Silenciosamente (mas não o suficiente), Disney resolveu tirar um daqueles ~erros de gravação de Toy Story 2 | JUDAO.com.br

Mais do que garantir que isso não apareça num filme, é importante garantir que não aconteça mais na vida real

Nos primeiros filmes da Pixar, os falsos bloopers / erros de gravação nos créditos finais de filmes eram uma espécie de marca registrada. As tais cenas falsas mostravam os personagens errando falas, brincando uns com os outros e falando com a câmera como se fossem atores reais, zombando de Hollywood e da própria indústria cinematográfica.

Enquanto boa parte era bem divertida, uma em específico brincou com um assunto bastante sério. Presente em Toy Story 2, a cena apresentava o personagem Stinky Pete, o mineiro, dentro de sua caixa flertando com duas bonecas Barbie, dizendo que poderia conseguir para elas uma participação no próximo filme enquanto acaricia as suas mãos. Quando percebe que está sendo visto pela câmera, ele fica visivelmente envergonhado e pede para as bonecas saírem, dizendo que elas podem voltar a qualquer momento para pegar algumas dicas de atuação.

Sendo mostrada como uma situação cômica, essa cena retrata um comportamento muito conhecido dentro da indústria do entretenimento em que homens em posição de poder pedem atos sexuais de subordinados em troca de alguma promoção ou oportunidades na carreira — o popularmente conhecido “teste do sofá”. Exatamente como as muitas alegações de má conduta sexual em Hollywood relatadas nos últimos anos, como parte do necessário movimento #MeToo.

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Lançado em 1999, Toy Story 2 saiu ANTES das discussões sobre assédio sexual se tornarem presentes na indústria cinematográfica. A própria Pixar enfrentou seus problemas envolvendo acusações contra John Lasseter, diretor de Toy Story 2 e peça importante do estúdio desde sua formação. Afastado permanentemente após uma licença prolongada, Lasseter era conhecido por tocar, beijar e fazer comentários inapropriados sobre as funcionárias do estúdio.

Em um memorando disparado internamente, o ex-diretor de criação da Pixar pediu desculpas por “equívocos” não especificados, reconhecendo que havia feito alguns membros de sua equipe se sentirem “desrespeitados e desconfortáveis”. Assistir a essa cena do mineiro Pete e pensar no comportamento auto-declarado de Lasseter gera um imenso mal estar... já que o filme foi dirigido diretamente por ele.

Apesar da prática não ser exatamente comum na Pixar, a Disney tem um histórico bastante longo de editar seus filmes após os lançamentos, principalmente histórias que contêm cenas, digamos assim, controversas. Oficialmente, portanto, nenhuma das duas empresas comentou a respeito mas, sim, aconteceu uma exclusão da cena nos novos lançamentos em Blu-Ray 4K, DVD e nos materiais digitais de Toy Story 2, já que o quarto capítulo da franquia tá aí, fazendo o maior sucesso.

A sequência também foi retirada de todos os canais oficiais da empresa – apesar de ainda estar disponível para quem quiser encontrar na internet, porque né?

Existe uma enorme quantidade de filmes e animações com mensagens tão equivocadas quanto essa, mas que nunca terão esse mesmo processo de exclusão ou edição. Não existe a possibilidade de excluir todas essas cenas já feitas, até porque muitas delas retratam um período específico bastante distante. Movimentos como #MeToo são justamente fundamentais para apontar o absurdo da normalização desse tipo de comportamento e, principalmente, nos lembrar que não podemos regredir.