Tá confirmado: teremos o Mercenário na 3a temporada da série do Demolidor | JUDAO.com.br

O maior adversário FÍSICO do Homem Sem Medo vai dar as caras nos próximos episódios inéditos do Netflix — com uma origem que parece ser uma verdadeira mistura de suas muitas histórias de criação nos gibis

Que a temporada 3 da série do Demolidor no Netflix ia beber bastante da fonte da saga A Queda de Murdock (Born Again, escrita por Frank Miller com arte de David Mazzucchelli e publicada em 1986), isso a gente já sabia. Tanto com o Rei do Crime, ainda na cadeia, cruzando uma série de documentos e aparentemente chegando à conclusão de que Matt Murdock e o demônio mascarado da Cozinha do Inferno são a mesma pessoa, no finalzinho da segunda temporada, quanto com a cena do herói acabado para ser ajudado por alguém identificada como Maggie (aka sua própria mãe, que se tornou uma freira), no final da série dos Defensores; tudo levava a crer que este seria o caminho.

Como a nova temporada da série estreia no próximo dia 19, era natural que o serviço de streaming começasse a liberar alguns vídeos por agora, pra fazer barulho. E o mais recente trailer não apenas confirma que a ideia da trama é mais ou menos esta, com direito até a Wilson Fisk usando o clássico terno branco dos gibis, como explica porque diabos (entendeu o que eu fiz aqui?) o Matt vai voltar a usar aquela roupa preta dos primórdios. Simples: tem alguém se passando por ele. Alguém que tá botando o terror na cidade pra derrubar a sua reputação.

Esta parte não bate exatamente com A Queda de Murdock mas os leitores mais atentos do personagem nos gibis sacaram que aquilo tem muito a ver com um arco que rolaria anos mais tarde, em 1990, mais especificamente a partir de Daredevil #285, da dupla Ann Nocenti e Lee Weeks. Um de seus principais vilões aproveita que Matt está sofrendo de uma amnésia e assume seu uniforme e sua identidade, para fazer com que as pessoas acreditem que o diabão pirou e se tornou o vilão que parte da população “de bem” acreditava que ele fosse. Junte a isso o fato de que, no trailer, ele parece tão ágil quanto o próprio Demolidor e com uma mira inacreditável pra que os espectadores imediatamente considerassem como real um boato que rola desde que o ator Wilson Bethel foi anunciado: habemus uma nova versão do Mercenário.

Pois não demorou três dias e, durante o painel da série na New York Comic Con nesse fim de semana, a Marvel confirmou aquele que deveria ser o segredo pior guardado da história das séries do Netflix: Bethel será um agente do FBI chamado Benjamin “Dex” Poindexter, que, sim, ao longo da temporada, vai se tornar o Mercenário.

Na NYCC, o chefão da Marvel Television, Jeph Loeb, fez questão de reforçar que, não, ele não vai começar a temporada já como o Mercenário que os leitores conhecem das páginas dos gibis. Na verdade, Dex vai ser corrompido pelo Rei do Crime, que fará de tudo para manipular o sujeito e usá-lo em sua cruzada pessoal de vingança contra o principal protetor da Cozinha do Inferno. A descrição é clara: Fisk vai literalmente se infiltrar na vida de Dex.

A transformação — que, assim que estiver completa, será de alguma forma “revelada” aos espectadores — não apenas vai ser um ponto de virada pro próprio Poindexter, mas também vai espalhar o caos na vida de aqueles que mais importam pra Matt Murdock, principalmente no que diz respeito ao duo Foggy / Karen Page.

E aí que a galera na NYCC até soltou um novo vídeo, mostrando um pouco mais de detalhes sobre o personagem — incluindo o que parece ser um boné no qual ele tem o símbolo que o vilão usa na testa em sua máscara original das HQs. Já dá pra sacar que ele tem um histórico de violência excessiva em ação, além de uma certa birra com vigilantes mascarados (“Se eu tivesse uma máscara, seria chamado de herói”) e o que parece ser uma voz ressoando em sua cabeça, o que faria sentido com o histórico de loucura que o camarada tem nas revistas.

