Steve Jobs, o filme que esperamos desde 2011 | Judão

Na comparação com o filme estrelado por Ashton Kutcher, o filme que chega nessa quinta (14) aos cinemas brasileiros vence graças a uma trinca matadora: Michael Fassbender, Kate Winslet e Aaron Sorkin

Assistir aos dois filmes sobre a vida de Steve Jobs, praticamente um depois do outro, foi uma experiência interessante. Uma verdadeira aula de linguagem cinematográfica, eu diria. Em termos históricos, ambos se focam quase que essencialmente na mesma cadeia de eventos: o surgimento da Apple na garagem, a fixação pela música de Bob Dylan, a força dada por Mike Markkula para que ela se tornasse uma empresa de verdade, a explosão do Apple II, as tretas de Jobs com o board (em especial com o CEO John Sculley, trazido pelo próprio Steve da Pepsi) e seu afastamento, o lançamento por conta própria do NeXT, seu retorno triunfal para cuidar do desenvolvimento do iMac, a transformação em guru tecnológico, a relutância em aceitar a paternidade da filha Lisa. Você consegue ver tudo isso em ambos os filmes. Mas o jeito de contar e retratar cada uma destas passagens não poderia ser mais diferente.

O primeiro filme, Jobs (2013), com Ashton Kutcher no papel principal, opta por uma pegada histórica, cronológica. Chega a ser praticamente didático, explica detalhe a detalhe. Já Steve Jobs, que chega esta semana aos cinemas brasileiros, está muito longe desta abordagem e pode até ser o tipo de obra que vai afastar aqueles que preferem cinebiografias mais tradicionais. A produção dirigida por Danny Boyle conta a história de Jobs essencialmente por meio das tensões e dos diálogos (o roteiro é do Aaron Sorkin, afinal) que ocorrem nos corredores, pouco antes de acontecerem três eventos fundamentais nos quais Steve subiria ao palco para as suas lendárias apresentações: começa com a revelação do Macintosh, em 1984; depois pula para 1988, para o esperado lançamento do NeXT; e então segue dez anos à frente, para o evento em que iMac seria pela primeira vez mostrado ao público.

Tudo acontece ali, naqueles planos fechados, em camarins, na salinha do café, enquanto Jobs prepara seus discursos, checa os últimos detalhes das PERIPÉCIAS tecnológicas que fará para encantar sua audiência, enquanto o público começa a chegar, ansioso para ouvir o que ele tem a dizer. O link entre os três eventos é feito rapidamente por uma colagem de reportagens televisivas e manchetes de jornais de cada época, tudo retratado de maneira enxuta e econômica, com elenco reduzido e sem fogos de artifício. Você não vê Steve Jobs e Steve Wozniak montando seu primeiro protótipo, ainda garotos, ainda idealizando o futuro. No meio das conversas, estes detalhes vão sendo pincelados, entrelaçados, mas sem preocupação com datas, horários, com a sequência dos acontecimentos. No máximo um ou outro flashback aparecem no meio do caminho, mas curtinhos, pontuais. Você é mais do que gentilmente convidado a pensar e encadear a linha de acontecimentos na sua própria cabeça.

Steve Jobs é um filme que pinta um retrato de Jobs abrindo as portas para que os espectadores tenha uma imagem dos bastidores de sua vida, efetivamente. Não fossem os rostos conhecidos dos atores naquela tela, a câmera claramente daria uma sensação documental.

Um dos pontos mais interessantes é que, apesar da direção ser de Boyle, Steve Jobs não é um filme dele. Não tem a sua assinatura, enquanto cineasta. O que fica claríssima é a influência do roteirista, Aaron Sorkin. É ele que brilha. O que se enxerga ali são diálogos poderosos, intensos, tensos, densos e complexos, sem aquele jogralzinho de “personagem diz sua fala e passa para o outro”. Eles gritam, se descontrolam, se interrompem. Tudo tem um brilho bastante similar ao que Sorkin entrega em West Wing e The Newsroom. Ao invés dos bastidores da política ou os bastidores da notícia, seja bem-vindo aos bastidores do mundinho corporativo.

Com diálogos tão bem escritos e amarrados, faz diferença a presença de um protagonista como Michael Fassbender. Tá bom, Ashton Kutcher conseguiu atingir um nível de semelhança física impressionante com o criador da Apple, isso não dá pra negar, basta colocar as fotos de Ashton caracterizado ao lado das fotos de época de Steve Jobs que você chega a tomar um susto. Mas o ponto é que ele retrata um Jobs quase messiânico, um gênio, incompreendido. Por mais que não se pareça com Jobs, Fassbender dá um show de profundidade. Seu Steve Jobs consegue ser ao mesmo tempo mais genial/icônico e escroto/desprezível do que o de Kutcher. Num minuto, ele te inspira com um discurso sobre o futuro; no seguinte, dá vontade de enfiar a cara dele na mesa até quebrar o nariz — inspirado na biografia autorizada escrita por Walter Isaacson, o filme evita concessões e mostra como Jobs gritava, tinha chiliques, esperneava, ia do doce ao descontrolado mais rápido do que seus computadores reiniciavam.

Outro dos trunfos de Steve Jobs foi ter usado e abusado da presença de Joanna Hoffman, braço-direito de Jobs e responsável pelo marketing da Apple. A executiva, interpretada com inteligência e maestria por Kate Winslet, em certos momentos chega a roubar a cena de Fassbender. É ela quem tenta trazer ordem ao caos genial que gira ao redor de Jobs. É ela que tem força para barrar suas loucuras, é a opinião dela que ele pede quando está confuso. É através de seus olhos que ele enxerga a importância de sua própria filha; e é através de seus olhos que nós, espectadores, enxergamos uma faceta mais suave, amorosa e delicada de um personagem difícil de compreender.

No fim, Steve Jobs (2016) vence Jobs (2013) de lavada por um motivo bem simples: o atual é muito mais FILME. É muito mais obra cinematográfica. Isso sem importar, necessariamente, se Steve Jobs existiu de verdade ou não. Porque, quando sobem os créditos, tudo que nós precisamos é ter a sensação de que vimos uma boa história, seja ela inspirada em uma história real ou não. Nisso, o filme com Kutcher fracassa e o filme com Fassbender triunfa.