Consistente e excelente, Star Trek: Discovery encerra seu 2o ano como uma das grandes séries da atualidade | JUDAO.com.br

Num mundo como o de hoje, a série fala com mais clareza, tempo e profundidade, explorando o humano, o político e o insano do qual a vida de qualquer pessoa é feita

SPOILER! Jornada nas Estrelas é um bastião da ficção científica tão importante que é impossível imaginar onde o gênero estaria sem a saga. Não só isso: tendo iniciado tantas revoluções na telinha e inspirado gerações de crianças a se interessarem por ciência (NECESSITAMOS), criado ícones e estabelecido linguagens, a série original, os filmes e todas as versões que vieram depois estão firmemente encaixados num lugar de honra no imaginário coletivo.

Nossa cultura pop, quer seja pelo lado filosófico, pelo kitsch ou pelo revolucionário, deve bastante à saga de Kirk, Spock, McCoy e efeitos especiais ruins.

Depois da última série (Enterprise, que terminou em 2005), no entanto, Jornada ficou esperando lá na prateleira das propriedades intelectuais até o J.J. Abrams fazer a sua renovação com o filme de 2009, duas continuações e o péssimo uso de Benedict Cumberbatch. O sucesso dos filmes mostrou que havia como trazer a série de volta às telinhas — só precisavam achar o ângulo certo. Star Trek: Discovery estreou no CBS All Access, aqui no Brasil pelo Netflix, e nos entregou uma primeira temporada não só interessada em dar passos firmes em direção ao futuro, mas em nunca esquecer os princípios que fizeram tantos ~nerds sonharem, mesmo que de maneira um pouco inconstante.

O primeiro grande trunfo de originalidade, boas sacadas e um pouquinho de retcon vem com a protagonista. Com a criação de Michael Burnham, papel de Sonequa Martin-Green, a série quis estabelecer parâmetros para os novos tempos. Uma mulher negra liderando o elenco; uma humana que é meia-irmã de Spock; e o mais impactante para o formato da nova incursão da saga: finalmente alguém que não é capitão de absolutamente nada.

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Ao colocar o protagonismo em alguém sem um papel de autoridade (ou o que quer que o capitão Kirk tinha), a série abre caminhos para alcançar a humanização de mais personagens, criar conflitos mais “pé no chão” e até escapar um pouco da afetação quase militarística que afastava parte do público. Nossa heroína começa a série como uma pária. Idealista, inteligentíssima e praticamente responsável por iniciar uma guerra sangrenta, Burnham tem que escalar uma montanha de confiança antes de se tornar mesmo uma oficial da Frota Estelar.

Sem falar do capitão Lorca, papel de Jason Isaacs. Aqui vemos um pequeno paradoxo criado pela “solução da virada” no final da primeira temporada. Lorca é uma adição curiosa ao hall de comandantes das séries especialmente por seus parâmetros éticos — ele não tem medo de trapacear, jogar areia nos olhos, chutar a canela e explodir NACELES para atingir seus objetivos. No começo da temporada, sua moralidade ambígua trouxe à série algo não muito comum. Uma humanidade não tão evoluída, mais próxima do nosso padrão “Século XXI” de mesquinharia e paranoia (algo que estava presente nos filmes de J.J. Abrahms). Um capitão moralmente falho trouxe soluções contundentes aos dilemas clássicos que a série queria alcançar.

E aí no final descobrimos que ele é “falho” basicamente porque vem de um universo paralelo, onde “as pessoas são más” (estou resumindo BASTANTE, ok?). Enquanto enfraqueceu muito o approach original da primeira temporada aos temas, a própria Michael nos lembra num belo discurso que Jornada Nas Estrelas é mesmo uma fantasia, mas uma daquelas muito necessárias – precisamos lembrar do que somos capazes, no bom sentido. A Frota Estelar deve ser um ideal, um alvo para onde possamos apontar nossa humanidade.

A segunda temporada então decide abordar alguns dos mesmos temas, incluindo aí a imperfeição do ser humano e suas falhas morais, com ângulos um pouco diferentes (e bem de leve, com a seção 31). Foca mais em falar de opressão, amor, dever, família e amizade daquelas maneiras que só uma série sobre saltos de dobra e alienígenas pode.

E finalmente chegamos no que nos era prometido: Spock está lá. Embora passe metade da temporada transformado num inalcançável McGuffin, ele assombra praticamente tudo. Exploramos a infância de Michael como a irmã adotiva de Spock e os contrastes que filhos de diferentes culturas podem trazer à uma família. Burnham precisa encontrar Spock “antes que seja tarde”, enquanto precisa também descobrir porque sinais vermelhos estranhos estão aparecendo aí pela galáxia.