Claro, também dá pra sacar nitidamente a sua inata agilidade atlética, incluindo aí a habilidade de arremessar com precisão cirúrgica tudo que esteja em suas mãos, transformando até mesmo um lápis ou um clipe de papel num projétil e, portanto, numa arma mortal.

O nome do dito cujo na série, Benjamin Poindexter, é o seu alter-ego na versão Ultimate mas apenas uma das muitas identidades que o Mercenário já usou no universo “normal” da editora, incluindo aí Leonard e a mais recente e aceita até o momento, Lester. Mas tamos falando aí de um cara que não apenas mantém mistério sobre a própria identidade, mas também sobre a sua origem. A primeira aparição do vilão, real oficial, ainda que numa outra versão e com o nome grafado de maneira ligeiramente diferente (no caso, Bulls-Eye) foi em Nick Fury Agent Of SHIELD #15 (1969), cortesia da dupla criativa Gary Friedrich e Herb Trimpe.

Na época, ele era um assassino profissional com treinamento de elite e aquele uniforme com o símbolo concêntrico do alvo, coisa e tal. Ele foi contratado pela Hydra pra matar o líder da SHIELD, mas acabou sendo abatido pelo parceiro de Nick, Dum Dum Dugan. Ele voltaria a aparecer quase dez anos depois, em março de 1976, na edição 131 do gibi do Demolidor, inexplicavelmente ressuscitado por Marv Wolfman e John Romita Sr.

Na minissérie Mercenário: Anatomia de um Assassino (2004), ele foi capturado em uma prisão de segurança máxima e interrogado sobre seu passado. Aí eis que o matador profissional conta sobre sua vida no Bronx com o pai abusivo e o irmão que se divertia atirando com rifles sem que ninguém soubesse. Então, ao tentar matar o próprio pai, o tal irmão teria colocado fogo na casa deles.

Isso o levaria a um lar adotivo, no qual logo ele se tornaria um talentoso jogador juvenil de baseball — mas em uma importante partida decisiva, o menino ficou entediado e pediu ao treinador para sair. Bravo, o homem se recusou, fazendo com que o batedor do outro time fizesse piada com o futuro maníaco, acusando-o de ser um covarde. Então, o moleque resolveu lançar a bola, acertando a cabeça do adversário com tanta força que o matou. “Bullseye”, teria dito ele, sendo definitivamente afastado do esporte profissional.

No entanto, a maior parte desta história se provou falsa porque, assim que conseguiu escapar da guarda dos agentes do governo, o Mercenário revelou que foi ele mesmo que ateou fogo em seu próprio lar, aos 10 anos de idade, fazendo o mesmo inclusive naquela mesma prisão, onde seu pai estaria mantido cativo.

Mas temos que levar em consideração que a narrativa toda é uma espécie de retcon da origem contada brevemente em Elektra #2 (1996), na qual descobrimos, em meio a uma luta entre os dois, que o Mercenário teria crescido em um trailer junto com um pai alcoólatra e que batia nele. Usando uma flecha de brinquedo ajudando a encobrir uma arma de verdade, ele mata o pai e consegue fingir que foi um suicídio, saindo ileso da história toda.

Aí, em teoria, bem cedo, ele teria sido recrutado como assassino pela NSA (National Security Agency), recebendo a incumbência de treinar os Contras na Nicarágua. Quis tirar partido da situação, quis incriminar um inocente pra tentar conseguir um acordo com traficantes de cocaína colombianos e, por muito pouco, não acabou vítima de uma enorme explosão causada por ninguém menos do que Frank Castle, aka Justiceiro. Com a ajuda dos agentes da DEA (Drug Enforcement Administration), que chegaram depois que Castle tinha sumido sem conseguir matá-lo, se entregou e se tornou um agente infiltrado com a missão de descobrir os segredos do império criminoso de Wilson Fisk, nos EUA.

