Star Trek: Discovery já começa em velocidade de dobra | Judão

Nova produção, que se passa dez anos antes da série clássica, reaproveita elementos do passado enquanto introduz novas (e interessantes) dinâmicas para a franquia

O espaço. Mais de 12 anos após o fim de Enterprise, ele volta a ser a fronteira final da TV ou algo assim. É que ontem, 24, estreou nos EUA a série Star Trek: Discovery, disponível em todo o resto do mudo já a partir de hoje (25) via streaming. Como você pode perceber, esta primeira frase já deixa claro que muita coisa mudou para a franquia.

Como já comentamos aqui no JUDÃO, Discovery representa um novo formato de distribuição para Jornada nas Estrelas. O primeiro episódio foi exibido na TV aberta no domingo, como grande porta de entrada para o novo serviço de streaming do canal, que trouxe o segundo episódio logo após o final do primeiro no canal linear. Para o resto do mundo, o Netflix comprou os direitos de distribuição – garantindo, também, uma boa verba logo de cara.

Isso fica claro também nas diferenças entre esses dois capítulos. O primeiro traz atos bem definidos e delimitados, com cortes e pequenos cliffhangers para a entrada dos intervalos comerciais. Já o segundo episódio é fluído, sem cortes, como convém ao streaming – apesar de ser curto, com apenas 39 minutos.

A nova aventura espacial começa exatamente em um domingo, 11 de maio de 2256 – numa das raras vezes que um capitão (ou, no caso, capitã: Phillipa Georgiu) cita o ano da Era Comum em seu diário. Uma década exata antes da missão de cinco anos da série clássica de Star Trek, com Kirk, Spock, McCoy e companhia, que começa em 2265. Há, ainda, a informação que não é dita na tela, mas confirmada pelos produtores: Discovery se passa dentro da cronologia original, chamada de Prime, e não da Kelvin – iniciada pelo reboot de 2009 nos cinemas.

Não precisa se preocupar com esse último detalhe: as duas timelines são intimamente ligadas, numa grande sacada de JJ Abrams e seus companheiros. Todos os acontecimentos de uma levam a outra, então tudo acaba se transformando como parte de uma mega história.

E é aqui também que entra outra inovação para a franquia: tirando Deep Space Nine, normalmente as séries e filmes de Jornada nas Estrelas se ancoram em uma nave importante da Frota Estelar da Federação dos Planetas Unidos, com seu capitão ou capitã, junto com importantes membros da tripulação, servindo como protagonistas. Não é isso que Discovery faz: os dois primeiros episódios são claramente para introduzir uma única grande protagonista, Michael Burnham (Sonequa Martin-Green), a Número Um da USS Shenzhou. Todos os acontecimentos e ações estão lá para definir a personalidade de Burnham, além deixar pontas que serão aproveitadas no decorrer da série.

Para você ter uma ideia da importância da Michael, ainda não vimos após dois episódios a nave USS Discovery, aquela que dá nome à série.

A protagonista

SPOILER! Ainda vimos pouco, mas ouso dizer que Michael é um dos personagens mais interessantes da história de Star Trek. Uma criança humana que perdeu a família nas mãos dos Klingons, que foi adotada pelo Embaixador Sarek (o pai do Spock) e criada na cultura Vulcana. Ao ver a protegida afastada de suas próprias origens, Sarek levou Michael até a Shenzhou para ser discípula da capitã Phillipa. Isso há sete anos.

O resultado dessa mistura é uma protagonista que acessa a razão e a lógica, como qualquer Vulcano, mas que não esconde suas emoções e vontades. É algo que coloca a personagem em uma área cinzenta, que já leva a lugares interessantes logo no piloto – e que lembra, de certa forma, as atitudes do quase-irmão Spock no clássico episódio duplo The Menagerie, quando ele é julgado por motim.

Também fica claro que os Klingons serão os grandes vilões da série, afinal trazem uma íntima e trágica relação com a protagonista. Isso numa época, de acordo com a cronologia oficial, na qual esses aliens viviam uma verdadeira guerra fria contra a Federação.

A protagonista de Discovery é uma mulher dividida entre dois povos e suas diferentes culturas, e também assombrada pelos Klingons.

Discovery, a série, acerta não só com a mudança de foco em seu começo. Fica claro que o ex-showrunner Bryan Fuller, que escreveu esses dois primeiros capítulos, se empenhou em unir o que a franquia tem de melhor em um só produto. Há as referências científicas e, principalmente, táticas: a luta entre a Frota e os Klingons é cheia de idas e vindas, de mudanças táticas e de estudos do inimigo. É algo que a tripulação clássica (na série e nos filmes) e a Nova Geração faziam muito bem. Por outro lado, temos bastante ação e ótimos efeitos especiais, além de uma fotografia e edição que lembram bastante os toques que JJ Abrams deu nos filmes recentes.

Você pode, claro, se pegar nos problemas. Eles estão lá, não vamos fingir, principalmente se você é um daqueles fãs mais chatos. Os Klingons estão realmente bastante diferentes dos filmes, mesmo considerando o visual introduzido a partir do final dos anos 1970. Isso sem falar que, de acordo com a série Enterprise, estamos naquele momento da cronologia na qual os aliens são mais próximos aos humanos – e esses primeiros episódios deixam claro que boa parte da população deles (se não for toda) está com esse visual novo.

Além disso, outros detalhes da cronologia não batem. Se estamos dez anos antes da série clássica, a USS Enterprise já está no espaço, inclusive com Spock na tripulação – e os episódios dos anos 1960 (incluindo o já citado The Menagerie) deixam claro uma outra tecnologia e outros uniformes para a Frota.

Agora, vamos ser sinceros: perto de todos os acertos, esses problemas acabam ficando em segundo plano. Que fiquem para esses fãs mais chatos ou para outros roteiristas criarem justificativas pra essas inconsistências, como o próprio pessoal de Enterprise fez na década passada.

Os novos Klingons

O legal, mesmo, é começar a pescar as mensagens que Discovery traz em seu subtexto. Veja: Star Trek sempre foi um grande western espacial, e é, como a versão que se passa no velho oeste, uma grande alegoria para os tempos de hoje. Um dos momentos, por exemplo, é quando Michael e a capitã discutem sobre preconceito religioso – e Michael afirma que existe uma diferença entre religião e cultura (no caso, a cultura bélica dos inimigos).

É ainda cedo para identificar para onde Discovery quer seguir, mas ouso supor que esse começo foi sobre o chamado “paradoxo da tolerância”, criado pelo filósofo Karl Popper. Os Klingons são, por natureza, intolerantes. Inclusive entre si. Porém, a Frota e a Federação têm por regra a tolerância, buscando primeiro o diálogo com outros povos. Por isso, a reação da capitã Phillipa Georgiu é sempre conversar com o povo invasor.

Só que, ao ser tolerante com a intolerância, ela cresce. Na série, vemos que isso dá espaço para os Klingons crescerem e se armarem para o ataque. Em nenhum momento eles veem a abertura da Frota como algo positivo, mas como uma fraqueza (ou mentira) do inimigo. É como disse Popper: “tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância”.

O que os Vulcanos, um povo pacífico por natureza, fazem – e que Michael quer que a USS Discovery adote como postura – é sempre atacar primeiro. Deixar de lado a tolerância com o intolerante, justamente para ela não crescer. “Se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante contra a investida dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância junto destes”, continua o filósofo.

Como você pode ver, há um grande debate do mundo real para Star Trek: Discovery aproveitar.