Supergirl faz, na TV, muito mais pela cultura pop do que seu primo no cinema | Judão

Episódio desta semana levanta uma série de discussões interessantes em torno de um tema espinhoso, sem nunca perder aquele tom suave, iluminado e bem-humorado

SPOILER! Welcome to Earth, o terceiro episódio da segunda temporada da Supergirl, exibido esta semana nos EUA, já seria histórico pela presença de ninguém menos do que Lynda Carter como a presidente dos EUA. Ela chega em National City, sede do DEO (Department of Extranormal Operations) e base de operações da heroína kryptoniana, para assinar um tratado de boas-vindas aos representantes alienígenas.

No último ano, alguns deles abandonaram seus disfarces para se expor e salvar a humanidade da ameaça do vingativo Non. Logo, nada mais justo do que receber a todos como legítimos cidadãos americanos.

Fora as pequenas referências deliciosas ao papel de Carter como a Mulher-Maravilha da série dos anos 70 (a clássica “giradinha” da transformação, a menção a um certo jato especial...), a discussão possível sobre os imigrantes, ainda mais neste momento em que C E R T A S P E S S O A S defendem a criação de muralhas que impeçam a entrada de mexicanos nos EUA, já seria mais do que motivo para você assistir à parada com atenção redobrada.

Só que a coisa vai além. E se transforma em uma verdadeira lição adicional sobre como, até o momento, a DC na TV é infinitamente melhor que a DC nos cinemas.

Porque este é um episódio inteiro sobre PRECONCEITO. Que não tem medo de colocar o dedo na ferida, por mais leve que o tom da série sempre tenha sido. E bom, ainda continue sendo.

Maggie Sawyer

Maggie Sawyer

OUTRORA conhecido pelos leitores grisalhos como Ajax, J’onn J’onzz, o Caçador de Marte, tem restrições ao projeto da presidente Olivia Marsdin. Ele mesmo um imigrante alienígena, vejam vocês, conforme questiona a própria Supergirl. Não deveria ser 100% a favor? Calma lá.

“Eu e você conseguimos nos fazer passar por humanos. Mas e aqueles que não conseguem? Como serão tratados se forem obrigados a sair das sombras?”. E J’onzz ainda deixa claro: “Sei bem como é isso não apenas por ser um marciano, mas também alguém que escolheu assumir o rosto de um homem negro como sua forma humana”.

OUCH.

Este aqui também é o episódio no qual surge a policial Maggie Sawyer (Floriana Lima), uma especialista em ações extraterrestres da força policial local que, de imediato, já bate de frente com a agente Alex Danvers. Sabe como é, aquele clássico conflito de filmes de ação, os federais versus os tiras, de quem é jurisdição, quem manda mais...

O ponto é que Maggie conhece um lugar do qual não apenas Alex, mas ninguém do DEO, sequer tinha ouvido falar: um bar. No caso, um boteco secreto para alienígenas refugiados na Terra, no qual podem ser eles mesmos, sem preocupação. “Eu me sinto à vontade aqui. Porque, afinal, sou uma policial latina e gay, né?”. Deslocada a ponto de se sentir mais à vontade entre seres com garras verdes ou um olho a mais na cara, tão acostumada a lidar com o preconceito quanto eles.

Detalhe importante aqui: Maggie já chegou ganhando um espaço importante na série, o que é bem positivo. Divertida, cheia de estilo e badass até dizer chega, ela é um ótimo contraponto para os agentes “certinhos” do DEO e acrescenta uma camada diversa e interessante ao elenco principal de personagens, que conta com uma garota como protagonista e um homem negro alçado ao cargo de chefe do mais importante grupo de mídia da metrópole (sai Cat Grant, assume James Olsen, tá pensando?).

E sabe o que é melhor? Maggie não é tratada como “a personagem gay”. Mas sim como uma personagem que, por acaso, é gay. Como sempre deveria ser.

Supergirl

E aí, a cereja do bolo, estamos diante de um episódio no qual a própria Supergirl se depara com seus próprios preconceitos quando o tal sujeito que chegou num pod de Krypton enfim acorda, ele adota uma postura bastante agressiva (aka “descobri que tenho poderes, estou com medo e vou chutar a bunda de quem estiver no meu caminho”) e foge da sede do departamento de operações extranormais. Ao tentar enviar um pedido de ajuda de volta para casa, a equipe descobre que o camarada não veio de Krypton, mas sim de Daxam. É um planeta originalmente colonizado por Krypton, vizinho, que durante muito tempo esteve em guerra com a terra natal da Supergirl e do Superman. Os leitores de quadrinhos vão sacar que o tal fugitivo se trata de Mon-El (também conhecido como Lar Gand).

O caso é que os kryptonianos sempre enxergaram os daxamitas como bárbaros que se reúnem ao redor de um governo monarquista, enquanto Krypton era uma república de cientistas, filósofos, sábios. Kara sobe no salto e crava: Mon-El é uma ameaça, parecendo estranhamente puta da vida, quase irreconhecível. Quando um alienígena tenta matar a presidente, CLARO, obviamente ele é o responsável. É caçado, derrotado, trancafiado. Tratado como lixo. Mas a Supergirl descobre que estava enganada. Que julgou Mon-El sem sequer ouvir o seu lado.

A super-heroína que é símbolo de amor e esperança também tem suas falhas. Também é capaz de ser preconceituosa. E de pedir desculpas.

Dá, no fim das contas, pra discutir o lado mais sombrio de um universo de super-heróis sem precisar trincar os dentes, destroçar metade da cidade e matar 70% da população, certo? CERTO.

Este é um lado que, se Supergirl seguir ao longo da temporada, pode render ainda mais bons frutos e fazer a série se tornar um ponto ainda mais fora da curva dentre as séries de heróis do CW. Mal aê, Barry e Oliver.