Uma única palavra pode mudar tudo | Judão

No terceiro episódio de sua nova temporada, Supergirl adota uma novidade sutil em seu texto abertura, daquele tipo que quer dizer MUITA coisa

As séries do Arrowverse lá no CW têm uma estrutura bastante comum entre elas, com um elemento que se repete nas quatro atuais é o monológo de abertura. É essencialmente um texto introdutório que rola no começo de cada episódio, no qual o protagonista se apresenta, antes de começar o recap de onde a série está, o que rolou nos capítulos anteriores, enfim.

Claro que, a cada temporada, o texto passa por algumas alterações, porque o momento dos personagens mudou. Em Arrow, Oliver Queen ainda fala dos cinco anos que passou no inferno, mas agora reforça que ele é prefeito de Star City de dia e, à noite, é “someone else. I am something else. I am the Green Arrow”. Já em Flash, Barry Allen não abandona o discurso de que é o homem mais rápido do mundo. Nas duas primeiras temporadas de Supergirl, a Garota de Aço se apresentava inicialmente com foco em sua origem kryptoniana e na missão de salvar o primo famoso.

No terceiro episódio desta temporada 3, no entanto, o texto ganhou algumas modificações. Aquela mais óbvia e fácil de ser notada é que ele está mais certeiro na questão da identidade de Kara, tentando encontrar o equilíbrio entre a super-heroína alienígena que é um símbolo de esperança e a tentativa de ser uma repórter humana. Este deve ser, de alguma forma, o tema recorrente deste novo ano, como falamos aqui. Mas o monólogo de abertura teve uma outra mudança, esta bem mais sutil e, digamos, mais significativa.

É quando ela diz “Meu nome é Kara Zor-El. Eu sou de Krypton. Sou uma refugiada neste planeta”.

É, gente, é isso mesmo. Tanto a Supergirl quanto Kal-El são não apenas imigrantes que encontraram uma casa na Terra, eles são REFUGIADOS, que saíram fugidos de um planeta à beira da extinção com pouca ou quase nenhuma esperança do que o futuro lhes reservava adiante. Assumir isso é de uma coragem tremenda. E necessária.

Mas se os cancervadores ficaram putos com a edição 987 de Action Comics, publicada em Setembro, na qual Superman salva um grupo de imigrantes hispânicos sem documentação do ataque de um nacionalista branco maluco, é bom que se diga que o assunto foi bastante recorrente ao longo da série na temporada anterior. A discussão sobre preconceito e os aliens não serem aceitos em National City, em uma situação que envolveu inclusive a presidente dos EUA, perdeu um pouco de força diante do romance de Kara com Mon-El, mas teve grandes momentos para se refletir. Mais uma vez, a cultura pop foi a vida real, doa a quem doer.

Meu nome é Kara Zor-El. Eu sou de Krypton. Sou uma refugiada neste planeta

Além desta mudança no texto de introdução, de uma nova palavra que marca a nova apresentação da personagem, seu posicionamento e, por consequência, de toda a produção da série diante do governo que, sabemos bem, hoje toma conta da Casa Branca, Far From The Tree foi bastante importante por tratar de outros dois assuntos sob a ótica da “família disfuncional”, em tramas paralelas nas quais a própria Supergirl foi coadjuvante.

A treta em Marte, muito menor e mais intimista do que se prometia à princípio, valeu a pena principalmente pela introdução de M’yrnn, pai de J’onn – sim, a visita ao Planeta Vermelho não teve foco no relacionamento dele com M’gann e, ufa, ainda bem. Destaque não apenas para o CGI bastante melhorado dos marcianos, mas também para a aparição de Carl Lumbly (que já tinha dublado o próprio Caçador de Marte nos desenhos animados da Liga da Justiça) como o líder marciano fortemente focado em suas raízes religiosas. O cara dá um verdadeiro show de força no olhar e na sutileza da voz, principalmente quando passa a usar uma imagem humana em respeito ao filho e à Kara.

Só que os momentos mais dramáticos, intensos e poderosos do episódio rolaram justamente na Terra, num pedaço da história total e completamente desconectado de qualquer relação super-heróica. Em meio aos preparativos do casamento com Alex, somos surpreendidos com uma desconstrução da geralmente durona Maggie Sawyer – e aí Floriana Lima, mais vulnerável, brilha como nunca.

Descobrimos como ela foi expulsa de casa pelo pai quando ele descobriu que ela era lésbica, ainda adolescente e, além de evitar o clichê do final feliz fácil em seu reencontro com o sujeito, na reunião pai/filha, ainda descobrimos que o cara (vivido por Carlos Bernard) não é um tradicionalista imediatamente odiável. É um trabalhador comum, simples, como qualquer um que se conheça. Alguém por quem até dá pra sentir simpatia. Mas alguém que tem preconceitos enraizados. Como qualquer um que se conheça ao nosso redor.

E, aliás, o pai dela é alguém que ainda tem tempo para fazer um PUTA discurso sobre como o governo estadunidense está enxergando os mexicanos. Sim, senhoras e senhores, o apelido “Maggie” vem de Margarita, seu verdadeiro nome. Mulher, latina e gay. Pense neste combo matador para o preconceito na atual sociedade sob o JUGO do homem-laranja.

Com todo respeito ao daxamita desaparecido mas... é sobre ISSO que Supergirl deveria ser. Sobre ISSO que Supergirl precisaria ser. Porque comédias românticas a gente já tem aos montes.