A Teoria dos Supermen | Judão

Maxissérie chega ao terceiro número tocando em uma questão que já passou pela cabeça de qualquer um que leia gibis de super-heróis — e que desenha um futuro sombrio e ao mesmo tempo bem interessante para a DC

Seja nos livros, nos gibis, nas séries ou mesmo nos filmes de ficção científica, toda vez que extraterrestres dão as caras, qualquer bom consumidor de cultura pop já deve ter se pegado pensando em algum momento “vem cá, por que diabos estes ETs sempre descem nos EUA mesmo...?”. A resposta, claro, está FORA da trama, em quem e ONDE se produz grande parte da tal da cultura pop que a gente consome. Mas em termos narrativos, dentro das histórias, isso parece bastante esquisito e, vamos lá, são poucas as obras que abordam o tema com alguma propriedade.

O mesmo questionamento vale pros gibis de super-heróis, sejam eles da Marvel, da DC, da Image, da Dark Horse. Por que diabos a maior parte da população de heróis fantasiados do planeta está concentrada na Terra do Tio Sam? Tá bom, os leitores mais fanáticos devem, neste exato momento, estar levantando nomes de heróis de outros países, tipo o Soviete Supremo, a Fogo, o Mancha Solar, a Tropa Alfa, o Solaris... Até o Wolverine, certeza que tem gente que vai usar como exemplo. Mas percebam que estas são exceções que dão pra contar nos dedos, já que a grande maioria dos justiceiros superpoderosos e, igualmente até, suas contrapartes vilanescas, são EGRESSOS dos EUA?

De maneira bastante inteligente, a maxissérie em 12 partes Doomsday Clock, escrita pelo chefão da DC Geoff Johns, está trazendo o assunto à tona. E a parada, inicialmente tratada como uma espécie de teoria de conspiração que está dividindo a população, já ganhou até nome na imprensa: The Supermen Theory.

Basicamente, quando Ozymandias encontra uma forma de sair do mundo devastado de Watchmen e traz o novo Rorschach para ajudá-lo a encontrar o Dr. Manhattan (teoricamente a única saída para impedir o iminente apocalipse nuclear entre nações lá na sua Terra) nas ruas da Gotham City do Universo DC regular, temos Johns mais do que integrando de vez estes dois mundos de personagens e colocando a obra de Alan Moore na cronologia atual da editora. Ele também está desenhando o futuro da DC — e a treta promete ser pesadíssima e, de alguma forma, bastante relacionada ao mundo em que vivemos hoje.

Vale lembrar que, cronologicamente, Doomsday Clock se passa exatamente 1 ano depois de tudo que está rolando atualmente nos gibis da DC. Portanto, o que acontece hoje vai inevitavelmente chegar neste ambiente inóspito ao qual Ozymandias e Rorschach são apresentados, inicialmente a partir de Gotham City.

Tudo começou com uma denúncia da Dra. Helga Jace — surgida originalmente em 1983 como a cientista do país fictício chamado Markóvia e que foi responsável por dar superpoderes ao Geoforça — a respeito da forma como indivíduos do tipo Rex Mason, o Metamorfo, Kirk Langstrom, o Morcego-Humano, e Sondra Fuller, a Lady Barro (versão feminina do Cara-de-Barro, mas a gente admite que o nome em português é terrível) ganharam suas habilidades. Basicamente, todos eles eram humanos que acabaram sendo submetidos a contaminações acidentais e experimentações que então os tornaram meta-humanos.

No entanto, existem documentos que comprovariam que, nestes três casos, pelo menos, nada seria “por acidente” — e que o trio esteve envolvido de alguma forma com integrantes e projetos de replicação do chamado Departamento de Assuntos Meta-humanos, uma divisão secreta do governo dos EUA dedicada a criar seus próprios Supermen.

É partir daí que os âncoras dos principais telejornais do planeta começam a se perguntar: como diabos, depois do surgimento do Superman, aconteceu esta explosão de aparecimento de metahumanos, tanto heróis quanto vilões? E por que 97% deles estão concentrados nos EUA? Sim, sim: o governo poderia estar muito bem por trás desta incidência brutal, criando direta ou pelo menos indiretamente verdadeiras armas de destruição em massa que caminham disfarçadas em roupas civis entre os mortais. Nada disso seria, de fato, coincidência.