Para trazer à vida aquele que é discutivelmente o maior ícone do Sci-Fi, a produção escalou o ator Ethan Peck, e a primeira surpresa é a escolha dele em não buscar imitar os trejeitos ou a voz do eterno Leonard Nimoy. O Spock de Peck está passando por uma crise mental intensa, e aos poucos vai se adequando à estoicidade mais reconhecida do personagem. Só que o faz de uma maneira bem própria. Esse Spock é um Spock com outros problemas (e outras soluções), e não ter somente feito uma imitação de uma das atuações mais icônicas da TV é um dos pontos altos da temporada.

A trama tem suas viradas surpreendentes, suas viradas óbvias, seus momentos de perda e de pesar. Desde o começo, Discovery não foi pela clássica vertente de uma série procedural (onde todo episódio é separado e fechado), já que o formato dificilmente sobreviveria à era do binge. Mesmo com episódios mais “fechados”, a série sempre serve à uma narrativa de temporada inteira.

Só que o trunfo aqui é o foco nos personagens. Os conceitos (bem interessantes, aliás!) de Sci-Fi, o technobabble, o “vamos colocar esse cristal do tempo num reator de prótons que vai rebimbocar o fluxo de dobra para consertar os canos da parafuseta”, ficam pro segundo e pro terceiro plano. O palco central aqui é para Michael tentar encontrar sua própria personalidade a partir de seu posto, sua família, suas perdas. É Ash Tyler (Shazad Latif) tentando definir quem realmente é a partir dos dois mundos que habita. O engenheiro Stamets não só tem que lidar com o luto de ter perdido seu marido, mas com a noção de tê-lo de volta, e mesmo assim não poder recuperar o que tinha antes. Até mesmo a capitã Georgiou (Michelle Yeoh, talvez a atuação mais inconsistente durante a temporada), vinda do universo evil, precisa admitir que tem um coração.

Numa transformação surpreendente, o comandante Saru (papel do camaleão Doug Jones) não só consegue se desprender daquilo que melhor define sua raça – o medo – como consegue fazer toda a sua espécie evoluir para além da sua própria biologia, expurgar o medo instintivo que tinham, e dominar seus opressores numa revolução muito mais profunda do que somente um levante social.

E, no melhor estilo “nova temporada, novo capitão”, ganhamos um presente com Anson Mount e seu Capitão Christopher Pike, que precisa lembrar porque é quem é, porque escolheu essa vida, mesmo com os perigos e a morte certa no futuro. Na série clássica, ele era o capitão da Enterprise antes de James Kirk, precisando ser substituído quando um acidente deixou-o preso a uma engenhoca sci-fi dos anos 60. Aqui estamos vendo um Pike anterior à tudo isso. E como é martelado algumas vezes na temporada, ele representa o melhor que a Frota pode oferecer. Mount traz à série doses sem precedentes de charme, humor, nobreza e leveza, e vai deixar muitas saudades ao sair da série agora que a segunda temporada acabou.

A série fala de viagem no tempo, Inteligência Artificial Maligna, nanorrobôs, guerras interplanetárias e raios laser, mas quer mesmo conversar sobre identidade. Sobre não só lutar para construir a sua própria, mas como o mundo ao redor esculpe quem somos, e qual a nossa responsabilidade diante disso. Perante nós mesmos, perante o universo.

Não são temas exatamente novos à saga de Jornada nas Estrelas, mas num mundo como o de hoje, e com o formato da série permitindo um foco mais constante sobre o assunto, a série fala com mais clareza, tempo e profundidade. Faz as perguntas mais pertinentes e explora o humano, o político e o insano do qual a vida de qualquer pessoa é feita. E isso, meus amigos, é a razão pela qual a ficção científica não só é útil, mas é necessária. Para ajudar nosso imaginário, e até mesmo nossos padrões morais e filosóficos, a evoluir. “Uma vida entre as estrelas é resignar-se a deixar coisas para trás”.

Mesmo com alguns deslizes, a segunda temporada de Star Trek: Discovery é consistente (bem mais que a primeira) e excelente. Chega num equilíbrio de fan service, ideias novas, personagens carismáticos, aventura e inteligência bastante inesperado. Star Trek sempre teve uma relação complicada com sua própria popularidade (vamos todos lembrar que a série clássica foi cancelada depois de três temporadas), e atrair um público novo é bem diferente de atrair um público velho. Discovery fez ambos.

E vamos aplaudir a coragem do final? Se realmente forem atrás de fazer o que estão prometendo, teremos (pelo menos o começo de) uma terceira temporada tão diferente que, finalmente, um cliffhanger faz o que foi criado para fazer: nos deixou ansiosos por mais.

Se Game of Thrones não se cuidar, a série do ano não terá zumbis e dragões, mas sim klingons e phasers.