Ta-Nehisi Coates vai ser o novo roteirista do Capitão América | Judão

Depois de uma reinterpretação já icônica para o Pantera Negra, o jornalista assume a bronca de apresentar o novo papel do Sentinela da Liberdade dentro do Universo Marvel

De longe, de todos os rumores envolvendo este novo reboot / rebirth / restart / whatever da Marvel, aquele mais interessante (talvez aí o único, mas vale o registro) era mesmo a possibilidade de Ta-Nehisi Coates, o atual responsável pelas HQs do Pantera Negra, ser convocado para a HQ solo do Capitão América.

Bom... O que era só fumaça virou fogo e a gente já tá aqui ansiosamente esperando pelo primeiro número, que terá artes de Leinil Francis Yu, veterano dos gibis dos Vingadores.

“Encontrar a voz certa para contar as histórias dos personagens mais amados da Marvel nunca é uma tarefa fácil, mas quando chegou a hora de encontrar o novo roteirista do Capitão América, a gente já sabia que ia ser o Ta-Nehisi Coates”, afirmou, em comunicado oficial, o editor-chefe C.B. Cebulski. “Depois de reinventar o Pantera Negra para os dias de hoje, Ta-Nehisi traz as suas sensibilidades afiadíssimas para Steve Rogers e seu novo papel no Universo Marvel”.

Pra quem leu o arco Uma Nação Sob Nossos Pés, no qual vemos o milenar trono de Wakanda ser questionado por um movimento dissidente e, principalmente, pra quem teve a curiosidade de conferir as matérias do cara na revista The Atlantic, dá pra concordar com Cebulski que, nos dias de hoje, não tinha mesmo escritor melhor para as histórias deste Steve Rogers pós-Secret Empire.

Caso você não se recorde,no último grande crossover da Marvel em 2017, o Caveira Vermelha usou a Kobik, uma menina criada a partir da consciência do Cubo Cósmico, para transformar Steve Rogers em um agente da HYDRA. A consciência do nosso herói foi alterada, o passado de Rogers mudou e ele se tornou, desde sempre, um maléfico infiltrado trabalhando dentro dos Vingadores e da SHIELD para, enfim, dominar o mundo. O tal Cubo foi destruído em mil pedaços, o Evil Steve manipulou todo mundo e assumiu o controle dos EUA com um único objetivo: reunir os pedaços do mesmo Cubo e reescrever a história do jeito que ele, agora, acha que é certa.

Mas a Kobik é resgatada e, junto com ela, a memória daquele Capitão América idealizado, daquele Steve Rogers que luta pela liberdade, uma lembrança daquilo pelo que o mundo lutou na Europa e no Japão dos anos 1940. E aí ele se torna tangível. E derrota o Evil Steve. Junte a isso o que rolou no especial Generations: Sam Wilson & Steve Rogers Captain America, com o Falcão abrindo mão do escudo original e da identidade de Capitão em favor de seu velho amigo e... bingo. Temos o antigo Capitão América de volta. Ou quase, porque este Steve Rogers ainda está tentando compreender seu lugar no mundo. Tanto é que, em certo momento, opta pelo exílio, por se afastar do manto e de todo o peso de sua responsabilidade como herói. É este Rogers que Coates precisa voltar a posicionar no tabuleiro.

Consideremos o quão político o escritor pode ser, sem medo de colocar o dedo na ferida, e temos aí aquele que potencialmente deve ser um dos títulos mais aguardados do ano, sem exagero.

“Olha, eu acho que vivemos uma era bem empolgante para que se escreva o Capitão América”, revela Coates, em comunicado oficial. “O país está num lugar interessante e estou ansioso para trabalhar Steve Rogers como personagem – este cara que sempre se sentiu fora do lugar neste mundo. Espero que os leitores estejam empolgados para ler algo diferente, e eu creio que teremos antigos vilões clássicos do Capitão América que os fãs do herói e da Marvel conhecem muito bem”. A imagem da primeira capa, desenhada pelo sempre competente Alex Ross, pode dar uma pista, pois traz diversos rostos conhecidos – do Caveira Vermelha ao Barão Zemo, passando pelos integrantes da Hydra e da IMA e pelo Batroc (aka O Saltador), além do Bucky, do Falcão, do Namor e do Tocha Humana original, todos seus parças da época da Segunda Guerra Mundial.