O que isso significa para os heróis? A total e plena desconfiança da população. Tudo leva a crer que o Superman é um dos poucos que ainda têm créditos com o povo — mas em Gotham City, por exemplo, o Batman é enxergado como uma ameaça, alguém talvez envolvido com esta Teoria dos Supermen. Afinal, até agora, os três nomes revelados são relacionados a ele, seja antes ou depois do Rebirth/Renascimento — dois inimigos e um amigo/comandado no time dos Renegados. O Homem-Morcego se tornou um monstro a ser combatido pela opinião pública e a massa pede que ele arranque sua máscara e revele seu rosto. Por que atuar em segredo, se não tem nada a esconder?

Isso não te lembra nada? Talvez o ambiente que começou a se formar na Marvel antes da implementação da Lei de Registro dos Super-Heróis e que, depois, tornou-se a Guerra Civil? Bom, a comparação pode ser imediata, mas a gente vai ainda mais longe no passado. Lembra de... Watchmen? Pois é. Um clima de total desconfiança com os super-heróis levou, no ano de 1977 dentro da cronologia da série, à aprovação da chamada Lei Keene, que tornou os combatentes do crime fantasiados ilegais. A DC estaria se preparando para, daqui a um ano, ter o seu próprio Watchmen acontecendo oficialmente dentro da cronologia oficial?

Mas calma que tem mais: a “campanha” contra os heróis ter começado com o Batman aparentemente tem um OUTRO motivo mais claro. E ele é, digamos, bem mais corporativo. Porque existe uma verdadeira guerra entre a Wayne Enterprises e a LexCorp. Basicamente, a empresa de Lex quer de toda forma “absorver” — aka “comprar com uma quantidade absolutamente obscena de dinheiro sem direito a não como resposta” — a companhia do Bruce. O motivo principal? Suas pesquisas sobre o chamado metagene, aquele gene latente que, quando despertado, faz as habilidades meta-humanas virem à tona, conforme descobrimos durante o crossover Invasão, aquele dos domínions, que inspirou o primeiro encontrão dos personagens das séries do canal CW.

Lex se declara abertamente contra os super-humanos e, inclusive, desenvolve uma parada chamada “detector de metagenes”. E aí que fode tudo.

Porque, pra complicar a questão, a situação política está bem tensa e perto de explodir (te lembra algo? Talvez ler as atuais manchetes internacionais dos jornais ajude). Assim como acontece na vida real com a corrida atômica, os países estão loucos para criar seus próprios super-humanos também. Um noticiário mostra uma explosão em um laboratório alemão que tentava replicar o surgimento destes seres, relacionado com o super-herói local conhecido como The Wild Huntsman. Para conter o pânico, a LexCorp licencia seus detectores de metagene e os espalha em aeroportos ao redor do planeta, ao mesmo tempo em que países como o Paquistão e a Rússia são acusados de usá-los para encontrar meta-humanos em potencial e usá-los para os seus próprios planos.

Talvez este seja o estratagema de Luthor, replicando o que outra mente brilhante, a de Adrian Veidt, fez para tentar unir a humanidade contra um inimigo comum no universo de Watchmen. A Teoria dos Supermen pode ser criação do arqui-inimigo do Homem de Aço, afinal. Aquele que, pós-Rebirth, chegou a assumir provisoriamente a sua própria identidade como um “Superman” e lutar contra as forças do mal ao lado de seus outrora desafetos.

É neste mundo que Kal-El e o Dr Manhattan enfim vão se encontrar. E é este o mundo no qual a DC vai se transformar oficialmente, em toda a sua linha, daqui 1 ano. Uma decisão bastante corajosa de Johns.

De qualquer forma, faz cada vez faz mais sentido que esta série se chame Doomsday Clock. Porque tanto lá, no mundo da DC, quanto cá, mundinho real, o Relógio do Juízo Final marca 2 minutos para o apocalipse e aumentam exponencialmente as chances da humanidade chegar à sua destruição total.

A grande diferença? Infelizmente, aqui não temos um Superman para salvar o dia. Mas a pergunta de 1986 ainda permanece, em qualquer um dos dois mundos, real ou ficcional: quem vigia os vigilantes?