Star Trek: Discovery é uma grande lição sobre como o fascismo não pode vencer | Judão

Apesar das críticas de alguns, primeira temporada da série tem o mesmo peso para o mundo de hoje que a versão original tinha nos anos 1960 – e o final é uma justa homenagem a todo este legado

SPOILER! Depois de 15 episódios, fica difícil escolher por onde começar a falar sobre Star Trek: Discovery, que acaba de encerrar a primeira temporada. Poderia falar dos fãs mais tradicionalistas, que criticaram elementos como a atualização visual da produção ou o motor de esporos. Poderia falar sobre como a produção foi um sucesso de audiência – que trouxe um recorde de assinaturas para o CBS All Access nos EUA e botou a série entre as mais assistidas por lá, considerando TV aberta e streaming.

Star Trek: Discovery, em sua primeira exibição, já é um sucesso muito maior do que a série original foi em sua época – já que a criação de Gene Roddenberry só foi ser entendida (e fazer sucesso) nas reprises que vieram depois.

Mas, sinceramente, tudo isso é apenas reflexo de uma história bem contada.

Tudo começa com a escolha por lidar com a guerra. Normalmente, tirando algumas exceções, as séries de Jornada nas Estrelas levam mais a exploração espacial e uma guerra fria como regra para as suas histórias (é só lembrar, por exemplo, do clássico episódio Balance of Terror). Porém, logo no primeiro episódio, Discovery incendeia uma treta contra os Klingons dez anos antes da série original.

Em seguida, entrou a cereja do bolo: o Universo Espelho.

Se você não é um Trekker, é bom contextualizar. O Universo Espelho surgiu na segunda temporada de Jornada nas Estrelas clássica, inicialmente como uma ideia do roteirista Jerome Bixby. Inspirado com o conceito de universos alternativos, ele veio com uma história que pudesse ser um desafio interessante para os atores da série, no qual eles poderiam interpretar versões diferentes dos personagens que viviam há um ano e meio.

Depois de uns retoques de D.C. Fontana (Dorothy Catherine Fontana, que assumiu esse nome artista porque, bom, anos 60), o roteiro caiu nas mãos de Roddenberry. E foi aí que surgiu uma ideia sensacional. Star Trek é, de forma geral, uma mensagem otimista do universo, com uma união entre diferentes raças em uma única Federação e com uma Tropa Estelar com uma missão, primariamente, pacifista. Porém, no Universo Espelho, Gene viu a possibilidade de retratar uma sociedade fascista – em uma analogia aos países que sofriam com ditaduras militares do tipo. Um Império Terráqueo no qual o medo é a lei.

Assim surgiu Mirror, Mirror, um dos melhores episódios de Jornada nas Estrelas.

Corta para 2018. A nova série não só usou o conceito do motor de esporos (que é, sim, uma ótima ideia – afinal a ciência evolui para um misto de biologia e tecnologia, fora toda a alegoria sobre o uso de animais em testes) para não só levar a Discovery para o Universo Espelho como, em um dos seus melhores twists, revela que o capitão Gabriel Lorca era, desde o começo, a contraparte do universo invertido. UAU.

Agora, pensa comigo: a nave mais avançada da Tropa, com a missão de descobrimento em seu nome, pacífica em primeiro lugar, não só virou uma arma de guerra, mas descobrimos que estava sendo controlada o tempo todo por um fascista bélico. Eu deixo você fazer os paralelos com o mundo real.

Porém, o mais chocante não é conhecer o Universo Espelho, mas ver o retorno da USS Discovery para o Universo Prime nove meses após sua partida, em um momento no qual a Federação está quase derrotada e os Klingons estão tocando a campainha da Terra. Uma situação que faz a Federação se tornar agressiva, ordenando um ataque à Qo’nos, o planeta natal da raça inimiga. E com uma Discovery comandada pela versão espelho da capitã Philippa Georgiou.

Se antes o capitão fascista havia enganado os outros, agora eram os próprios ditos como pacifistas que colocaram a Georgiou espelho no comando. Mais metáfora. E é aí que entra outro acerto de Star Trek: Discovery: Michael Burnham. Uma humana que teve a vida marcada por Klingons, criada por Vulcanos e que se vê apaixonada por uma espécie de híbrido da raça que mais odeia. Se nos primeiros episódios, em nome da lógica, ela acaba causando uma guerra, todos os acontecimentos da primeira temporada transformam a personagem. Com a razão aliada ao coração, Michael consegue por um fim ao conflito quando seus superiores mais falharam.

Cada diálogo entre ela e o pai adotivo, Sarek (que vem a ser, também, o pai do Spock) é daqueles para nos fazer pensar. Uma das lições que mais me pegou foi dita pelo Embaixador no penúltimo episódio, antes dele se despedir da filha adotiva: “Não se arrependa de amar alguém, Michael”.

E é essa Michael, que tenta não mais se arrepender de suas emoções, que faz o derradeiro discurso desta última temporada, após a USS Discovery resolver o conflito. “A única forma de derrotar o medo e lhe dizer ‘não’. Não, nós não pegaremos atalhos para o caminho da justiça. Não, não infringiremos as regras que nos protegem de nossos instintos selvagens. Não, não permitiremos que o desespero destrua a autoridade moral. Eu sou culpada de todos essas coisas. Alguns dizem que, na vida, não há segundas chances. A experiência diz que isso é verdade. Mas só podemos olhar para frente. Nós temos que ser portadores da chama, iluminando, para podermos enxergar nosso caminho para uma paz duradoura. Sim, essa é a Federação dos Planetas Unidos. Sim, essa é a Tropa Estelar. Sim, isso é o que somos. E quem sempre serenos”.

E como identificar o medo? Michael contou logo no começo do episódio: ele fala muito rápido e muito alto. Reconheceu? Não adianta chorar pelo leite derramado. Como ela diz, não temos segundas chances. Mas não podemos baixar a cabeça e aceitar o medo. Precisamos ser os portadores da chama.

Parecia que este era o fim perfeito. Uma mensagem de esperança em meio a escuridão – com Star Trek sendo mais importante do que nunca. Mas aí veio o final. Uma nave estelar pedindo ajuda para a USS Discovery. Numa tela, aparece o número de registro NCC-17... No rádio, frequência de saudação. É o capitão Christopher Pike do outro lado.

Sim, senhoras e senhores, é a USS Enterprise. Porque, afinal, apenas a esperança e a luta pela justiça poderão nos levar aonde audaciosamente onde nenhum homem (e mulher) jamais esteve. Demora muito pra segunda temporada? :)