Tava na hora de ver Homem-Aranha 3 mais uma vez | Judão

Sim, eu fiz isso. E sim, apesar de enxergar todos os problemas que ele tem, apesar de saber que ele não resiste ao teste do tempo, eu continuo gostando dele. E foda-se.

“Este é um filme que não funcionou muito bem”, afirmou, bastante desconfortável, o diretor Sam Raimi, a respeito de Homem-Aranha 3, em um papo OITO anos depois do lançamento lá no podcast do Nerdist. “Mas eu não acreditava em todos os personagens, então não dava pra esconder isso das pessoas que amavam o Homem-Aranha. Se o diretor não ama alguma coisa, é errado seguir em frente quando tanta gente gosta daquilo. Eu devia ter ficado com aqueles personagens, seus relacionamentos, e evoluído isso”.

Fica tranquilo, Raimi. A gente sabe que você não queria colocar o Venom nesta salada toda – e, inclusive, o Avi Arad assumiu a culpa por ter enfiado o personagem no filme pra gente, tá?. “Acho que colocamos muita coisa no filme... foi uma boa lição para todos nós”, confessou o produtor, em entrevista ao JUDÃO. Concordo, tio Avi. Talvez NEM TODO MUNDO tenha aprendido, mas enfim... ;)

De qualquer maneira, uma boa lição pra gente, que tá do lado de cá, é refletir sobre as coisas depois de um tempo. É tentar enxergar a cultura pop sob um outro ângulo. Neste caso, cá estou eu, dez anos mais velho, assistindo ao CONTROVERSO Homem-Aranha 3 mais uma vez, como parte de uma verdadeira maratona de filmes de super-heróis que meu filho impôs aqui em casa. E enquanto ficava tentando responder às dezenas de perguntas que ele faz por minuto, me pegava lembrando do quão empolgado saí daquela sessão para a imprensa, em 2007. Tanto é que a minha crítica para o finado site A-ARCA dizia: “o melhor filme do Homem-Aranha até o momento”.

Putz. Não, gente. NÃO. Calma. :D

Homem-Aranha 3 foi, dos cinco filmes do Cabeça de Teia, considerando que vi cada um deles pelo menos quatro ou cinco vezes em períodos diferentes da vida, aquele que menos resistiu ao teste do tempo. Sofreu, o bichinho.

Não, Homem-Aranha 3 não é o melhor filme daqueles três. O título continua sendo de Homem-Aranha 2, o filme no qual a mitologia do herói é melhor trabalhada, com mais profundidade e com mais carinho. Sim, Homem-Aranha 2 ainda é um dos melhores filmes de super-heróis de todos os tempos. Mas continuo gostando de Homem-Aranha 3, que fique bem claro. Chamemos de uma relação conturbada, no entanto.

É evidente que, assim como o Raimi, achei que o filme sofreu de um excesso de personagens. Eu nem gostar do Venom gosto, acho desde sempre um vilão BEM MERDA, então imagine o quanto achei que a trama com um toque alienígena combinaria com a versão do Cabeça de Teia nas telonas, ainda mais com a solução simples do asteroide caindo dos céus.

Talvez nem o uniforme extraterrestre precisasse ser abordado neste momento...ou em qualquer outro. Ficássemos com uma solução mais próxima daquela abordada no Universo Ultimate, orgânica, científica, por exemplo, caso a ideia fosse mostrar Peter Parker entregando-se ao seu “lado negro”. Já tivemos o Doutor Octopus, podíamos partir dali, um de seus experimentos para curar o câncer, sei lá. Topher Grace como Eddie Brock? Não seria a minha primeira escolha, fato, mas ele tem a mesma cara do Tobey Maguire, servindo idealmente como um anti-Parker, dentro do mesmo estereótipo. Interessante, até.

Mas, por outro lado, o retrato que Raimi fez do Homem-Areia continua sendo genial, assim como a excelente seleção de Thomas Haden Church para o papel. Ficou claro mais uma vez o quanto o Raimi é fã do aracnídeo e de sua galeria clássica de vilões. É de longe a melhor escolha da produção. E estamos falando de um dos antagonistas com a história mais trágica no CÂNONE do Escalador de Paredes, um cara que já foi vilão, já foi herói, já foi mercenário sem um lado muito definido. A construção em torno da história da filha dele é emocionante na medida certa e me arrancou aquelas lágrimas obrigatórias em qualquer filme do aracnídeo. Se apenas ele fosse o vilão do filme, talvez metade dos problemas estivesse resolvido.