O lançamento deste novo Capitão América, parte do tal FRESH START da Marvel, vai rolar, vejam vocês, em Julho – o número 1, que reinicia a numeração do gibi, chega a tempo do dia da Independência dos EUA, aquela data bastante especial para os herdeiros do Tio Sam. A primeira história de Coates/Yu para o Capitão América, no entanto, poderá ser lida na edição especial dos Vingadores que será lançada no dia 5 de Maio, como parte do Free Comic Book Day.

Mas qual vai ser a pegada do Bandeiroso sob sua batuta? “Ah, pronto, lá vai a Marvel transformar o Capitão América em esquerdista, guerreiro da justiça social”, podia claramente bradar aquele grupo de babacas de sempre, com base dos trabalhos anteriores de Coates. Bom, em um extenso artigo escrito para The Atlantic, o roteirista fala sobre a realização de um sonho de infância que é escrever quadrinhos – e sobre como escrever o Capitão América é rigorosamente o tipo de relação conturbada na sua cabeça que acabou sendo justamente o motivo que o levou a aceitar a tarefa.

“Aqueles que nunca leram um gibi do Capitão América ou nunca viram os filmes da Marvel tão perdoados por achar que o personagem é apenas um mascote do nacionalismo americano”, diz. “Na verdade, a melhor coisa sobre o Capitão é toda a ironia implícita. Ele começa como Steve Rogers, um jovem com o coração de um deus e o corpo de um fracote. Mas as duas coisas então se alinham graças ao soro do supersoldado, que transforma Rogers no ápice físico do ser humano”.

Ele então recorda que, apesar de começar como um ícone dos militares, logo ele se torna um dissidente – questionando seus superiores, tanto civis quanto no exército, talvez recordando suas próprias origens como pobre filho de imigrantes irlandeses. Congelado no final da Segunda Guerra, ele acorda nos dias de hoje, distante não apenas de seu tempo, mas de seus ideais. “O Capitão América não está tão ligado a estes EUA quanto a gente imagina, mas sim a uma América imaginada no passado”, diz ele, lembrando ainda de uma frase clássica de Rogers para um general que questionava sua lealdade: “Não sou leal a nada, general. Exceto ao sonho”.

E é neste ponto, neste tipo de declaração, que Coates admite um conflito de ideias. “E é precisamente por isso que estou empolgado pra assumir as rédeas do Capitão América. Tenho minha cota de fortes opiniões sobre o mundo. Mas uma das razões que me levou a escolher o jornalismo de opinião como prática profissional – numa mistura de reportar fatos e ao mesmo tempo dizer o que penso deles – é porque entender como estas opiniões se encaixam nas perspectivas do outro sempre foram mais interessantes pra mim do que ficar repetidamente cravando a minha própria. Escrever, pra mim, sempre foi mais sobre perguntas e não sobre respostas. E o Capitão América, a personificação do otimismo de Lincoln, traz uma pergunta direta pra mim: por que alguém acredita neste sonho? O que me empolga neste desafio não é o didatismo de colocar minhas palavras na cabeça do Capitão, mas sim colocar as dele na minha própria. É a possibilidade da exploração e não da repetição”.

Para ele, nada deve assustar mais um escritor do que não ser mais assustado. “Eu não estou convencido de que posso contar uma grande história do Capitão América. E esta é a precisamente a razão pela qual quero tentar tanto fazê-lo”.

Ele encerra agradecendo a todos os quadrinistas negros que ele admirava na adolescência, mesmo sem saber que eles eram negros, como Christopher Priest, Denys Cowan e Dwayne McDuffie. “Sem eles, nada disso seria possível. Porque existe uma reclamação frequente entre criadores negros de que eles acabariam restritos apenas aos personagens negros. Eu não sei o que é viver num mundo em que as pessoas restringem o que você pode escrever – e a razão pela qual não conheço esta sensação é por causa de todos os sacrifícios destes que foram forçados a fazê-los antes de mim. Eu nunca me esqueci disso”.