Spielberg e James Bond: Estivemos próximos da catástrofe e nem sabíamos | Judão

Descubra o mundo triste e cinza que a gente se livrou de conhecer

Essa é uma história conhecida em Hollywood e que há anos perturba o sono de muitos fãs: Steven Spielberg tentou dirigir um filme de James Bond.

Ele se ofereceu para o cargo ao produtor todo poderoso da franquia 007 Albert “Cubby” Broccoli. Não ter sido aceito criou tal frustração em Spielberg que ele se aliou ao camarada George Lucas para criar Indiana Jones.

O impacto disso na cultura popular, na história do cinema e nas carreiras de Spielberg, Lucas e Harrison Ford a gente já sabe.

Mas e se Broccoli tivesse aceitado a oferta do então diretor iniciante e Spielberg tivesse dirigido um filme de 007? O que teria acontecido? Vamos chamar o Vigia da Marvel e visitar esse universo alternativo juntinhos?

Não existe muita precisão sobre o momento exato em que Spielberg se ofereceu para comandar uma aventura de James Bond. Algumas fontes apontam para o comecinho dos anos 70, logo após o diretor ter sido revelado com o telefilme Encurralado. Outras, indicam que isso aconteceu após ele estourar de verdade com o mega hit Tubarão, em 1975. Há também quem diga que o fato deu-se após Contatos Imediatos de Terceiro Grau, em 1977.

Sabemos que durante muito tempo os produtores de 007 preferiram ter diretores menos “autorais” em seus filmes. Assim, poderiam manter maior controle sobre o resultado final. Então isso poderia ser um motivo plausível para a negativa de Broccoli sobre Spielberg, certo? O talento dele seria grande demais para rivalizar com o mão de ferro do produtor.

Porém, o que circula é que Broccoli não teria topado por ter ficado em dúvidas sobre a capacidade de Spielberg como diretor. Isso pode dar uma pista. Seria estranho o produtor questionar o talento de um cara que tinha mudado para sempre o cinema de entretenimento com dois dos principais filmes da história.

Assim, parece mais certeiro afirmar que a oferta de Spielberg a Broccoli teria se dado após Encurralado, provavelmente em meados de 1972. Então é dessa versão dos fatos que vamos partir.

Em 1973 chegava aos cinemas o filme de James Bond dirigido por Steven Spielberg.

Ainda sem muita moral, o diretor provavelmente teria que aceitar a maioria das decisões dos produtores. Para começar, nada de escrever roteiro ou sequer argumento por aqui. O mais provável é que a gente tivesse um filme bem parecido com Com 007 Viva e Deixe Morrer, lançado em 1973.

Viva e Deixe MorrerO problema é que esse filme foi dirigido pelo experiente Guy Hamilton, pela terceira vez no comando de um filme de James Bond, tendo sido inclusive o responsável pelo clássico Goldfinger.

Apesar do frissón causado por Encurrado, Spielberg ainda era um diretor muito cru nessa época. O esquecível Louca Escapada, de 1974, é a prova disso. Esse filme seria, aliás, a primeira baixa na nossa realidade alternativa. Não faria muita falta.

Dessa forma, a presença de um diretor cru, com pouca voz no set e precisando trabalhar com rédeas curtas teria sido mais prejudicial que benéfico para o filme.

“Com 007 Viva e Deixe Morrer” seria um filme pior nas mãos do Spielberg de 1973.

Por outro lado, Spielberg era um nome que começava a chamar atenção nessa época, especialmente da imprensa especializada. Isso poderia servir como um atrativo para o filme, sendo utilizado como marketing. Um franquia já aquela altura com mais de 10 anos de estrada ganharia não só um novo protagonista como o sangue novo de um diretor promissor.

Aliás, certamente Roger Moore ainda seria atrelado ao projeto, já que ele foi uma escolha dos produtores para substituir Connery.

Lançado o filme, teríamos dois cenários. Sucesso ou fracasso. O fracasso teria sido duro para o diretor iniciante. É bem mais complicado fracassar sob tantos holofotes e gastantando mais de US$ 7 milhões (orçamento de Com 007…) do que com o menos ambicioso e mais barato Louca Escapada, como aconteceu na vida real.

Desacreditado e com um flop tão chamativo nas costas, Spielberg não conseguiria fazer Tubarão em 1975.