Gwen Stacy? Olha, a Bryce Dallas Howard ficou realmente linda, a caracterização perfeita, um verdadeiro sonho para qualquer fã dos gibis das antigas. Mas a utilização da personagem foi justamente apenas para fazer uma graça com os fanáticos, porque poderia ser ela ou qualquer outra garota que, no final, não faria a menor diferença. Não tem simplesmente como comparar com a Gwen da Emma Stone, muito mais interessante e com uma química nitidamente mais acertada com o Peter Parker da vez.

Aliás, se tem uma coisa que continua não convencendo aqui, e que não me convence desde o primeiro filme do Raimi, é o relacionamento de Peter com a MJ da Kirsten Dunst. Não tem jeito, não tem apelo, não te pega, não emociona, não faz você acreditar no amor daquele nerd convicto pela garota popular da escola.

Maaaaaaas... vejam vocês, polêmicas à vista, continuo não sofrendo de qualquer tipo de “vergonha alheia” pelo cabelo supostamente emo de Peter ou pelas cenas de dança. JURO. Acho que ambas foram escolhas divertidas, que cumpriram seu papel e injetaram uma dose daquele humor tão presente nos gibis do personagem e que fizeram falta nas películas anteriores. Se o Homem-Aranha de Raimi mal fala e faz suas tradicionais piadinhas, pelo menos a gente tenta arrancar risos de outras formas.

E continuo adorando a luta final, com Homem-Areia e Venom encarando o Aranha e o jovem Harry Osborn, vulgo Duende Verde (ou algo assim), usando os armamentos do papai psicopata. A batalha num prédio em construção, reunindo o herói e o ex-vilão que se redimiu, é um daqueles clichês de HQs que todos já vimos muitas e muitas vezes, mas que continuam sendo espetaculares. É totalmente anos 90? É, admito. O que é aquele Homem-Areia gigantesco, em nome do todo-poderoso Odin? Mas eu ainda acho fantástico. Baita clímax.

No fim das contas, falando como capítulo final de uma trilogia (ainda que não tenha sido pensado assim, já que existiam planos claros pra Homem-Aranha 4, como bem sabemos), o conjunto da obra funciona. Em termos da relação de Peter com Harry e de Peter com Mary Jane, Homem-Aranha 3 é um encerramento ideal para diversas pontas soltas que Raimi foi deixando nos dois primeiros capítulos, me fazendo entender os três como uma única história.

Mesmo o tal do retcon, né. Não dá pra deixar de mencionar. Aquela coisa de “então, sabe o cara que matou o Tio Ben? Na verdade, ele não tava sozinho, SURPRESA!!!!!!!”. Flint Marko teve relação direta, tá arrependido, aquela história. Pois é. Eu sei.

Mas sendo meio Poliana, acho que, de algum jeito, ele funciona pra amarrar a trama, criar o mesmo tipo de conexão emocional que os outros vilões, Duende e Octopus, tinham diretamente com Peter Parker. Foi meio acelerado, num terceiro ato já bastante confuso e atrapalhado. Mas vamos lá, que leitor de gibi NUNCA se deparou com um dos trocentos reboots/remakes/rebirths que tanto a Casa das Ideias quanto a Distinta Concorrência resolvem fazer todos os anos? Cêis já deviam estar mais do que acostumados. <3

Sim, sim, eu ainda queria ver Sam Raimi dirigindo muitos filmes do Teioso – e, na real, toparia fácil vê-lo dirigindo um outro filme de super-herói. Não dá pra negar que o cara entende todo o universo do Aranha e, portanto, seu trabalho merece também ser analisado pelo conjunto da obra. Não é um filme perfeito, concordo. Mas é um filme que, para este que vos escreve, ainda é diversão garantida. Pois como diz o amigo Paulo Martini: até um filme ruim do Sam Raimi é muito melhor do que a maior parte da filmografia do Michael Bay.

Chega a ser, no entanto, bastante curioso que Homem-Aranha: De Volta ao Lar chegue aos cinemas exatamente uma década depois de Homem-Aranha 3 – e que seu vilão seja aquele mesmo Abutre que o Raimi queria em seu Homem-Aranha 4. Uma daquelas ironias do destino que a cultura pop acaba nos reservando vez por outra.