Tudo indica, no fim das contas, que o Mercenário é tipo o Coringa do Heath Ledger, contando uma história diferente pra cada um apenas pela diversão.

Sabe-se apenas que, SIM, ele acabou eventualmente indo trabalhar pro Rei, já com o uniforme e a alcunha pela qual é conhecido — mas isso depois de ser primeiramente contratado pelo industrial Maxwell Glenn para matar Matt e Foggy, dois advogados com tesão por ajudar a comunidade e que estavam se tornando verdadeiras pedras no seu sapato.

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Foram muitas derrotas e humilhações pro Demolidor, tornando-o uma verdadeira piada na comunidade criminosa e mesmo na prisão. No entanto, mesmo assim, ele chegou a conseguir a atenção do Rei... por pouco tempo. Ao descobrir que uma certa ninja assassina de nome Elektra se tornou a nova queridinha de Fisk, mesmo atrás das grades o Mercenário se emputeceu. Obcecado pela matadora, ele aprendeu tudo que conseguiu sobre ela e a atacou, empalando-a com seu próprio sai, na cena brutal que se tornou icônica e amplamente repetida.

Na luta em que o Demolidor, antigo namorado da Elektra, busca por vingança, acabou que o Mercenário caiu do telhado e ficou paralítico durante um tempo. Mas graças ao apoio do terrível vilão japonês Lorde Vento Negro (pai da Lady Letal), além de ter a mobilidade restaurada, o Mercenário acabou tendo alguns de seus ossos consertados com conexões de adamantium, tornando-o ainda mais resistente e letal.

Depois disso, ele mataria a Karen Page enquanto trabalhava pro Mysterio (na ótima saga Diabo da Guarda, escrita pelo Kevin Smith) e voltaria a tentar, inúmeras vezes, convencer o Rei do Crime de que seria uma excelente aquisição para as suas fileiras — mas sem esquecer que ainda chegou a caçar, em nome do próprio Homem de Ferro e como parte dos Thunderbolts, diversos super-heróis que não se registraram durante a Guerra Civil, além de ser recrutado por Norman Osborn para integrar os chamados Vingadores Sombrios, atuando sob o disfarce do Gavião Arqueiro (o que faria, anos depois, com que Clint Barton agarrasse um ódio tremendo do maluco).

Recentemente, como parte da cronologia maluca da Casa das Ideias, ele foi empalado pelo Demolidor durante a saga Terra das Sombras, quando o Homem Sem Medo enlouqueceu e se tornou líder do Tentáculo. Os ninjas tentaram roubar seu corpo para ressuscitá-lo, não rolou, mas no fim não apenas o cara não tava morto como ainda comandou um grupo de vilões para tornar a vida do Diabão mais uma vez um inferno. Exposto a uma série de elementos químicos num daqueles galpões abandonados que gibis, séries e filmes com super-heróis adoram, ele acabou ficando todo cheio de cicatrizes e cego. Maaaaaaaaas... em 2015, quando os mundos se fundiram em Guerras Secretas, não é que ele tava lá, inteiraço outra vez, ao lado do Rei do Crime?

Este, basicamente, é o Coiote dos Looney Tunes: já morreu de tantas vezes diferentes, sendo destroçado e esmagado das formas mais brutais, e ainda assim retorna pra atormentar a vida de seu algoz.

Vale lembrar ainda que, na adaptação do Demolidor para os cinemas em 2003, o Mercenário foi interpretado por Colin Farrell, com um visual meio motoqueiro, meio metaleiro, tatuado, cheio de brincas, cabeça raspada e com o alvo na forma de uma cicatriz no meio da testa, além de carregar uma história meio irlandesa para se adaptar ao ator que o viveu.

Sim, a gente SABE que este filme é osso duro de roer mas, curiosamente, o Mercenário tá longe de ser a pior coisa ali: aliás, bem pelo contrário. Justamente o humor esquisito e os exageros do personagem, sempre com um olhar injetado e repleto de trejeitos, ajudaram a dar um tempero diferente e curioso em meio a um trem descarrilado e em altíssima velocidade.