Caso o 007 de Spielberg fosse bem sucedido, ele provavelmente iniciaria uma parceria mais longa com Broccoli. Os produtores da franquia de James Bond sempre valorizaram relações de longo prazo com seus diretores, especialmente nesta época.

Ou seja. Mesmo com o sucesso, nada de Tubarão em 1975.

Tubarão

A inexistência de Tubarão teria consequências relevantes para a indústria. Esse foi o filme que ajudou a criar conceitos que hoje são indissociáveis do cinema. O filme de verão, o high-concept, a estreia massificada em muitas salas ao mesmo tempo.

Tubarão mudou o cinema dali para frente.

Claro que dois anos depois Star Wars provavelmente teria o mesmo efeito que Tubarão. Mas talvez George Lucas tivesse mais dificuldades ainda para colocar seu projeto de opera espacial de pé sem a forcinha de Tubarão para mostrar que o cinema de entretenimento puro e simples era rentável.

Aliás, sem Tubarão não teríamos Alien. Ridley Scott notoriamente vendeu seu filme como “Tubarão no espaço”, garantindo o dinheiro para produzir seu terror especial. E não precisamos nos alongar sobre a falta que Alien faria para a ficção científica.

Dificilmente um cara como Spielberg restringisse demais a sua carreira após passar por 007. Falhando ou sendo bem sucedido, ele provavelmente retomaria o curso normal e ocuparia o mesmo lugar de destaque que ocupa hoje.

Porém, talvez ele fosse um diretor menos “mágico”.

A ida de Spielberg para a franquia James Bond também teria como vítima Contatos Imediatos de Terceiro Grau, que provavelmente não seria realizado por pura falta de tempo do diretor. E isso certamente significaria a morte de ET, filme que nasceu após sua experiência com o tema de alienígenas do pequeno clássico de 1978.

Pensa na morte do ET!

Acontece que um mundo sem ET seria, muito provavelmente, também um mundo sem Amblin. A produtora criada por Spielberg e pelos produtores Kathleen Kennedy e Frank Marshall até foi oficialmente fundada em 1981, um ano antes do lançamento de ET. Porém, foi o filme do alienígena feioso que abarrotou os cofres da produtora de dinheiro. Lembre-se que ele está até no logo da Amblin.

AmblinSe ET não tivesse acontecido, talvez a Amblin não tivesse se consolidado e fosse apenas uma aventura passageira entre amigos. Uma das produtoras mais importantes para o cinema dos anos 80 e 90 seria um desfalque e tanto. A Amblin serviu como um ponto de encontro para talentos como Robert Zemeckis, Richard Donner, Joe Dante, Barry Levinson e Brad Bird. Além, é claro, de Kennedy, Marshall e Spielberg. Pessoas que mudaram para sempre o cinema de entretenimento.

Saca só a lista de filmes que estaria ameaçada pela não existência da Amblin: Gremlins, Os Goonies, De Volta para o Futuro, Uma Cilada para Roger Rabbit, Jurassic Park

Medo.

Mas a grande vítima dessa nossa realidade alternativa é a mais óbvia: Indiana Jones.

O arqueólogo surgiu como uma forma de Spielberg compensar não ter feito James Bond. Apesar de personagens distintos em muitos aspectos, existe entre eles uma semelhança de espírito inegável.

A ausência de Indiana Jones no cinema nos privaria de três dos melhores filmes de aventura de todos os tempos. E também de uma pequena decepção alguns anos depois, é verdade.

Não teríamos visto um monte de imitações baratas de Indi nos anos 80. E não teríamos Lara Croft nem Uncharted.

Harrison Ford também não seria o astro que é. Sua persona heróica foi forjada nos filmes de Indiana Jones. Após sua revelação como Han Solo e o sucesso de Blade Runner, talvez ele ficasse mais associado ao cinema de ficção científica. Certamente ele não seria o ícone dos cinema dos anos 80 que se tornou graças, em grande medida, ao arqueólogo.

Mas nada disso é tão triste quanto o fato de que nenhum moleque teria descolado um chapéu e uma corda fazendo as vezes de chicote para imitar Indiana no quintal de casa.

Então vamos recapitular as baixas: nada de Tubarão, Gremlins, Contatos Imediatos, ET, De Volta para o Futuro, Alien, Indiana Jones… Ou seja, aproveite que você leu até aqui e comemore comigo o fato de o falecido Cubby Broccoli não ter aceitado Spielberg para dirigir James Bond.

A cultura pop e a nossa infância agradecem.

ET

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