Song to Song: não, não é só o Ryan Gosling cantando de novo | Judão

Novo filme do misterioso e poético Terrence Malick é um conto de “sedução e traição” na cena musical da cidade de Austin, não por acaso lar do festival SXSW

Pra quem acompanha a carreira do cineasta americano Terrence Malick, batizado certa vez pelo The Guardian como “o homem invisível do cinema”, chega a ser espantoso que, depois de A Árvore da Vida, de 2011, estejamos vendo ~tantos filmes do cara — até então, sua carreira de mais de três décadas tinha sido marcada por apenas cinco filmes realizados. Mas, a partir de 2011 ele colocou na rua Amor Pleno (de 2012, com Ben Affleck e Olga Kurylenko) e Cavaleiro de Copas (2015, estrelado por Christian Bale, Natalie Portman e Cate Blanchett), em um intervalo de tempo recorde para os seus padrões.

Um grande amigo crítico de cinema até tinha uma teoria maluca de que Malick não existia de verdade e, na real, era um Alan Smithee da vida, aquele apelido usado por diretores para assinar uma obra com a qual não estavam criativamente satisfeitos. Recluso, o camarada não frequenta premiações (nem aquelas nas quais seus filmes vão receber algum tipo de homenagem), tampouco pré-estreias (ele odeia tapetes vermelhos) e nunca gostou de dar entrevistas – a última foi oficialmente em 1973 – preferindo que suas obras falem por si.

No caso de seu filme mais recente, Song to Song, que chega às telonas americanas no dia 17 de Março, além de falar, sua película também vai CANTAR por conta própria.

Aqui, apesar de optar por um filme urbano, o que deve limitar as tomadas PLÁCIDAS da natureza que são uma de suas marcas registradas (como um fanático ornitólogo, o camarada ama cenas com pássaros), ainda assim Malick promete explorar aqui mais uma vez os temas filosóficos que lhe são bastante queridos, como a TRANSCENDÊNCIA individual, os conflitos entre a razão e o instinto e a eterna vontade de cair na estrada (literal ou figurativamente), deixando tudo pra trás.

“Ele tem a mais doce das vozes e é realmente um dos homens mais gentis que conheci”, afirmou ao Guardian o ator inglês Eddie Marsan, que trabalhou com Malick em O Novo Mundo, sua versão nada infantil para a a história da Pocahontas. “Ele é calmo, educado e charmoso, totalmente confiante no que faz. Ele pode falar sobre filosofia, política e pássaros com qualquer um, especialmente porque parece curtir a companhia dos atores. E ele parece estar sempre presente e focado naquele momento, sem se preocupar com o antes ou o depois”. Marsan conta ainda que Malick costuma escrever parte de seus diálogos no set de filmagem e já começa a filmar, estando o ator preparado ou não. “Ele gosta de filmar o máximo possível em luz natural, então temos apenas algumas horas pra fazer tudo certo”, conta, lembrando da parceria sempre brilhante com o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, o mesmo de Birdman, Gravidade e O Regresso, entre outros.

A trama desta vez é inteiramente ambientada na cena musical da cidade de Austin, no Texas, e mostra uma INTERSECÇÃO de triângulos amorosos entre dois casais. Um deles, formado por BV (Ryan Gosling) e Faye (Rooney Mara), dois compositores de indie rock tentando uma oportunidade na carreira; já o outro, compreende Michael Fassbender como o executivo e guru musical Cook, que se envolve com uma garçonete interpretada por Natalie Portman mas tá de olho em Faye enquanto começa a produzir o trampo de BV.

Como acontece na maior parte dos projetos de Malick, este é mais um daqueles de longa gestação: parte das cenas foram rodadas entre 2011 e 2012, durante os festivais Austin City Limits e Fun Fun Fun, ambos realizados na cidade que é também onde o cineasta reside atualmente.

