The Weeknd fez showzão, mas pregar para convertidos é suave | Judão

Com seu R&B eletrônico que tem bem menos R&B que eletrônico, cantor canadense deu show tecnicamente irrepreensível e incrível para os fãs do seu som.

Quer você curta ou não, The Weeknd é um fenômeno pop monstruoso e inegável. Como se não bastasse ter colocado seu segundo álbum NA VIDA lá no topo das paradas da Billboard, com três de suas músicas encabeçando a lista HOT R&B no top 3 simultaneamente – feito inédito na história – o cara já conquistou dois Grammy e o respeito de gente bem conceituada na indústria, como Drake, Halsey, Tove Lo, Babyface... e Selena Gomez. ;)

Pela primeira vez em terras brasileiras, o canadense teve a chance de mostrar o porquê disso tudo pro público que lotou os arredores do palco Ônix do Lollapalooza Brasil 2017. E conseguiu. Aos olhos duma das mais ensandecidas multidões do festival, o cantor dançou, cantou e xavecou sem parar. Exatamente como se esperava.

Weeknd tem presença de palco, marra e estilo. Isso, somado à belíssima estrutura e esquema de iluminação do show (que transformam o cantor em uma sombra em constante movimento num contraste com fortes raios de cor que acendem e apagam no ritmo da batida), parece envolver os fãs do cara num tipo de transe. O som, cheio de recursos típicos de EDM e sempre MUITO alto, talvez até demais para quem ficou perto do palco – perdendo bastante a sutileza entre músicas mais lentas e agitadas e jogando até contra a voz do cara em momentos mais pesado – marcava cada passo de dança de quem se revezava entre curtir a experiência e registrá-la.

Ah, sim, os registros! Muito mais do que com Metallica, Duran Duran e até Strokes, o show de Weeknd foi curtido por meio de uma TELINHA pela maioria dos presentes ali. E por algum motivo (me diga qual, por favor), as jovens mulheres da plateia pintavam no TELÃO a rodo, justamente enquanto os versos do cara falavam de formas sutis (ou nem tanto) sobre a boa e velha FURUNFADA.

Como estou longe de ser fã da música do cara, toda essa ambientação acabou só aumentando minha sensação de que seu sucesso comercial ainda não se traduziu em algo capaz de atingir alguém para além do seu público-alvo. Não é um som realmente único, diferente, com assinatura.  É algo difícil de ter identidade neste momento em que mais e mais artistas surgem fazendo exatamente o que o cara faz: misturar Ne-Yo com Calvin Harris.

No meio daquela massa de fãs, no entanto, dá pra ver que o cantor é um produto perfeito. Suas letras são monotemáticas e fáceis de entender e se relacionar: falam sobre o amor que é, foi ou será, ou sobre as noitadas que vêm com a busca por ele. Sua voz, às vezes nasal demais (em alguns momentos, confesso, me lembrei de Alvin e os Esquilos), tem toques de Michael Jackson quando convém, mas aquele ar sensual quando precisa. E seu estilo meio “fodam-se vocês” funciona pra instigar os fãs, mas principalmente AS fãs.

Só que isso cansa quem não chega lá com pré-disposição de gostar de tudo. Para um festival, em que parte da graça é mesmo conhecer sons fora da sua zona de conforto, a sucessão de beats eletrônicos com letras redundantes começa a cansar. Felizmente, o estilo mais swingado de I Can’t Feel My Face – pra mim, a composição mais inspirada do cara, num estilo que eu esperaria muito mais que viesse de Bruno Mars do que dele – ajuda a dar uma variada. Mas não basta.

Claro que o argumento “o cara pode muito bem fazer show só pro público dele” é válido. Ou algo como “ah, ele não tem que agradar todo mundo”. Só que, para dar um exemplo num outro estilo musical, o Metallica só é uma das maiores bandas do planeta (pra mim, A maior) porque consegue reunir e conversar com uma cacetada de gente diferente com pelo menos umas quatro ou cinco faixas, isso até no seu show mais fraco. E é esta parada que diferencia uma atração FODA de uma MUITO BOA, em especial num festival.

Quando eu tava nos meus 14, 15 anos, curtia muito um R&B, com uns sons simples e românticos, carregados de influências clássicas da música negra, mas numa roupagem mais jovem, moderninha, atualizada. Faixas como So Sick e Because of You viviam tocando na TV de casa e no meu MP4, e quando pintava um som nesse estilo, mas mais eletrônico pra dar uma variada (Akon e Chris Brown me vêm à mente), era legal pra cacete. Só que um dia girou o ciclo da moda e esses caras tiveram de incrementar/mudar seu estilo ou então aceitar a perda de espaço na indústria.

Agora, The Weeknd estoura com um R&B que é muito mais música eletrônica do que era o estilo há uns 5, 7 anos. Seu show poderia tranquilamente ter rolado no palco Perry’s do festival, dedicado à EDM, que seria muito bem recebido. E faria sentido pra cacete.

O estilo que eu curtia na adolescência agora volta, incrementado e adaptado ao gosto dos XÓVENS, só que com uma outra cara. Quem sabe, numa próxima girada do ciclo da moda, o esquema seja simplificar mais uma vez. Acho que pelo menos eu ia gostar mais.