Starry Eyes: o terror de 2014 que melhor representa Hollywood em 2017 | Judão

Uma mistura de Cronenberg e Lynch que retrata sem dó os horrores sexuais que começaram a ser expostos esse ano

Começando por Harvey Weinstein, passando por Brett Ratner, raspando em Ben Affleck e definitivamente explodindo em Kevin Spacey, Hollywood tem chamado mais atenção que o comum, nos últimos meses.

Não por grandes lançamentos, mas sim por uma verdadeira enxurrada de denúncias de assédios sexuais que escancaram uma verdade há muito tempo conhecida, mas raramente comentada: a maior indústria de entretenimento do mundo é usada, há décadas, como instrumento de opressão por pessoas (geralmente homens brancos) em posição de destaque e poder. É uma realidade assustadora, que não só reflete um problema da sociedade como um todo, como só deixará de existir, mesmo, quando (e se) o mundo todo mudar.

Desesperador? Pra caralho! Principalmente porque existe toda uma espiral de silenciamento e intimidação que ainda cala muitas vítimas, ainda mais com tanta fama e dinheiro na jogada. É uma corrente de sedução extremamente difícil de ser quebrada, capaz de transformar pessoas, ao mesmo tempo em que as mata aos poucos — uma realidade levada ao extremo no terror independente Starry Eyes.

Lançado em 2014, esse longa-metragem escrito e dirigido por Kevin Kölsch e Dennis Widmyer foi concebido mais como uma sátira do preço e das consequências de caminhos curtos para a fama. “Queríamos uma história de uma garota ficando mal, ficando doente, virando outra coisa, mas ao invés de um vampiro, um lobisomem, ou um zumbi, tivemos a ideia dela se tornar uma celebridade”, disse Dennis à youtuber Perri Nemiroff, durante o SXSW.

Graças a uma performance incrível da protagonista Alex Essoe, bem como alguns elementos assustadoramente reais do roteiro, a trama assume em 2017 um tom muito mais crítico e consciente que o esperado.

Alex interpreta Sarah, uma jovem garçonete que sonha em se tornar atriz em Hollywood — provavelmente o clichê mais real daquele lugar. Depois de falhar repetidamente em diversos testes, ela chama atenção de um produtor que a flagra arrancando tufos do próprio cabelo, num surto impulsivo recorrente. Convidada para retornar a uma das audições, ela mergulha numa sucessão de testes bizarros que começam com mais puxões de cabelo e logo chegam ao ponto de fazê-la se despir diante dos produtores.

Nesse processo, pouco a pouco, o comportamento de Sarah começa a mudar. Alternâncias de humor, uma arrogância intermitente e a certeza cega de seu futuro brilhante a levam a atitudes precipitadas, como deixar seu emprego e se isolar de amigos próximos. É só quando se vê obrigada a transar com um velho e poderoso produtor que Sarah enfim entende a gravidade da situação, buscando amparo numa amiga. Mas a falta de opções, a promessa dos holofotes e da fortuna e o medo de perder uma chance para alcançar seu sonho a fazem retomar a rota sombria, entregando-se a um abuso que a acaba matando.

Mas não literalmente, pera.

A partir do abuso, a Sarah que conhecemos no filme morre, numa abordagem tematicamente Lynchiana AND visualmente Cronenbergiana (eca!). O corpo e a moral de Sarah apodrecem frente aos nossos olhos e, do que sobra, emerge uma nova figura, a estrela, absolutamente ANESTESIADA em relação ao mundo à sua volta, mas perfeita ao olhar. É o avatar da futilidade da fama idealizado pela dupla de roteiristas, mas também é a perfeita representação de uma jovem explorada, silenciada e comprada, que acaba sem saída, abrindo mão de si mesma. Não muito diferente da realidade de muitas jovens atrizes, cantoras ou modelos por aí. :/

Quando assisti a Starry Eyes pela primeira vez, senti muito nojo e aflição nas cenas mais próprias do cinema de horror, mas senti medo, mesmo, naquelas que ilustrava algum tipo de abuso. Se Kölsch e Widmyer queriam de alguma forma criticar a futilidade das celebridades modernas, falharam ao escalar Alex, já que a jovem atriz inspira enorme empatia, fazendo de Sarah uma vítima mesmo quando ela já tornou-se um monstro — num trunfo aparentemente acidental que enriquece o filme, elevando-o a um tipo de conto de aviso sobre os riscos que, hoje, estamos vendo como tão corriqueiros em Hollywood.

Se já me incomodou pra cacete na época em que vi pela primeira vez, hoje acho que seria quase impossível aguentar Starry Eyes de cabo a rabo, de novo. Mas, se você ainda não tiver assistido ao filme e tiver estômago forte (em diversos sentidos e por vários motivos), não há momento mais propício. Melhor ainda se você, do combo homem-cis-branco-hétero, convidar para ver contigo aquele seu amigo que poderia facilmente ser um Weinstein, Ratner ou Spacey da vida.

Na pior das hipóteses, vocês aproveitam um grande filme. Na melhor, isso dá pano pra uma boa conversa. ;)