The Warriors: uma leitura desagradavelmente obrigatória | Judão

Num mundo atualmente tão cheio de autores preocupados em encontrar “a voz dos adolescentes”, a obra de Sol Yurick que deu origem ao filme do finalzinho dos anos 70 soa surpreendentemente incômoda e atual

O leitor moderno está mal-acostumado há mais tempo do que se imagina. Há tantas regras, gêneros e convenções narrativas em ação no mercado literário que a maioria dos livros publicados no última década encaixa-se em alguma fôrma ao invés de criar novos caminhos. Vivemos um reflexo sentido desde o último grande boom criativo na literatura, que aconteceu com as ondas culturais dos anos 60 e 70. Exagero? Nem tanto. A razão? Conformidade.

Quando Kerouac arriscava tudo para se encontrar e Ginsberg ousava sem ponderar, por exemplo, a mentalidade de mercado era outra. Era o sentido de novidade, da nova voz ponderando sobre as mesmas demandas, era a coragem sobre a comodidade. Muito disso aconteceu em nichos, claro. Mas, ainda assim, heróis, vilões e novas rotas surgiram e, felizmente, se concretizaram na literatura. Sem entrar na defesa da contracultura, fazer uma ode aos beatniks ou tentar comparar literatura independente com o mainstream, pontuar essa perspectiva tem uma função clara aqui: há 40 anos, ousar era necessário, quase obrigatório. Todo mundo queria pirar e se redescobrir. E a literatura fez bom uso do momento.

Mas quero falar sobre The Warriors – Os Selvagens da Noite, de Sol Yurick, publicado originalmente em 1965. Qual a ligação, com os parágrafos acima, do livro que inspirou o filme, que virou videogame, que vai virar série nas mãos dos irmãos Russo e influencia mesmo quem não assistiu até hoje? A resposta é: ausência de conformidade.

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Primeiro temos um filósofo de Nova York que resolve atualizar um clássico grego (Anábase, do historiador grego Xenofonte, sobre um grupo de soldados gregos que marcharam para o centro do império persa) com base em anos de trabalho como assistente social que vivenciou a evolução e violência do mundo das gangues numa cidade sucateada e financeiramente segregada no pós-guerra. E, mais de uma década depois, eis que se vê tudo isso transformado num filme com uma linguagem mais avançada ainda. Basicamente, temos três momentos históricos condensados num mesmo produto. É um exemplo do conceito do pintor que pinta um quadro de um pintor pintando um quadro.

Temos uma mesma história ecoando pelos séculos. Mas uma história que existe por si, não como a tentativa de encontrar um reflexo da voz de determinado público-alvo (como acontece com livros de gênero, sejam eles adolescentes, femininos ou para machões), e sim como um exercício de análise sociocultural e visto por óticas diferentes. Claro, sempre mantendo-se o elemento base: a luta pela sobrevivência, analisada aqui como o retorno para casa depois de uma batalha. Mais uma prova de que, essencialmente, o ser humano continua a sofrer com as mesmas dúvidas, medos e ânsias desde sempre.

Muitos de nós ainda são os mesmos jovens mercenários de Anábase ou os membros dos Coney Island Dominators, ou qualquer versão moderna que envolva um retorno árduo ao lar (Guerra ao Terror e Sniper Americano são alguns dos exemplos). É difícil voltar para casa, pois a batalha – seja ela qual for, militar ou não – oferece um objetivo claro, um uso específico para nossas habilidades e ideias. Quando o conflito externo termina e o retorno se faz necessário, o sujeito é confrontado com a volta à situação antiga (que é quase impossível por conta das transformações primordiais sofridas durante o processo) ou a criação de algo novo (igualmente assustador, afinal, novidade é incerta e incontrolável). A jornada de volta exige o verdadeiro autodescobrimento, a aceitação real daquilo que foi feito na batalha e quais seus efeitos no novo indivíduo.

É disso que The Warriors trata. Porém, ele não é óbvio na sua leitura e coloca o leitor a bordo dos trens, correndo ao lado de uma gangue de jovens negros, inseguros, imaturos, violentos e sem a menor perspectiva de uma vida “decente”. Eles são os “vilões” do mundo moderno, fazem coisas terríveis, agem como tudo que aprendemos a repudiar. Mas são reais, pulsantes, desesperados para serem ouvidos. Essa decisão pode afastar os leitores modernos, acostumados aos mocinhos e mocinhas com falhas aceitáveis ou anti-heróis sedutores e quase idealistas.

É impossível gostar dos Dominadores de Coney Island. Eles reagem ao modo como veem o mundo: como uma ameaça constante, como um monstro pronto para dar o bote e acabar com eles. A resposta é uma só: fé nos conceitos mais familiares – neste caso, na Família composta pelos membros da gangue – e na agressividade. É a lei do mais forte em ação, pura e simples.

Meu senso de leitor moderno esperava por uma redenção que nunca veio, por uma salvação na próxima página, mas então compreendi que isso não aconteceria, pois estava diante de um livro honesto com o objeto de análise. É algo como o nosso Cidade de Deus. A vida de Zé Pequeno é, e sempre será, aquela lá. A fada madrinha passa longe das narrativas de quem é oprimido sistematicamente. O momento de compreensão mudou a perspectiva sobre The Warriors, pois ali caiu a última barreira – e esperança – de que a história do filme e do livro chegassem ao mesmo final. As conclusões são completamente DÍSPARES. E não é por menos: os personagens são tão distantes que é praticamente impossível encontrar uma relação mais aprofundada entre as duas obras.

