A Space Tale: uma história que usa GIFs pra misturar animação e HQ | Judão

Criação do designer gráfico brasileiro radicado na Inglaterra Rafael Aflalo, história foi feita para ser lida em formato digital, seja lá qual for o seu aparelho ;)

Recurso fácil pra dar aquele talento nem sempre muito bom aos olhos nos primórdios da internet, os GIFs ganharam vida renovada com as redes sociais e se tornaram os queridinhos da galera que talvez prefiram se comunicar sem escrever nenhuma palavra. Aí, o designer Rafael Aflalo, nascido e crescido em São Paulo, resolveu ir além dos gatinhos, catioríneos e respostas sarcásticas extraídas do seu filme ou série favorita e usou os GIFs como a base para contar uma história em quadrinhos. Esta é a ideia por trás de A Space Tale.

Disponível para leitura (ou quase isso) gratuitamente no site ASpaceTale.com, a história é uma espécie de graphic novel animada que mistura a dinâmica de leitura de quadrinhos com animação, tudo usando como suporte um monte de GIFs. “A história joga com o conceito de ações repetitivas”, explica Rafael, em entrevista ao JUDÃO, lembrando que a trama reflete a natureza humana, de muitas vezes ceder à tentação e repetir o mesmo erro continuamente – e ficar preso em ciclos viciosos. “O leitor/espectador segue a jornada de um astronauta tentando escapar de um planeta árido, enquanto é perseguido por uma criatura que não vai desistir até alcançá-lo”.

É uma história sobre as consequências das nossas decisões

Foram decisões de Rafael, pouco fáceis de tomar, que o levaram a este projeto, aliás. Trabalhando há mais de uma década como designer gráfico para o mercado publicitário, ele chegou a desenvolver uma exposição e inclusive clipes de bandas locais. “Tive até uma loja online de longboards e fui sócio de um aplicativo de gerenciamento de filas. Mas o que pagava as contas mesmo eram animações para publicidade”, explica. Depois de fazer uma centena de anúncios todos meio parecidos, o cara resolveu chacoalhar as coisas e, em 2015, se mudou de mala e cuia pra Londres, onde foi fazer um mestrado em animação e recomeçar tudo do zero. “Eu e a minha noiva decidimos ficar por aqui mais um tempo e aprender com o mercado local, que está em um patamar de qualidade altíssimo”.

As sementes de A Space Tale, no entanto, tinham sido plantadas muitos anos antes, quando um amigo o procurou querendo montar uma publicação em quadrinhos para iPad e estava convidando artistas para colaborarem com histórias. “Logo pensei nas possibilidades que criar uma história em quadrinhos digital podia trazer. Som? Movimento? Nos livrar do formato tradicional da página? O projeto esfriou, mas a ideia ficou guardada no fundo da cabeça”, conta. Aí, quando surgiu o desafio de fazer o temido projeto final pro mestrado, pimba, ele resgatou a ideia original e fez um mexidão de gibi com desenho animado.

“Comecei o projeto sozinho, explorando referências e as limitações da tecnologia. Tive o prazer de conhecer o Stephen Deas, escritor e roteirista, e juntos sentamos para ajustar o andamento da história”, revela. Por vezes eles usavam conceitos do mundo dos quadrinhos e outras vezes da linguagem cinematográfica porque, afinal, a história precisa funcionar somente com movimentos que podem ser contínuos. “Se alguém atira no outro e a pessoa morre, não dá pra repetir a ação mil vezes. Precisamos escolher bem quais ações contavam a história. Só depois de termos certeza que a história funcionava é que eu passei a esboçar qualquer tipo de arte”.

Mas aí entrava outra questão: o traço tinha que ser expressivo, mas levar em conta que não podia ser muito detalhado, pois o prazo de produção era curto – e animação, como bem sabemos, é um processo demoraaaaaaado. “Eu também tinha que levar em consideração a compressão dos arquivos. Se eu trabalhasse com coisas muito complexas, corria o risco de perder os detalhes na hora de transformar em GIFs leves. A solução foi trabalhar com preto e branco e usar personagens BEM simplificados, sem muitas texturas”, contextualiza o autor.

Além de se inspirar no Flash Gordon de Alex Raymond, na árdua e ao mesmo tempo deliciosa tarefa de inventar mundos, seus habitantes e suas criaturas, eles explica que, visualmente, suas principais influências foram a arte do George Herriman (Krazy Kat), que era um mestre em criar paisagens com duas ou três manchas e traços. “Esse cara é o herói do Bill Watterson, do Calvin & Haroldo, por exemplo”, afirma. Os traços também tiveram influência do Phil Mulloy, animador inglês responsável por grande parte da identidade visual lisérgica da MTV nos anos 80 e 90, que trabalha com manchas bem expressivas. “Caiu como uma luva na linguagem eu que procurava”.

Para o processo de animação, que levou uns 3 meses, ele contou com a ajuda de cinco alunos do primeiro ano da graduação, permitindo que tirasse de suas costas cerca de 40% do trabalho de animação. “Por fim chamei um amigo de longa data, o Rafael Lohn, para me ajudar a garantir que a experiência ia funcionar bem em diferentes plataformas e devices. O projeto acaba sendo assinado por mim, mas a realização não seria possível sem essa turma talentosa”, diz.

Embora até acompanhe o trabalho de quadrinistas que publicam na web e usam outros formatos que não sejam, necessariamente, a página dura, colada como imagem, que sabem converter os recursos da web a favor da narrativa da história – tipo um Scott McCloud da vida – Rafael diz que tem ressalvas sobre estes trampos. “Li bastante coisa do McCloud há algum tempo, mas confesso que me liguei mais nos livros tutoriais dele do que no trabalho online. Me incomodam um pouco projetos digitais que demandam demais de interação”, diz. Segundo ele, toda vez que precisa fazer um escolha, uma interação, cai a suspensão da descrença, você lembra que está na frente do computador e a imersão necessária vai por terra.

Justamente por isso, ele acredita que não dá pra comparar A Space Tale com coisas como o trabalho do Roy Woodward (Bottom of the Ninth), uma história digital exclusiva para iPads, ou o Gif-Novel do Dennis Cooper, Zac’s Haunted House. “Essas histórias têm muitos elementos interativos. Em vez de procurar a interatividade, eu quis me manter o mais fiel à experiência dos quadrinhos, na qual o movimento contínuo – no papel, o virar das páginas, no meu projeto o correr para baixo – lentamente dirige a imersão do leitor”.

Rafael diz que o retorno que começa a receber dos leitores tem sido muito positivo e, curiosamente, as pessoas se apegam a elementos distintos. “Alguns pela animação, outros pela ficção científica, outros pelos quadrinhos. Por ser um híbrido entre HQ e filme, ele está em uma categoria pouco usual, e aí cada um se relaciona com a parte que mais toca a sua experiência passada”.

Mas esta história espacial, do astronauta ainda sem nome, não vai parar nos GIFs porque, segundo ele, o projeto sempre teve a ambição de passear em diferentes mídias. Ele nos conta, por exemplo, que está trabalhando para levar para o circuito dos festivais de animação, ainda este semestre, uma versão curta-animado de A Space Tale. “Esse curta vai usar muito do material original, mas ao transpor para outro meio, muitos elementos precisam ser adaptados – além do fator som!”. O criador também estuda como levar a aventura a uma publicação impressa. Mas hein?! “Tudo com uma abordagem bem diferente do livro tradicional – mas isso ainda é segredo! Se der tudo certo, mando uma cópia pra vocês”.

Tamos esperando. ;D