The OA: nem tanto ao Inferno, mas definitivamente não o Céu | Judão

Primeira temporada da tal nova COQUELUCHE da Netflix não é ruim, tá longe de ser ótima, mas TALVEZ mereça sua fé e boa vontade.

Tal qual a checagem anual de que Roberto Carlos segue vivo, The OA pintou no apagar das luzes de 2016 e virou a nova COQUELUCHE do Netflix. Com bons personagens, diálogos envolventes e um mistério bem desenvolvido, ela tende a cumprir muito bem a função número um da plataforma: te fazer MARATONAR.

Mas, porém, contudo, entretanto, todavia... The OA tem alguns sérios problemas.

NO DURO (e no material de divulgação oficial), a série conta a história duma mulher cega (Brit Marling, co-criadora da série e esquisitamente amável como a protagonista Prairie Johnson) que, depois de sete anos desaparecida, ressurge enxergando, após uma suposta tentativa de suicídio envolta em mistério, chamando a si mesma de OA (que deveria ser AO, mas... enfim).

De volta à vida normal, OA reúne um grupo pra lá de improvável de quatro XOVENES — um valentão, um bom-aluno-bom-filho-bom-esportista-drogado, um menino transgênero, um nerd deslocado e maconheiro — e mais uma professora frustrada de meia-idade, para então contar sua verdadeira história.

O que se segue a partir daí, ao longo de todos os oito episódios da série, são idas e vindas — do passado, nos sete anos em que OA esteve desaparecida, ao presente em que ela luta para manter o grupo unido em busca da conclusão de um certo objetivo — que relegam aos eventos passados todos os acontecimentos de peso DE VERDADE na trama. O grande conflito e tudo aquilo que faz da série um “drama sci-fi/suspense sobrenatural” (ou algo assim) JÁ ROLOU. O que nos deixa, no final das contas, apenas acompanhando pessoas ouvindo uma história. ¯\_(ツ)_/¯

Como consequência, o enredo se fratura em diferentes produtos: a contação de história de OA pros desajustados, a luta pela sobrevivência durante seu período de desaparecimento e o momento em que essas duas distintas narrativas devem se cruzar, fazer sentido e FINALMENTE, fazer valer o esforço e a boa vontade do espectador.

Porque, veja, não há problema em basear toda uma temporada em flashbacks, vide a brilhante segunda temporada de Hannibal (se não viu, veja), contanto que o desfecho consiga não só amarrar toda a jornada narrada, como também minimamente concluir algo para o espectador.

Personagens e público começam a história questionando a sanidade e, consequentemente, as ações da protagonista; logo são submetidos a uma longa e às vezes árdua (de acompanhar) jornada de esclarecimento, que toca em questões como vida após a morte, o sobrenatural e, claro, as IMPLICAÇÕES de Experiências de Quase Morte (EQMs, mais que centrais à temática da série). Mas quando nós e eles parecemos convencidos de tudo, vem a própria série levantar novas dúvidas e então terminar de maneira brusca, deixando aquela sensação de que tudo foi em vão.

Gostar de The OA é um exercício de fé. Fé na capacidade dos produtores, na visão dos roteiristas e no aprendizado de todos os envolvidos para uma segunda temporada.

Nada disso significa que The OA seja ruim, porém, ou que não haja pelo menos algo de bom em assistir à série. Se apoiada pela sua boa vontade, ela é capaz de te fazer pensar – talvez a coisa mais importante numa produção audiovisual, capaz de reduzir todas minhas queixas supracitadas a simples mimimi... ou talvez não. Pensar sobre a vida, morte, passado, futuro e, principalmente, a verdade. Ou as várias verdades. Seja ela a minha, a sua ou a de OUTREM.

Ela te convida — e é exatamente aí onde mais acerta — a mergulhar num grupo de pessoas distintas, diverso, unido em busca de um ideal duvidoso mas que ali, no lugar onde escolhem se juntar, fazem com que tudo faça sentido, e dúvida nenhuma importe. Você é sugado para dentro de uma experiência que vai além de só assistir, e se sente parte de tudo isso. Ao precisar dar algo à série, a fé na sua qualidade, você, assim como seus carismáticos personagens secundários, espera algo grandioso em troca. E se frustra, assim como eles, quando isso não rola. Mas não é assim na vida? :D

Talvez estejamos mal acostumados pelas séries de hoje, capazes de entregar desfechos agradáveis e suficientes a cada temporada (como não pensar naquela delícia de season finale de Westworld?), a ponto de rapidamente desistirmos duma série que faz o contrário.

Talvez The OA venha, como a própria personagem diz, pra mudar tudo, fazendo de si mesma uma representação de sua temática. Talvez ela seja o convite para revisitar uma forma perdida de curtir uma série oooou talvez ela só tenha feito tudo isso duma forma ruim, negando a si mesma e, no final das contas, fazendo com que assisti-la terminasse por parecer tempo perdido.

Se The Oa é, foi ou virá a ser uma COQUELUCHE mesmo, uma série SENSAÇÃO como Stranger Things, isso eu não sei. O que eu sei é que o chocolate recheado de creme de morango (ou limão) é sempre uma delícia. E não deixa um gosto amargo no final.

Entenda você aí esta metáfora SOBREMESÍSTICA como bem quiser. ;)