Exceto pela presença de uma gangue tentando voltar para casa, livro e filme são completamente diferentes. E, nesse aspecto, o livro se mostra constantemente relevante. Basta revisar os dois produtos e confirmar que apenas um deles ainda se sustenta. E sem ficar na lorota do “o livro é melhor que o filme”. Hinton é o grande protagonista e, embora Lesadão e os demais membros da gangue tenham o mesmo objetivo, é dele o arco dramático, é dele o descobrimento, é dele que vem a pouca empatia presente no livro e a constatação da validade do mundo habitado por aqueles garotos. Sim, garotos. No original, o objeto de estudo são gangues de pivetes jovens demais para grandes roubos e velhos demais para sonhar como crianças. Longe de embelezar a desgraça, eles são moleques tentando descobrir o que é ser homem enquanto vivem presos no limbo da indiferença. Eles são apenas um problema para todos. E só.

Numa das passagens mais relevantes, Hinton confronta um jogo pré-fliperama: um duelo com um delegado do Velho Oeste. Se a narrativa de Yurick é meio óbvia e bastante direta na maior parte do livro, neste trecho ele resolve se soltar. É um desabafo sincero e profundo. Um catalisador para toda aquela noite insana que serve para justificar mais uma noite longe da “Prisão”, nome dado às famílias biológicas, os cárceres fora da gangue.

Embora não descaradamente, The Warriors segue a estrutura de um guia de viagens, ao levar os personagens por um passeio um tanto insólito pelas ruas de uma Nova York que não existe mais. O artifício escolhido por Yurick garante uma dinâmica interessante à obra, pois transforma a cidade – e tudo aquilo que ela, como o “mundo dos adultos”, representa. Tudo é hostil, lugar nenhum é seguro e eles acabam sendo atraídos – ou conduzidos – a outros ambientes tão selvagens quanto a área de onde saíram. O confronto com uma gangue de latinos é particularmente interessante, pois acentua as diferenças culturais e evidencia o microcosmo habitado pelo exército informal de menores criminosos.

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O Bronx, ao Norte, onde a briga inicial acontece, e Coney Island, ao Sul, onde fica a base dos Warriors, estão em extremos opostos da cidade. Logo, a peregrinação de Hinton e seus companheiros é uma descendente em direção ao inferno. Nada de escalada árdua até chegar ao objetivo. Eles já passaram desse ponto e, pior, perderam, afinal, o encontro e a união propostos por Ismael – um pouco mais velho, mas igualmente perdido no limbo – caem por terra pela simples imaturidade e insegurança dos envolvidos. É como se não lhes fosse permitido nada além da natureza precária das gangues. Nada de realizações, apenas sonhos de glória que chegavam ao fim a cada novo dia, apenas para recomeçar exatamente do mesmo jeito, como jovens versões de Prometeu, destinados a sofrer sem trégua.

Uma uma coisa é fato: The Warriors seria reprovado sumariamente no Teste de Bechdel. Não há mulheres entre os protagonistas e as que aparecem ou são namoradas submissas, encrenqueiras de plantão, vítimas de estupro ou bêbadas lamuriosas. Difícil saber se a culpa recai sobre o autor, a realidade da época em questão ou os dois, mas o livro trata sobre proto-homens, sobre sujeitos que imaginam o que é ser um macho da espécie e colocam esses devaneios corrompidos em prática da pior maneira possível.

O livro também funciona como rito de passagem às avessas. Pela linha de pensamento de Campbell, cada passo da jornada do herói fornece maior compreensão ao protagonista, sempre em prol do bem maior ou da causa em questão. Porém, nesse caso, o desmantelamento da Família e a ausência do velo de ouro (ou algo que cumpra a função de objetivo a ser conquistado) fazem com que a única iluminação possível seja “não há escapatória”. Por esse aspecto, pode parecer que The Warriors não tem razão de ser. Afinal, se os personagens não têm esperança, por que acompanhamos sua jornada insana? Mas é justamente a desesperança que motiva, pois torcemos para alguma melhoria, alguma saída, uma luz no fim do túnel.

The Warriors é uma leitura desagradavelmente obrigatória ainda mais num mundo tão cheio de autores preocupados em encontrar “a voz dos adolescentes”. Livros como este são necessários para a verdadeira formação de caráter, ao promover o confronto entre algo desagradável e nossos parâmetros de certo e errado. Livros como este são complementos necessários aos sonhos, pois apenas quando encaramos um pesadelo sem fantasmas ou forças sobrenaturais, percebemos que aquela relação amorosa mágica, aquele emprego fantástico, aquela realização tão especial são possíveis apenas por não termos sidos criados no inferno do descaso.

Socialmente, somos treinados a imaginar que o melhor sempre vai acontecer e que, mesmo contra todos os indícios, sempre há uma chance de redenção. Para os Dominadores, a estagnação social e a proteção da noite são tudo que existe.