envolve com Fiona Webb (nova identidade de Beverly Lewis, integrante do Programa de Proteção às Testemunhas) e os dois rapidamente ficam noivos e começam a planejar seu casamento. Tudo parece lindo e maravilhoso mas eis que então, cinco anos depois, não apenas o Flash Reverso escapa de sua prisão dimensional como ameaça virar a vida de Barry Allen do avesso mais uma vez. Em sua identidade civil, ele é obrigado a largar a noiva no altar para impedir que o amarelão a mate também. Nosso herói em velocidade máxima consegue impedir o vilão mas... acaba acidentalmente quebrando o pescoço do Flash Reverso. A cidade, incluindo as autoridades policiais, testemunham o acontecido. E não demora até que o promotor público o acuse de assassinato e mande prendê-lo.

O mundo inteiro fica dividido, incluindo a própria Liga da Justiça, que chega a votar sua expulsão — e o Superman, que é o voto de minerva do time, decide dar uma chance ao cara mas, se ele for considerado (e provado) culpado, está definitivamente fora. Mas o próprio super-herói ultra veloz tem outras preocupações no momento e contrata Peter Farley, antigo amigo de Barry, como seu advogado de defesa. Só que, claro, alguém tenta matar o sujeito, que fica bastante ferido. E é aí que sua sócia concorda, então, em substitui-lo. Trata-se de Cecile Horton e, se você for um espectador atento, vai sacar que este é o mesmo nome da personagem de Danielle Nicolet, a advogada que começa a namorar Joe West. Ou seja, até mesmo sua aparição na temporada anterior já servia como pista de que o julgamento tava a caminho. :)

Aí, o que não falta é treta pra tornar a coisa ainda mais complicada: é a Galeria dos Vilões tocando o terror em Central City enquanto o Flash tem que evitar dar as caras (e criando um novo supervilão, absolutamente esquecível, chamado Big Sir, que chega a espancar o herói a ponto de ele ficar praticamente irreconhecível); é Wally West/Kid Flash sendo chamado a depor e dizendo que não achava necessário que o Flash tivesse matado o Flash Reverso; e até a Cecile descobrindo que seu cliente é Barry Allen e justamente tendo a brilhante ideia de usar a identidade secreta do herói como testemunha de defesa (GENTE).

Eis que, no número 348, BOOM!, o júri decreta o herói como CULPADO, ao mesmo tempo em que o Flash Reverso retorna do mundo dos pés juntos. Tá complicado? Calma que fica pior: na verdade, as duas coisas (incluindo a volta anterior AND a morte do Reversinho) se revelam como sendo truques de hipnotismo do vilão futurista Abra-Kadrabra — pois é, aquele mesmo que apareceu ao final da temporada anterior da série e mencionou, de maneira aparentemente despretensiosa, o nome de DeVoe, alguém de quem ninguém do time Flash tinha ouvido falar antes.

E pra pirar geral DE VEZ, senhoras e senhores, um dos jurados era na verdade a Iris, que não estava morta! Nascida no futuro e enviada ao passado muitos anos antes (ou seria “depois”?), ela teve sua alma/essência absorvida e transportada de volta ao futuro por seus pais biológicos, que a colocaram em um novo corpo e então a mandaram de volta para limpar o nome do Barry. Verdade revelada pra todos, eis que então o veredito é modificado e o Flash é declarado inocente, feliz da vida não apenas por recuperar a confiança da galera mas também por ter o amor da sua vida de volta, depois de tanto tempo.

Só que nem deu tempo do pobre sujeito comemorar, porque a edição 350, que encerrou o Julgamento do Flash, também foi o último número de seu gibi antes do cancelamento. Sabe o que viria menos de um mês depois? Um pequeno evento chamado Crise nas Infinitas Terras, no qual o Flash morreu para salvar a realidade do colapso e passou décadas desaparecido do mundinho DC, sendo substituído de vez sob o manto por Wally West.

Ahn... e aí? Alguém aposta numa resolução minimamente similar pro julgamento da série?