E sim, conforme fica claro no trailer, Ryan Gosling tá cantando aqui também. Mas a parada toda foi rodada MUITO antes dele sequer imaginar fazer par com Emma Stone em La La Land e aprender a tocar piano num curso-relâmpago para viver o aspirante a jazzista.

“We thought we could just roll and tumble. Live from song to song, kiss to kiss”, diz a personagem de Mara em voiceover – outra parada que Malick AMA usar, aliás.

No trailer ao som de Runaway, hit do finado astro country Del Shannon, podemos ver a participação de músicos como os caras do Red Hot Chili Peppers e Iggy Pop – mas já se sabe que nomes como diversos como Florence Welch (do grupo Florence and the Machine), Patti Smith, Lykke Li, Arcade Fire, Iron & Wine, Black Lips e John Lydon (aka Johnny Rotten, vocalista dos Sex Pistols) também gravaram participações. Mas isso não quer dizer muita coisa, porque não se sabe exatamente o que vai resistir à edição final tantos anos depois.

Atores e atrizes como Holly Hunter, Val Kilmer, Benicio del Toro e Christian Bale, por exemplo, chegaram a ser vistos no set de filmagem. “Trabalhando com o Malick, você nunca sabe o quanto da sua performance vai ficar no produto final. E é preciso estar de acordo com isso”, afirma Bale, que já trabalhou duas vezes com o diretor (O Novo Mundo e Cavaleiro de Copas), em entrevista ao Collider. Para Song to Song, Bale gravou apenas durante três ou quatro dias, e portanto tem dúvidas sobre o quanto disso sobreviverá.

Aliás, quando Bale gravou, o filme ainda se chamava Weightless, sendo que originalmente, seu primeiro nome era Lawless. Mas este título original foi pessoalmente liberado por Malick para que John Hillcoat o utilizasse em seu filme, lançado em 2012, com Tom Hardy, Shia LaBeouf e Guy Pearce no elenco, batizado por aqui de Os Infratores.

Apropriadamente, a estreia oficial de Song to Song vai rolar na edição deste ano do South by Southwest (SXSW), conjunto de festivais de cinema, música e tecnologia dedicados à inovação e criatividade que acontece todos os anos ONDE? Ora, ora: em Austin. ;)

Song to Song vai abrir oficialmente as exibições cinematográficas do SXSW em 2017, no dia 10 de março, tornando-se portanto o local da estreia mundial do filme.

“Terrence Malick é um poeta cinematográfico reverenciado. Seu trabalho é um verdadeiro tesouro tanto por conta dos atores envolvidos quanto por sua visão”, diz Janet Pierson, diretora do festival de filmes, em comunicado oficial. “Ambientado em Austin, Song to Song nos garante a noite de abertura perfeita para o SXSW”.

Vale lembrar ainda que Song to Song não foi a primeira tentativa do Malick de se enveredar no mundo da música. Depois de Cinzas no Paraíso (1978), o diretor passou todos os anos 80 e grande parte dos anos 90 desaparecido da indústria hollywoodiana, retornando apenas em 1998 em Além da Linha Vermelha. Mas em certo momento deste “exílio”, ele chegou a ser contratado para escrever o roteiro de um filme sobre o músico Jerry Lee Lewis.

Seu trabalho, numa abordagem bem mais sombria (possivelmente focada em seu casamento com a prima e em seu subsequente período de declínio) do que aquela retratada em A Fera do Rock (1989), com Dennis Quaid e Winona Ryder, acabou nunca sendo usado... mas Malick ainda gosta bastante do resultado e o sonho de torná-lo realidade não foi esquecido.

Tanto é que, na época em que estava produzindo A Árvore da Vida, Brad Pitt também chegou a ser anunciado como produtor deste filme sobre o cantor de Great Balls of Fire, com um papel oferecido pra Natalie Portman (que trabalharia posteriormente em outros dois filmes com Malick) e tudo mais.

Não rolou? Não. Não tivemos mais notícia a respeito? Não. Mas isso quer dizer que o projeto morreu definitivamente? Em se tratando de Malick, ainda é muito cedo pra dizer.