Steven Universe e o exercício que é viver em sociedade | Judão

Um programa capaz de arrancar lágrimas dos adultos, enquanto ensina mensagens positivas aos pequenos

Steven Universe é uma armadilha. Aparentemente um desenho sobre um garoto feliz, guiado por uma filosofia agressivamente positiva sobre o mundo que o cerca, a narrativa de uma criança sendo educada por três “alienígenas metamorfoseadas a partir de pedras” se inicia como um aparente programa colorido e infantil sobre mundos que não existem, para pouco a pouco firmar um subtexto coeso sobre aceitação individual e compreensão ao próximo.

Belo exemplo dos temas que rodeiam a criação de Rebecca Sugar – uma das roteiristas de Hora da Aventura e PRIMEIRA mulher a criar um desenho para o Cartoon Network -, aparece em Gem Harvest, oitavo episódio da quarta temporada da atração. Aqui, somos introduzidos a Tio Andy, personagem que ilustra muito dos estereótipos atrelados à direita norte-americana, como a proteção da propriedade privada, a ideia de relações amorosas ancoradas na heterossexualidade, e por fim, a relutância na aceitação de formações pouco tradicionais de família. Sobre cada novo aspecto na criação de Steven em que Andy põe os olhos, o personagem consegue enxergar um defeito; seja na implícita família criada entre as personagens Peridot, Lápis Lazuli e seu “cachorro” de estimação, ou na clara relação romântica entre Safira e Rubi – que dão origem à simbiose de Garnet, uma espécie de representação física de um relacionamento lésbico.

Centrar um episódio de um show infantil num jantar entre pessoas de opiniões muito contrastantes, mas ligadas por laços consanguíneos, não parece exatamente um tema infantil, com exceção de que é extremamente necessário. Dos jantares de natal entre pessoas de visões políticas diametralmente opostas que, em algum nível, acontecem nas famílias de todo mundo, Steven Universe é em parte um desenho sobre criar pontes de entendimento entre pessoas muito diferentes e apresentar uma alternativa que dê protagonismo a quem se sente excluído.

Dentre as várias situações que escalonam para um embate desagradável entre Andy e a família do protagonista, os roteiristas fazem questão de demonstrar muito claramente sua mensagem ao fim do episódio: a insistência em rechaçar a diferença em nossas relações pessoais só tem como resultado o isolamento. Uma metáfora para a situação enfrentada por muitos LGBTs diante de suas famílias é estabelecida aqui, — no caso, a recusa em aceitar realidades que não se alinhem com as expectativas de parentes mais conservadores.

Argumento muito próximo é feito no ótimo Other People, dirigido e roteirizado por Chris Kelly. No filme, o protagonista David (vivido por Jesse Plemons) aprende a aceitar a morte iminente da mãe – em estado terminal de câncer – quando se dá conta de que se tornará, em breve, um estranho para o próprio pai, que não admite a homossexualidade do filho. As várias tentativas de David em compreender a resistência do pai e tentar uma abertura com ele sobre o tema chegam ao fim após alguns anos. Ambos os exemplos ilustram perfeitamente a impossibilidade de se manter um bom relacionamento baseado na desconsideração da sexualidade de um indivíduo. Não há amor incondicional que resista a falta de empatia, afinal de contas.

Introduzindo justamente a empatia como uma de suas principais bandeiras, Rebecca Sugar ajuda a normatizar relações amorosas de pessoas do mesmo sexo. Em palestra na Sociedade de Ilustradores da School of Visual Arts, a showrunner fala sobre como gays e lésbicas são vistos sob perspectivas puramente sexuais por pais héteros e, por isso, na melhor das hipóteses (sendo a pior, a demonização de pessoas LGBT), crianças tendem a desconhecer relações que fujam ao padrão social. A criação de jovens dentro de redomas onde existem APENAS relações de afeto entre homens e mulheres acabam atirando as relações LGBTs na pilha de “perversões adultas”, deixando um silencioso recado de que questões como a homossexualidade só podem ser tratadas a partir de certa idade (muito embora você vista seu filho recém-nascido em um macacão com estampa de “Futuro terror das garotas”).

Passada a primeira curva – a de habituar crianças a conviverem com a diversidade – o show de Sugar traz uma segunda camada geralmente esquecida em produtos voltados para as crianças: a de estabelecer bons exemplos de relações entre LGBTs que poderão vir a moldar os relacionamentos de crianças em processo de descobrimento sobre a própria sexualidade.

Em diversos contos de fada, fábulas e desenhos voltados para o crescimento e desenvolvimento de valores exploram-se conteúdos como o amor entre duas pessoas... heterossexuais. Crianças e pré-adolescentes não costumam ver em tela exemplos de relações de afeto com finais felizes (insira aqui sua reclamação sobre o “Bury your gays”) entre duas mulheres ou dois homens. A capacidade de crescer, descobrir-se parte da comunidade LGBT e ter exemplos de relações saudáveis desde a tenra idade ajuda a encurtar um LONGO processo de aceitação e fornece ferramentas de combate ao preconceito.

Se parte da função em ser mãe ou pai de alguém é prepara-lo para o mundo, deve ser prevista não apenas a convivência respeitosa com pessoas diferentes dele no convívio social, mas também a possibilidade de um filho se descobrir gay/lésbica ou trans no futuro. Fazer um esforço para enxergar as situações e marcas emocionais inerentes a praticamente todos os indivíduos e lembrar que a companhia de pessoas queridas importa muito mais que as diferenças entre elas são mensagens plantadas em cada personagem, por menor que ele seja, em Steven Universe. Um programa capaz de arrancar lágrimas dos adultos, enquanto ensina mensagens positivas aos pequenos.